O inquérito realizado pelo Conselho Nacional do Médico Interno (CNMI) da Ordem dos Médicos (OM), citado pelo jornal Público, visa aferir a prevalência, entre os médicos internos, de burnout, entendido como “a conjugação de sintomas relacionados com exaustão emocional, desumanização / despersonalização e perda de realização profissional”.
Os resultados, baseados nas respostas de 1737 médicos internos, num universo de 10.268 profissionais, recolhidas entre 7 de agosto e 22 de setembro de 2023, apontam que “24,7% dos inquiridos demonstraram sintomatologia grave de burnout, enquanto 55,3% demonstraram encontrar-se em risco de desenvolver esta síndrome”.
O estudo assinala ainda que “64,7% dos inquiridos apresentaram uma pontuação de exaustão emocional grave, 45,8% uma pontuação de despersonalização grave e 48,1% uma diminuição grave de realização profissional”. Apenas 5,3% dos inquiridos resultados equivalentes a um perfil de satisfação com o trabalho e a um estado cognitivo-afetivo positivo.
A CNMI esclarece também que 35,3% dos inquiridos afirmaram ter iniciado algum tipo de apoio psicológico ou psiquiátrico durante a formação especializada.
José Durão, presidente do CNMI, esperava, à partida, que os níveis de burnout fossem elevados. Ainda assim, reconheceu que os resultados o “surpreenderam muito”. “Haver um em cada quatro internos em burnout é assustador. Não estávamos à espera disso. Estamos a falar de médicos que vão substituir os que estão a sair e que estão na formação académica com a sua saúde mental a deteriorar-se”, destacou.
Fazendo referência ao facto de a média de idades dos internos que responderam ao inquérito ser de 29,9 anos, José Durão lembrou que, “em teoria, terão mais 30 anos de carreira pela frente”.
“Em que condições e qual a responsabilidade do sistema relativamente a estas pessoas ao permitir este nível de burnout?”, questionou, avançando que “não se vê grande atuação da tutela e das instituições que dão formação de apoio a estes médicos”.
O presidente do CNMI afirmou ainda que este contexto, e o “desânimo e frustração” que os jovens médicos sentem, faz com que não seja “surpreendente este abandono de vagas para colocação na formação”.
“Parece que falta sentido de urgência para apresentar soluções concretas e a curto prazo para que as pessoas se sintam valorizadas”, lamentou.
E é por isso que tem esperança de que os resultados do inquérito permitam “refletir sobre a forma como o internato funciona”. Caso nada mude, "a perspetiva é de um futuro bastante negro para a generalidade dos internos", alerta.
O inquérito promovido pela OM revelou que 84,8% dos profissionais “realizavam horas extraordinárias, sendo a média de horas de trabalho semanal de 52,8 horas”. Acresce que mais de metade dos inquiridos (55,1%) afirmaram realizar, pelo menos uma vez por mês, turnos superiores a 12 horas, 62,1% realizavam trabalho noturno e 93,5 % trabalhavam fora do horário laboral, o que inclui fins-de-semana, feriados ou após as 17h.
“As 52,8 horas são só de prática clínica: urgência, internamento, consultas. Vão muito para além das 40 horas semanais. Mas, em cima disto, há o outro tempo, como as noites, os fins-de-semana e feriados, que são para fazer coisas relacionadas com a formação. As grelhas de formação são muito exigentes – têm de ser para se ser especialista. E o horário de trabalho não contempla tempo de estudo protegido”, clarificou José Durão, frisando que muitos internos “são sugados” para colmatar necessidades do sistema.
Neste contexto, percebem-se os motivos que levaram 54,4% dos inquiridos a afirmar que consideram ter “uma relação entre vida pessoal e profissional desequilibrada ou muito desiquilibrada”. Não obstante, 43,4% dos internos “referiram encontrar-se satisfeitos ou muito satisfeitos com a formação especializada”.
Entre os aspetos do contexto laboral apontados pelos trabalhadores como relevantes figuram a “elevada carga horária, não prevista nos programas de internato, associada à realização de trabalho e estudo autónomo para a prossecução de objetivos curriculares”, bem como os baixos vencimentos e a dificuldades na gestão emocional do stress associado à urgência.
“Este estudo é para nós muito importante para perceber porque é que tantos jovens médicos não escolheram uma especialidade e os que escolheram, acabam, depois, por não se manterem no SNS”, assinalou o bastonário da OM, Carlos Cortes.