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Um vírus, a humanidade e a terra

Durante esta crise, precisamos aprender a proteger a terra, o seu clima, os direitos e os habitats das diferentes espécies, os direitos dos povos indígenas, das mulheres, dos agricultores e agricultoras e dos trabalhadores e trabalhadoras. Por Vandana Shiva.
Mostarda cultivada localmente oferecida pela Navdanya para pequenos agricultores cultivarem. Foto de @IndraSsingh no Twitter.
Mostarda cultivada localmente oferecida pela Navdanya para pequenos agricultores cultivarem. Foto de @IndraSsingh no Twitter.

Um pequeno vírus confinou o mundo, parou a economia global, tirou a vida de milhares e o sustento de milhões de pessoas.

Que lições podemos aprender, graças ao coronavírus, sobre a nossa espécie humana, os paradigmas económicos e tecnológicos dominantes e a terra?

A primeira coisa que o confinamento nos recorda é que a terra é para todas as espécies e que quando abrimos espaço e libertamos as ruas de carros, a poluição se reduz. Os elefantes podem ter acesso às áreas residenciais de Dehradun e se banhar no Ganges, no ghat de Har Ki Pauri, em Haridwar. Um leopardo vagueia livremente em Chandigarh, a cidade projetada por Le Corbusier.

A segunda lição é que esta pandemia não é um desastre natural, assim como os fenómenos climáticos extremos também não são. As epidemias emergentes, assim como a mudança climática, são antropogénicas, ou seja, causadas pelas atividades humanas.

Os cientistas avisam-nos que ao invadir os ecossistemas florestais, destruir os habitats de muitas espécies e manipular as plantas e os animais para obter lucro económico, fomentamos o surgimento de novas doenças. Ao longo dos últimos 50 anos, apareceram 300 novos patogénicos. Está escancaradamente documentado que 70% dos patogénicos que afetam o ser humano, entre os quais estão o HIV, o ebola, a gripe, a síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS, na sigla em inglês) e a síndrome respiratória aguda grave (SARS, na sigla em inglês) surgem quando os ecossistemas florestais são invadidos e os vírus se transferem de animais para pessoas. Quando se amontoam animais em quintas industriais para maximizar os lucros, afloram novas doenças como a gripe suína e a aviária.

A avareza humana, que não respeita os direitos de outras espécies, nem os direitos dos membros de nossa mesma espécie, é a raiz desta pandemia e das pandemias que a seguirão. Uma economia global baseada na ilusão do crescimento ilimitado traduz-se num apetite insaciável pelos recursos planetários, o que, como consequência, se traduz numa ilimitada transgressão dos limites do planeta, dos ecossistemas e das espécies.

A terceira lição que o vírus nos ensina é que a emergência sanitária está relacionada com a emergência da extinção massiva de espécies. Também com a emergência climática. Ao se utilizar venenos como inseticidas e herbicidas para matar insetos e plantas é inevitável provocar uma crise de extinção. Ao queimar combustíveis que a terra fossilizou há 600 milhões de anos, transgredimos os limites planetários. A consequência é a mudança climática.

Os prognósticos dos cientistas estabelecem que se não travarmos esta guerra antropogénica contra a terra e as espécies que a habitam, em cem anos teremos destruído as condições que permitem aos humanos viver e prosperar. A nossa extinção será uma a mais entre as 200 que ocorrem diariamente. Iremos converter-nos numa espécie em risco de extinção pela avareza, arrogância e irresponsabilidade humanas.

Todas as emergências que na atualidade colocam em risco vidas têm sua origem na visão mecanicista, militarista e antropogénica dos humanos como seres à margem da natureza, como amos e senhores da terra que podem dominar, manipular e controlar outras espécies como fontes de lucro. Também têm sua origem num modelo económico que considera os limites ecológicos e éticos como obstáculos que devem ser superados para aumentar o crescimento dos lucros empresariais.

Nesse modelo, não cabem os direitos da Mãe Terra, os direitos de outras espécies, os direitos humanos, nem os das gerações futuras. Durante esta crise e a recuperação após o confinamento, precisamos aprender a proteger a terra, o seu clima, os direitos e os habitats das diferentes espécies, os direitos dos povos indígenas, das mulheres, dos agricultores e agricultoras e dos trabalhadores e trabalhadoras.

Temos que romper com a economia do lucro e o crescimento ilimitado que nos levou a uma crise de sobrevivência. Temos que aprender de uma vez por todas que somos membros da família planetária e que a verdadeira economia é a economia dos cuidados: o cuidado do planeta e o cuidado mútuo.

Para prevenir futuras pandemias, carestias e a perspetiva de nos tornarmos sociedades em que a vida humana não tenha valor, temos que romper com o sistema económico global que está gerando a mudança climática, a extinção de muitas espécies e a propagação de doenças mortais. O retorno ao local abre espaço para que as diferentes espécies, as diferentes culturas e as variadas economias locais se desenvolvam.

Temos que reduzir de maneira consciente nossa pegada ecológica para deixar recursos e espaço disponíveis para outras espécies, para o restante dos seres humanos e para as gerações futuras. A emergência sanitária e o confinamento demonstraram que quando há vontade política, é possível reverter o processo de globalização. Façamos com que esta reversão seja permanente e voltemos à produção local e de proximidade, em consonância com os princípios do swadeshi (autossuficiência) que Gandhi promulgava, ou seja, o restabelecimento da economia doméstica.

A nossa experiência no movimento Navdanya ensinou-nos, ao longo de três décadas, que os sistemas de produção de policultivos locais e ecológicos são capazes de providenciar alimento à população sem empobrecer o solo, poluir a água e danificar a biodiversidade.

A riqueza da biodiversidade são as matas, os cultivos, os alimentos que consumimos, a microbiota intestinal, um fio condutor que comunica o planeta e suas diferentes espécies, também os seres humanos, por meio da saúde, não da doença.

Um pequeno vírus pode nos ajudar a dar um grande passo à frente para fundar uma nova civilização planetária ecologista, baseada na harmonia com a natureza. Ou, então, podemos continuar vivendo a fantasia do domínio sobre o planeta e continuar avançando até a próxima pandemia. E, por último, até a extinção.

A terra seguirá, connosco ou sem nós.

Vandana Shiva é uma ativista ambiental, defensora da soberania alimentar, do ecofemininismo e da alterglobalização. É doutorada em Filosofia pela Universidade do Ontário Ocidental. Foi fundadora da Navadanya uma organização indiana que promove a biodiversidade, a agricultura biológica e os bancos de sementes.

Tradução do Cepat para a Unisinos. De um texto originalmente publicado no Deccan Herald a cinco de abril. Revisto para o português de Portugal pelo Esquerda.net.

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