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Na Índia, o confinamento deu lugar ao maior êxodo desde a independência

A paragem de muitas das atividades produtivas deixou milhões de trabalhadores sem salários e sem condições de subsistência. Muitos estão a regressar a pé às zonas rurais de que são originários. A polícia tenta reprimir quem o faz.
Trabalhadores migrantes tentam regressar a casa no seguimento do decretar do confinamento obrigatório.Foto de @RejaulK51714742/Twitter.
Trabalhadores migrantes tentam regressar a casa no seguimento do decretar do confinamento obrigatório.Foto de @RejaulK51714742/Twitter.

Na terça-feira da semana passada, o primeiro-ministro indiano dirigiu-se à nação. Uma das principais medidas anunciadas não foi muito diferente de outras tomadas noutras latitudes. Narendra Modi decretou o confinamento durante 21 dias no país inteiro devido ao surto do novo coronavírus. Fábricas, lojas e restaurantes, todas as atividades não essenciais deveriam encerrar as suas atividades.

Só que o resultado não foi o mesmo do que nos países europeus que antes tinham tomado decisões semelhantes. Sem redes públicas de apoio e sem proteção contratual, largos milhões de trabalhadores dos setores informais da economia, para além dos migrantes, sazonais e à jorna, que trabalham nas fábricas, perderam desta forma a possibilidade de pagar o alojamento e o ganha-pão. Em grandes quantidades começaram a tentar regressar às zonas rurais de onde são originários. Muitos pé, porque a maior parte de comboios e autocarros estão suspensos e porque as deslocações por transportes públicos implicariam custos que agora se tornam incomportáveis.

Segundo, o jornal The Guardian, mais de 20 trabalhadores migrantes indianos morreram nos últimos dias a caminho de casa. Nessa mesma reportagem, Mamta, uma ex-empregada fabril em Gugaon, diz que ela e a sua família não tiveram escolha que não partir, que não tem comida nem dinheiro e que “a fome vai matar-nos antes do coronavírus”.

Entre aqueles a quem restou algum dinheiro, houve quem tentasse conseguir apanhar um dos poucos autocarros disponíveis. As centrais rodoviárias das grandes cidades, nomeadamente de Dehli, estão repletas de pessoas amontoadas. Tudo menos uma quarentena.

Este domingo, o governo reagiu ao êxodo decretando o encerramento das fronteiras entre estados. A polícia começou a prender quem ao longo das estradas tentava desesperadamente chegar a casa.

Nas zonas rurais, a preocupação é também outra: à medida a que vão chegando milhares de pessoas, procura-se colocá-los de quarentena para não levarem o novo coronavírus para as suas aldeias natais. Edifícios públicos estão a ser transformados em centros de quarentena. Sobrelotados e sem condições, as situações de violência vão crescendo.

A sobrelotação e as más condições de vida, eram já problemas que eram sentidos nos campos de refúgio para onde fugiram centenas de pessoas na sequência última onda de violência contra a minoria muçulmana no nordeste da cidade de Dehli que deixou 53 pessoas mortas, causou centenas de feridos e destruiu um número ainda não contabilizado de casas. Por achar que seriam focos prováveis de disseminação da doença, o governo da capital decretou o encerramento de campos como o de Eidgah. Disse que daria rações e três mil rupias para alojamento. Só que muitos nada receberam até agora e mesmo quem recebe não consegue arrendar casa com essa quantia.

Gás lacrimogéneo contra a manifestação do desespero

Em Surat, a tentativa dos trabalhadores migrantes de regressarem levou a confrontos com as autoridades este domingo. Segundo a agência Reuters, a polícia tentou dispersar um grupo de cerca de 50 trabalhadores lançando gás lacrimogéneo. Sem dinheiro e impedidos de regressar, os trabalhadores não têm nenhuma solução à vista. Esta segunda-feira, 93 deles foram presos por violar a ordem de confinamento.

No estado de Uttar Pradesh, no norte do país, as autoridades lançaram desinfestante sobre um grupo de trabalhadores migrantes que tentava regressar a casa. Em imagens difundidas por uma televisão local e que se tornaram virais, estas pessoas foram obrigadas a sentar-se e a ficar quietas enquanto eram atingidas à mangueirada.

Como no resto dos pontos do mundo onde foi decretada quarentena obrigatória, uma outra consequência da paragem de grande parte das atividades económicas e da redução de deslocações: em Delhi, a poluição daquela que é uma das cidades mais poluídas do mundo, foi reduzida para metade em três dias. Mas se o ar está mais respirável nas grandes cidades indianas, a situação social é sufocante.

Isto quando, oficialmente, o coronavírus ainda nem sequer atacou em força. No país de 1,3 mil milhões de habitantes há apenas 1071 casos declarados na Índia, dos quais 29 pessoas morreram. Só que estes números, avisam os especialistas, estão abaixo da realidade porque não há muitas pessoas a serem testadas.

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