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“Um violador no teu caminho”, grito de revolta chileno torna-se hino feminista global

No primeiro semestre deste ano, houve 32 femicídios e 982 agressões sexuais a mulheres no Chile. Fartas, as chilenas estão a sair à rua contra o machismo e engrossam as fileiras do movimento sul-americano #NiUnaMenos. Uma coreografia sobre violações que foi criada para uma manifestação tornou-se viral.
Chilenas a fazer a coreografia "um violador no teu caminho." Novembro de 2019.
Chilenas a fazer a coreografia "um violador no teu caminho." Novembro de 2019. Foto de Carla Motto/Facebook.

O grupo feminista LasTesis, da cidade chilena de Valparaíso, queria animar uma manifestação no passado dia 25 de novembro. Acabou por criar um hino feminista que foi adotado primeiro no país inteiro e que ultrapassou depois as suas fronteiras.

“Um violador no teu caminho” é uma denúncia do papel das instituições em forma de canção e com uma coreografia associada. Pretende denunciar a violência patriarcal como sistémica. Canta-se:

“O patriarcado é um juiz

que nos julga por nascermos.

E o nosso castigo

É a violência que não vês”.

A canção pretende afastar a culpabilização da vítima:

“A culpa não era minha

nem de onde estava

nem de como vestia.”

A isso contrapõe-se de dedo em riste uma culpa coletiva, “o violador és tu”, que não morre solteira: “são os bófias, os juízes, o Estado, o presidente.”

E se o problema da violência de Estado e/ou da sua negligência é estrutural, com por exemplo apenas 8% de condenações judiciais em casos de violações no Chile, a conjuntura de revolta interna agravou a situação. Neste país, desde o início do movimento de protesto em outubro, houve 70 casos de violação por parte dos Carabineros, a polícia local. Erika Guevara Rosas, diretora da Amnistia Internacional para a região, declara ao jornal argentino Página12: “a intenção das forças de segurança chilenas é clara: lesionar as mulheres que se manifestam para desincentivar o protesto, chegando até ao extremo de usar a tortura e a violência sexual contra manifestantes”.

Nem Uma Menos, a hashtag da América Latina que é um movimento social contra o femicídio

Istambul, Sydney, Montreal, Paris, Londres, Berlim, Nova Iorque e um pouco por toda América Latina, a mensagem ritmada contra o femicídio e a cultura da violação encontrou eco em vários pontos do mundo. Há até um mapa criado pela feminista uruguaia Isaura Fabra para mostram alguns dos locais onde já foi vista.

Mas na América Latina este problemas são de outra dimensão. Sete dos dez países com mais assassinatos de mulheres no mundo ficam neste continente. E foi aí que nasceu em 2015 o movimento #NiUnaMenos como resposta ao assassinato de várias mulheres.

Tal como a canção “um violador no teu caminho”, também o #NemUmaMenos alastrou a partir de uma intenção modesta. Um coletivo de argentinas que protestou simbolicamente contra femícidios. A hashtag #NiUnaMenos tornou-se viral e as manifestações massivas. Uruguai, Chile, Peru, Bolívia, Paraguaia, Guatemala, México e outros países da região juntaram-se num movimento que continua a crescer e que assiste neste momento a uma nova vaga de mobilização.

O assassinato de Chiara Paez, uma rapariga de 14 anos morta pelo namorado por ter engravidado, levou centenas de milhar às ruas de Buenos Aires em junho de 2015. No ano seguinte, em outubro, foi o assassinato de outra jovem, Lucía Pérez, violada e brutalmente torturada, que gerou indignação massiva. Desde então, as manifestações contra a violência de género não param.

LasTesis: a performance feminista que quer agitar consciências

O coletivo feminista que criou a coreografia “um violador no teu caminho” faz parte desta onda feminista. Têm 31 anos, são de Valparaíso, e desde há um ano e meio pretendem criar performances a partir das ideias de autoras feministas.

Sibila Sotomayor esclarece ao jornal Interferencia que as pequenas encenações de cerca de 15 minutos procuram ser “precisas, concisas e efetivas”. O Calibã e a Bruxa, de Silvia Frederici, marcou os primeiros trabalhos. Os mais recentes inspiram-se em Rita Segato. Foi a partir do trabalho desta autora, que defende que a violação é um problema político e não moral, que nasceu a ação que as tornou mais conhecidas. Sibila esclarece que se trata da “desmistificação da violação como um problema pessoal ou a sua atribuição apenas à doença do homem que viola mas queríamos dizer também que isto é um tema social”.

Ao Guardian, outra das autoras, Paula Cometa, esclarece que não se pretendia fazer “uma canção de protesto”. A peça, aliás, já estava a ser trabalhada antes dos protestos mais recentes e foram as mulheres que estavam nas marchas que “a transformaram em algo mais”. Sendo que ela singrou porque “se adaptava ao momento que estamos a viver no Chile. À violência e às violações dos direitos humanos a que as mulheres estão a ser expostas recentemente”.

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