Lançamento

Trinta, de Miguel Teotónio Pereira

26 de novembro 2025 - 16:45

Familiares, amigos e amigas, colegas de trabalho juntaram-se no início da tarde de sábado, na Biblioteca Municipal de Castelo de Vide para assistir à apresentação de Trinta, o livro póstumo de Miguel Teotónio Pereira.

por

Dulce Pascoal e Pedro Caldeira Rodrigues

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Júlio Henrique, editor e amigo do Miguel durante a sua intervenção, junto ao filho Tiago e a sua irmã Luísa Teotónio Pereira
Júlio Henrique, editor e amigo do Miguel, durante a sua intervenção, junto ao filho Tiago e a sua irmã Luísa Teotónio Pereira.

O Miguel nasceu em 1954 e morreu em agosto do ano passado. Teve uma filha, Alice, e mais tarde um filho, Tiago. Faria 71 anos na véspera deste tributo que decorreu não longe de Marvão, onde se fixou desde 1985, tornando-se técnico de bibliotecas.

Fundador do Movimento de Esquerda Socialista (MES), reconhecido pelas suas convicções e intransigências, percorreu variadas profissões, aderiu desde o primeiro momento ao Bloco de Esquerda, acabando por se desvincular do partido. Após a sua partida, Francisco Louçã, seu amigo e companheiro de combate no Liceu Padre António Vieira, também lhe deixou um testemunho.

Muitos dos amigos e amigas que se juntaram neste dia 22 de novembro na Biblioteca Municipal Laranjo Coelho, e que percorreram as instalações, da entrada até uma sala para crianças, onde o seu neto Tomé partilhou um desenho feito para o avô e inspirado na biblioteca, e do seu local de trabalho até ao salão do último piso, já tinham em mãos o Trinta, disponível numa banca à entrada. No primeiro piso, José Galamba, um amigo próximo, recordou a figura do Miguel e diversos momentos de cumplicidade. 

O livro é composto por um conjunto de 30 textos (222 páginas) editados pela Flauta de Luz. Inclui ainda três desenhos de sua irmã Helena. Pode ser adquirido aqui.

A iniciativa partiu de seu filho Tiago e de alguns amigos e contou com um momento emotivo, uma gravação vídeo do seu neto equatoriano, Leo Achik, a tocar ao piano uma peça de Mozart e projetada num ecrã do auditório. 

O editor da Flauta de Luz, Júlio Henriques, foi um dos intervenientes, para além de seu filho Tiago, que no final da sessão leu dois textos do livro. Antes ouviram-se outros testemunhos, alguns sobre o trabalho do Miguel nesta biblioteca e a sua íntima relação com os livros. A vice-presidente do município, Helena Esteves, e um dos frequentadores da biblioteca recordaram o profissionalismo e o empenho do Miguel, que tão bem conhecia “todos os cantos à casa”. Após o lançamento, e de regresso à entrada do edifício, confraternizou-se com vinho e doces locais, num convívio caloroso e emotivo.


Texto lido pelo editor e amigo Júlio Henriques:

Este livro devia ter sido publicado em 2017. Faltava apenas entregar na gráfica o material preparado. Mas no último momento o Miguel decidiu que não. Lembro isto para referir um aspecto que a meu ver é profundamente significativo no tocante a este livro: o contraste entre o desconcertante desprendimento do autor relativamente aos seus escritos e a particular qualidade desta obra. Parecia bastar-lhe que a lessem apenas alguns amigos e amigas a quem oferecera meia dúzia de exemplares do manuscrito, por saber, conhecendo-os, que eles saberiam apreciá-la.

Livro “Trinta”, de Miguel Teotónio Pereira
Livro “Trinta”, de Miguel Teotónio Pereira

Mas a dimensão deste livro e o seu interesse extravasam desse círculo restrito. Não se trata de um livro concebido de uma forma a que poderíamos chamar de «inocência literária», um tentame de feição diletante. Por um lado, a sua escrita revela uma grande destreza e agilidade literária, revelando a mão sábia do escritor imerso na matéria específica do discurso literário, e, por outro lado, a arquitectura narrativa desta obra mostra bem a complexidade do discurso nela construído, um discurso que tem exigentes leis próprias no seu caudal expositivo.

No contraste para que chamo a atenção, entre o grande desprendimento do autor perante a obra e o carácter notável do que criou, sobressai o que penso ser a manifestação de um espírito superior (ele não gostaria de ouvir isto), de um espírito desprendido não só das mundanidades associadas às enormes futilidades costumeiras – ainda mais costumeiras na sociedade do espectáculo em que vivemos –, mas desprendido também das visões canónicas que predominam no entendimento do que são a literatura e as artes no nosso tempo. O Miguel Teotónio Pereira nutria uma visão que eu diria salutarmente crítica do que em geral significam a literatura e as artes nos nossos dias tão capturados pelo negócio intimamente associado ao vale-tudo. Neste livro, essa visão manifesta-se por vezes de forma declarada e de diversas maneiras, de resto logo no primeiro texto. Mas está presente, a meu ver, no modus vivendi do texto como um todo, aliás a partir do título, que não é prosaico, apesar da aparência, antes exclui de imediato qualquer protuberância de exibição. Está presente na diversidade de estilos e formas que o livro expõe, ao incluir prosa ficcional e poesia numa sequência cuja formulação se divide em capítulos, e também nos temas e como estes são tratados, sendo de registar as inspirações de carácter mítico – relativas a grandes mitos narrativos positivamente considerados, situados em dimensões temporais diversas das nossas –, inspirações essas que surgem paralelamente ao ficcionado realismo de contextos contemporâneos.

Um último aspecto que desejaria salientar é a dimensão dialogante que percorre todo este livro, não só na sua enunciação narrativa mais evidente, a do diálogo entre personagens, mas naquilo que no infratexto se encontra subjacente. Se podemos dizer que nas personagens ficcionais de um autor perpassam sempre elementos autobiográficos, eu diria, no caso deste livro, que é a dilatação dialogante do Miguel Teotónio Pereira que as suas personagens mais nos transmitem.    

J.H.