Um quarto dos médicos internos com sinais graves de burnout

18 de dezembro 2023 - 18:14

Mais de metade dos médicos internos em formação especializada inquiridos pela Ordem dos Médicos estão em risco de burnout. Conselho Nacional do Médico Interno aponta que os resultados são “assustadores”, tendo em conta que “em teoria, terão mais 30 anos de carreira pela frente”.

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Foto de Paulete Matos.

O inquérito realizado pelo Conselho Nacional do Médico Interno (CNMI) da Ordem dos Médicos (OM), citado pelo jornal Público, visa aferir a prevalência, entre os médicos internos, de burnout, entendido como “a conjugação de sintomas relacionados com exaustão emocional, desumanização / despersonalização e perda de realização profissional”.

Os resultados, baseados nas respostas de 1737 médicos internos, num universo de 10.268 profissionais, recolhidas entre 7 de agosto e 22 de setembro de 2023, apontam que “24,7% dos inquiridos demonstraram sintomatologia grave de burnout, enquanto 55,3% demonstraram encontrar-se em risco de desenvolver esta síndrome”.

O estudo assinala ainda que “64,7% dos inquiridos apresentaram uma pontuação de exaustão emocional grave, 45,8% uma pontuação de despersonalização grave e 48,1% uma diminuição grave de realização profissional”. Apenas 5,3% dos inquiridos resultados equivalentes a um perfil de satisfação com o trabalho e a um estado cognitivo-afetivo positivo.

A CNMI esclarece também que 35,3% dos inquiridos afirmaram ter iniciado algum tipo de apoio psicológico ou psiquiátrico durante a formação especializada.

José Durão, presidente do CNMI, esperava, à partida, que os níveis de burnout fossem elevados. Ainda assim, reconheceu que os resultados o “surpreenderam muito”. “Haver um em cada quatro internos em burnout é assustador. Não estávamos à espera disso. Estamos a falar de médicos que vão substituir os que estão a sair e que estão na formação académica com a sua saúde mental a deteriorar-se”, destacou.

Fazendo referência ao facto de a média de idades dos internos que responderam ao inquérito ser de 29,9 anos, José Durão lembrou que, “em teoria, terão mais 30 anos de carreira pela frente”.

“Em que condições e qual a responsabilidade do sistema relativamente a estas pessoas ao permitir este nível de burnout?”, questionou, avançando que “não se vê grande atuação da tutela e das instituições que dão formação de apoio a estes médicos”.

O presidente do CNMI afirmou ainda que este contexto, e o “desânimo e frustração” que os jovens médicos sentem, faz com que não seja “surpreendente este abandono de vagas para colocação na formação”.

“Parece que falta sentido de urgência para apresentar soluções concretas e a curto prazo para que as pessoas se sintam valorizadas”, lamentou.

E é por isso que tem esperança de que os resultados do inquérito permitam “refletir sobre a forma como o internato funciona”. Caso nada mude, "a perspetiva é de um futuro bastante negro para a generalidade dos internos", alerta.

O inquérito promovido pela OM revelou que 84,8% dos profissionais “realizavam horas extraordinárias, sendo a média de horas de trabalho semanal de 52,8 horas”. Acresce que mais de metade dos inquiridos (55,1%) afirmaram realizar, pelo menos uma vez por mês, turnos superiores a 12 horas, 62,1% realizavam trabalho noturno e 93,5 % trabalhavam fora do horário laboral, o que inclui fins-de-semana, feriados ou após as 17h.

“As 52,8 horas são só de prática clínica: urgência, internamento, consultas. Vão muito para além das 40 horas semanais. Mas, em cima disto, há o outro tempo, como as noites, os fins-de-semana e feriados, que são para fazer coisas relacionadas com a formação. As grelhas de formação são muito exigentes – têm de ser para se ser especialista. E o horário de trabalho não contempla tempo de estudo protegido”, clarificou José Durão, frisando que muitos internos “são sugados” para colmatar necessidades do sistema.

Neste contexto, percebem-se os motivos que levaram 54,4% dos inquiridos a afirmar que consideram ter “uma relação entre vida pessoal e profissional desequilibrada ou muito desiquilibrada”. Não obstante, 43,4% dos internos “referiram encontrar-se satisfeitos ou muito satisfeitos com a formação especializada”.

Entre os aspetos do contexto laboral apontados pelos trabalhadores como relevantes figuram a “elevada carga horária, não prevista nos programas de internato, associada à realização de trabalho e estudo autónomo para a prossecução de objetivos curriculares”, bem como os baixos vencimentos e a dificuldades na gestão emocional do stress associado à urgência.

“Este estudo é para nós muito importante para perceber porque é que tantos jovens médicos não escolheram uma especialidade e os que escolheram, acabam, depois, por não se manterem no SNS”, assinalou o bastonário da OM, Carlos Cortes.