Num comício na noite desta quinta-feira no Teatro Capitólio em Lisboa, a habitação, educação, precariedade, serviços públicos e a emergência climática foram a nota forte das intervenções. Mariana Mortágua criticou a falta de transparência das contas do PS, enquanto Catarina Martins lançou as propostas transformadoras do Bloco contra o "tenham calma que isto vai lá devagarinho" dos partidos do bloco central.
No encerramento da noite, Catarina Martins focou-se nos temas da emergência climática, habitação, serviços públicos e precariedade. "Qual é a solução que nos têm apresentado para estas crises quem tem alternando mais tempo no governo?", perguntou. "Dizem-nos normalmente para termos calma, que isto vai lá devagarinho", prosseguiu, "e têm normalmente três grandes propostas: benefícios fiscais, privatizações e PPPs".
Na habitação, por exemplo, a solução dos partidos do centro é dar benefícios fiscais aos senhorios. Mas, retorquiu Catarina, "os preços das casas vão descer? Quem quer ter a sua casa, não viver na casa dos pais, não ser expulso da casa onde está, vai ter direito à habitação porque há um benefício fiscal ao senhorio?". E prosseguiu: "são benefícios fiscais à Fosun (que comprou os edifícios da Fidelidade), aos grandes fundos-abutre, que vão regular a habitação? Algum de nós acredita nisso?".
Do mesmo modo, no trabalho é frequente ouvir-se ao centro que, se as empresas não dão melhores contratos, é porque pagam muitos impostos. Logo, se se baixar o IRC, o imposto sobre os lucros, as empresas vão dar contratos estáveis e bons salários — "vamos acreditar nisso?", questionou.
Na educação, Catarina Martins ironizou com a solução "extraordinária" do centro: se não há dinheiro para frequentar a universidade, resolve-se tudo com créditos bonificados aos estudantes. "É uma maravilha: uma pessoa endivida-se para estudar, para a seguir enquanto precário andar a pagar ainda mais à banca do que já paga enquanto cidadão deste país", disparou.
Por fim, na emergência climática, o mundo tem já a experiência de "medidas testadas durante décadas, em acordos que nunca serviram para nada, como o comércio das licenças de carbono, ou mais uns benefícios fiscais". Esse é o caminho para centro que pensa que "quem quer resolver o problema a sério, está ser radical".

"Quando vemos a porta giratória" da EDP, da GALP e outras grandes empresas, prosseguiu Catarina, "compreendemos que para toda esta gente é sempre bom que qualquer programa vá parar ao benefício fiscal, privatização ou PPP — mas esse não é o nosso caminho", advertiu. No Bloco, precisou, "não estão os grandes interesses económicos nem os donos deste país, está quem aqui vive, quem aqui trabalha, quem constrói o país todos os dias".
Assim, o Bloco propõe no seu programa investimento público para garantir "casas a preços que as pessoas possam pagar", e garantir que universidade seja um direito em que "as propinas desçam a cada ano até termos propina zero" e em que haja residências para os estudantes deslocados. Propõe também, prosseguiu Catarina, mudar a legislação do trabalho para que "nenhuma pessoa, seja de que geração for, olhe para a sua vida e veja dividida entre estágios, bolsas, trabalho temporário ou outsourcing".
E propõe responder à emergência climática com medidas estruturais, sem "penalizar cada um pelas suas escolhas" ou dar mais benefícios às empresas. "Fazer de quem tem um salário magro o culpado pela escolha, tornando os produtos de que precisa mais caros, em vez de ter a coragem de mexer na indústria, na energia ou nos transportes, é uma cobardia que penaliza os mesmos de sempre", apontou Catarina Martins. Contra essa via individualizante, prosseguiu, "respondemos à emergência climática com toda a gente, sem que ninguém fique para trás: reconversão da energia, ferrovia em todo país, outra indústria, outra agricultura — é possível fazê-lo".
O objetivo "é termos um país mais justo e mais digno no tempo das nossas vidas", lembrou Catarina, como resposta a quem "nos diz que estamos a ir depressa demais". Num tempo que considerou de grandes mudanças, "o que pode fazer a diferença — na habitação, na escola, saúde, justiça, nos direitos das pessoas com deficiência, das mulheres, no combate ao racismo — é um Bloco de Esquerda forte", concluiu.
As contas do PS: "Quanto? Quando? Como? Não se sabe"
Na intervenção que antecedeu Catarina Martins, Mariana Mortágua passou a pente fino as contas do programa do PS e não ficou convencida: "Quanto? Como? Quando? Não se sabe", repetiu a cada ponto que analisou.
A cabeça de lista do Bloco por Lisboa começou por apontar a confusão, "especialmente nas últimas semanas", entre ter contas claras e "torturar números no Excel para obter o resultado desejado". Uma diferença importante, porque por trás de cada número há sempre uma escolha política, e "quando não há transparência nos números, não há não transparência na proposta política".

Mariana Mortágua encontrou vários exemplos no programa do PS: "muitas generalidades, grandes prioridades, grandes objetivos, mas muito poucas contas e compromissos", pois esses estão "num outro programa: o PEC entregue a Bruxelas". E o problema é que umas não batem certo com as outras.
Nos salários da função pública, apontou Mariana, a promessa recente de Mário Centeno de aumentos pela inflação a partir de 2020 não chega com os números do PEC, "a não ser que o PS deixe de contratar novos funcionários públicos", ou então "revendo para baixo as carreiras especiais de polícias, enfermeiros e professores".
Na habitação, o panorama é pior. António Costa, no debate televisivo com Catarina Martins, chegou a questionar as contas do Bloco para colocar 100 mil habitações a preços acessíveis no mercado. Dias depois, ironizou a deputada, quando o PS é obrigado mostrar contas, "qual não é o nosso espanto quando lemos os dados e vemos que o custo estimado das casas do PS é exatamente o mesmo que o do Bloco, que António Costa tinha criticado". Mas com uma diferença importante, precisou: "quando vamos ao PEC, faltam lá mil milhões de euros para o investimento que o PS propõe no seu programa".
Também no investimento público, sem números no programa do PS, Mário Centeno propôs numa entrevista recente duplicá-lo, mas "o que está inscrito no PEC é pouco mais de metade daquilo que Centeno disse agora que ia fazer". Na cultura, António Costa "entusiasmou-se" e prometeu investir nela 2% do PIB, mas percebeu-se o truque quando esclareceu que se chegaria lá contabilizando como cultura despesas que hoje são de educação.
"Falta de clareza é isto", sentenciou Mariana Mortágua. E perguntou, evocando o lema eleitoral do PS: "Mais e melhor como, se muito do que foi feito neste quatro anos foi imposto ao PS por acordos de esquerda?". Lembrando a importância de precários, funcionários públicos, pensionistas e muitos outros saberem "com o que podem contar", lançou: "vai o PS agora sozinho investir tudo o que não previu, quando nestes quatro anos não executou sequer o que previu? Vai retirar sozinho a legislação laboral da Troika que não retirou? Vai fazer o combater à precariedade que não quis fazer?". Para a deputada, a resposta é clara: "Três vezes não".
"Escrever uma nova história para o país"
Nas intervenções que abriram a noite, Tiago Rodrigues, encenador e diretor artístico do Teatro Nacional Dona Maria II, recordou o dia de outubro de 1999 em que sentiu que "estava a escrever uma parte da história", quando numa das primeiras vezes que votou ajudou a eleger os primeiros deputados do Bloco, Francisco Louçã e Luís Fazenda. Recordou também a sensação de crescer num país já democrático, mas onde se sentia que a história estava escrita, reduzindo-se à escolha entre "esta ou aquela máquina de gestão do poder", e como essa alternância bipolar ao centro mudou de 1999 até hoje. Num momento aplaudido, instou a que se construa uma história nova para o país, onde o nome de Alcindo Monteiro, assassinado num ataque racista em Lisboa nos anos 90, possa ser "nome de juiz, de deputado, de diretor de um teatro nacional"; um país onde nunca mais tenha de haver vigílias por mulheres assassinadas, como a que decorria naquele momento por uma colega sua do Theatro Circo em Braga.

Mafalda Escada, estudante e candidata pelo Bloco em Lisboa, afirmou fazer parte de uma geração que não era "a Geração à Rasca, mas via na TV a Geração à Rasca", e via nela o "reflexo do nosso futuro: instável, hipotecado, sem autonomia". Mais tarde, na universidade, "percebemos que a meritocracia não existe: não éramos assim tantos, nem tão diversos". Nesses anos da Troika, ficou a conhecer o projeto da direita para o Ensino Superior: um "ensino de elite para as elites", reiterado hoje pela proposta de Assunção Cristas "para que se possa comprar vagas no ensino público". Situação que prova em seu entender a necessidade de uma maioria à esquerda para inverter a elitização das universidades. Mas para isso é preciso ir mais longe, continuando nos próximos anos a viragem "muito importante" da redução das propinas, que este anos baixaram 200 euros, até à sua eliminação.
Sofia Oliveira, também candidata por Lisboa, concentrou-se nas alterações climáticas. A jovem ativista criticou os discursos culpabilizantes sobre opções de consumo, que esquecem o capitalismo como a variável decisiva para qualquer intervenção contra o caos climático, e enfatizou as medidas do Bloco que são um principio de solução: transição energética, gratuitidade dos transportes públicos, investimento na ferrovia, encerramento das centrais a carvão, eficiência energética na habitação social.
Já Fabian Figueiredo lembrou a funcionalidade flashback das rede socais, que recordam momentos do passado esquecidos, para evocar um azulejo visto há pouco na fachada de um prédio de Lisboa a contar a história de um despejo. Uma síntese "crua, brutal e violenta do que significou a lei Cristas nas nossas cidades". Lembrou também o texto de lançamento do movimento Que Se Lixe a Troika, que em 2012 levou um milhão de pessoas para as ruas e sinalizou uma viragem que na altura não se deu, mas veio a dar frutos mais tarde e a permitir que, hoje, se possa olhar para os últimos quatro anos sem sem amargura.