Quando li num blogue que sigo uma apreciação sobre “Inyenzi ou As Baratas” e percebi que se tratava de um relato de uma sobrevivente do genocídio do Ruanda, logo o pus na lista de livros a ler. Tive uma ligação ao Ruanda breve, mas inesquecível. Em 2004, a Marcha Mundial das Mulheres a cuja coordenação nacional pertencia, escolheu o Ruanda para aí se realizar o 5º Encontro Internacional, com o objectivo de preparar a 2ª Acção Global e, sobretudo, concluir a discussão e aprovação do texto final da Carta Mundial das Mulheres para a Humanidade. O local teria de ser marcante e assim, foi escolhida Kigali a capital do Ruanda, no ano em que se assinalavam os dez anos do genocídio que matou perto de um milhão de ruandeses de etnia tútsi. Para além de querermos conhecer mulheres que tinham sobrevivido àquele tempo tão atroz, queríamos estar perto de associações que se tinham formado para apoiar na reconstituição e na cura das feridas deixadas pela luta fratricida entre etnias. E também, mostrar a solidariedade de mulheres de todo o mundo para com o imenso esforço que as ruandesas estavam a fazer para se levantar e levantar o país dos escombros do genocídio.
“Inyenzi ou As Baratas” é um livro duríssimo que me obrigou várias vezes a parar, respirar fundo e deixar a leitura. Aproveitei para ir buscar o álbum e rever algumas fotografias que fiz em Kigali, nomeadamente do Memorial do Genocídio que visitei e que é impossível esquecer. Tal como os nazis achavam que os judeus eram untermensch (infra-humanos), os sionistas acham que os palestinianos não são gente, os hútus consideravam os tútsis baratas (inyenzi), uma etnia que tinha de ser esmagada. O genocídio que aconteceu no espaço de três meses em 1994, como nos é contado neste livro, tinha começado há muitos anos a ser preparado. É sobre isso que escreve Scholastique Mukasonga, nomeando toda a sua família morta e muitos dos habitantes e vizinhos apanhados na fúria assassina daqueles cerca de cem dias. Ela quis nomeá-los repetidamente, começando logo na dedicatória, lembrá-los, já que não há uma lápide que os lembre, podendo as suas ossadas estar na cripta da igreja de Nyamata, ou terem sido atirados para uma vala comum, ou mesmo terem sido comidos pelos cães ou pelas feras.
Scholastique Mukasonga vive em França. Tinha apenas 3 anos quando ela, irmãos, irmãs e pais foram forçados a um primeiro exílio em 1959, enviados compulsivamente para Gitwe, um lugar inóspito no mato, onde passaram imensas privações, desde fome, falta de água e constante receio dos animais selvagens, embora ela refira que descobriu que a crueldade dos humanos supera o perigo dos animais selvagens. Em 1962, aquando da independência do Ruanda, mais de 150 mil tútsis tiveram de fugir para países vizinhos, tendo nessa altura ocorrido milhares de mortos. As tensões entre hútus e tútsis, instigadas desde sempre pelo poder colonial belga, acentuaram-se após a independência e o mundo fingiu não ver. Destacou-se em 1964 a voz solitária de Bertrand Russell a denunciar o genocídio e a lembrar o que os nazis tinham feito aos judeus. Os pais de Scholastique Mukasonga fugiram com a família para Gitagata, sua última morada, lugar onde iriam ser assassinados em 1994. “Não havia dias tranquilos em Nyamata. Os militares do campo de Gako faziam questão de nos recordar constantemente o que éramos: serpentes, Inyenzi, essas baratas que nada tinham de humano e um dia seria preciso dizimar. Enquanto isso não acontecia, o terror era sistematicamente organizado.” (pág. 65). O único lugar seguro era a igreja da missão, hoje transformada em memorial do genocídio, onde foram depositados milhares de ossadas. No entanto, a narradora não deixa de referir os dias felizes da sua infância quando ficava com a mãe, que lhe contava histórias. A criação do partido único e a organização da juventude partidária vão fazer aumentar significativamente a violência e as tensões. As violações das meninas são uma constante.
A educação e o acesso aos graus superiores do ensino eram uma miragem para a etnia tútsi, mas foi o sucesso na escola que lhe permitiu ser uma sobrevivente. O exame nacional de acesso ao ensino secundário era uma das mais importantes barreiras, tanto mais que a quota de acesso aos tútsis se ficava nos 10%. No entanto, Scholastique Mukasonga conseguiu ser a única na sua aldeia que passou no exame e teve acesso ao melhor liceu de Kigali, onde resistiu durante 3 anos, sujeita a humilhações e a uma rejeição constante por parte das colegas e das professoras. Só no terceiro ano conseguiu deixar de andar descalça e os seus traços fisionómicos e cabelo volumoso eram para ela motivo de frequentes humilhações. Seguiu-se o acesso à Escola de Assistentes Sociais em Butare, uma experiência mais aberta e menos excludente que só durou dois anos e que teve de ser interrompida abruptamente com a mudança da direcção da escola. Os pais, cientes da tragédia que os perseguia, escolheram que para sobreviverem, Mukasonga e André teriam de partir para o Burundi para continuarem os seus estudos. Refugiados no Burundi, Scholastique Mukasonga obtém o seu diploma de Assistente Social e André vai estudar Medicina.
É em 1986 que Mukasonga vê os pais pela última vez. Nessa altura ela já tinha a cidadania francesa, era casada com um francês e tinha 2 filhos. Os projectos de desenvolvimento rural da UNICEF e outros tinham levado o casal do Burundi, para o Djibuti. André era médico num hospital no Senegal. Das cinco raparigas e dois rapazes que Cosma e Sefania tinham tido, só André e Mukasonga foram poupados ao genocídio. Mukasonga, na sua casa em França, tem pesadelos constantes. Impossível esquecer o que passou e deixar de imaginar o que terá sido o horror vivido pelos 37 familiares que se encontram na fotografia do casamento de Jeanne, a irmã mais nova, todos eles mortos. André e ela são os sobreviventes. Ou não serão antes os “subviventes” como ela própria diz?
Da comuna de Nyamata, dos 60 mil tútsis recenseados em Janeiro de 1994, sobreviveram 5348. O genocídio foi o corte das amizades, das relações, algumas com muitos anos. O que aconteceu foi puro sadismo, loucura, fria crueldade. Foi com extrema dificuldade que Scholastique Mukasonga voltou a Nyamata, dez anos depois, para tentar encontrar vestígios dos sítios onde ela tinha vivido com os pais. Apenas descobriu ali “o país dos mortos” (pág, 149). “Comecei a sentir um ódio violento por aquela vegetação descontrolada que tão bem finalizara o «trabalho» dos assassinos, que transformara a minha casa num matagal hostil”. (pág. 162). Os poucos habitantes que encontra refugiam-se num discurso de negação, falam em “acontecimentos infelizes” (pág. 17), incapazes de usar a palavra genocídio. “A memória de todos aqueles mortos ficava a meu cargo: eles acompanhar-me-iam até à minha própria morte” (pág. 122). “Os assassinos quiseram apagar-lhes até a memória, mas, no caderno escolar que me acompanha sempre, inscrevi os seus nomes, e não tenho para os meus e todos os que tombaram em Nyamata senão este túmulo de papel”. (pág. 166)
Termino, citando do Posfácio, as palavras de Boniface Mongo Mboussa, congolês, académico e professor de literatura: “Em “Inyenzi ou As Baratas” Scholastique Mukasonga oferece-nos um relato autobiográfico valioso, um documento que nos permite ver por dentro o Ruanda pós-colonial (…) que nos mostra, a partir de uma sucessão de factos, porque é que o genocídio era – infelizmente, tão infelizmente – inevitável”. (pág. 173).
Artigo publicado em Lendo e Escrevendo a 5 de Janeiro de 2026