Mais de 24 horas após a passagem da depressão Katrin pelo território continental português, ainda há muitos concelhos sem eletricidade e acesso a comunicações e cujos munícipes se encontram na prática isolados do resto do país e do mundo.
“A análise técnica deste evento revela falhas sistémicas inaceitáveis nas redes de suporte. O pico da tempestade deixou cerca de um milhão de clientes sem energia elétrica, devido à queda de postes e linhas de alta tensão, o que, por efeito dominó, paralisou os sistemas de abastecimento de água e as redes de telecomunicações”, refere o Bloco de Esquerda numa pergunta dirigida a vários ministérios.
As consequências da falta de eletricidade refletem-se igualmente no abastecimento de água, que falha onde não existem geradores de emergência para os furos e reservatórios. E além das falhas dos operadores de comunicações, há relatos de falhas na própria rede de emergência SIRESP, por exemplo no concelho da Batalha.
Para o Bloco de Esquerda, a intensidade da depressão que atravessou o país na quarta-feira “insere-se num padrão de agravamento dos fenómenos meteorológicos derivado das alterações climáticas, que exige uma revisão estrutural do balanço energético da atmosfera e da robustez das nossas redes e infraestruturas, bem como das medidas de mitigação e resposta”.
“Não é aceitável que, em 2026, concelhos inteiros fiquem incomunicáveis e sem serviços básicos por vários dias devido à queda de infraestruturas físicas que deveriam estar devidamente protegidas ou redundantes”, defende o partido.
Face a esta falha sistémica das redes, o Bloco quer que o Governo avalie a adequação dos investimentos feitos pelos concessionários de serviços públicos de energia, água e comunicações na resiliência das redes, pois entende que “avisos de nível "extremo" não deveriam resultar no isolamento total de centros urbanos”.
O deputado bloquista questionou a ministra da Administração Interna sobre a falha no sistema SIRESP e as medidas que pretende tomar para assegurar que isso não se repetirá em futuras emergências. Ao ministro das Infraestruturas, tendo em conta que a queda dos postes de eletricidade é a causa principal do isolamento de comunidades inteiras, o Bloco pretende saber que investimentos estão previstos “para a soterração de linhas em zonas de risco elevado de ventos ciclónicos”.
À ministra do Ambiente e Energia, Fabian Figueiredo questiona se houve fiscalização para assegurar que a manutenção e o corte de vegetação nas faixas de proteção das linhas elétricas estavam em conformidade, evitando assim a queda de árvores sobre as infraestruturas.
Ao ministro da Agricultura, o Bloco requer informação sobre o montante estimado de dotação orçamental para o apoio ao restabelecimento do potencial produtivo agrícola e florestal nas regiões de Leiria, Coimbra e Alentejo, bem como o prazo em que prevê efetuar o pagamento dessas verbas aos afetados.
Face aos danos causados em bases aéreas militares como a de Monte Real, onde os caças F-16M ficaram danificados, o Bloco pergunta ao ministro da Defesa que medidas de prevenção existiam para proteger tanto o pessoal da Base Aérea Nº 5 como o material militar ali estacionado, como foi possível que ativos estratégicos como aquelas aeronaves “tenham sido expostos a danos desta magnitude” e quais os protocolos de segurança que falharam neste contexto, dado que era conhecida de antemão a força deste fenómeno meteorológico.
O Bloco pretende também saber junto do Governo a razão para seguir os protocolos habituais em vez de criar uma equipa de coordenação multisectorial para reforçar a resiliência das redes críticas, bem como se entende que o conteúdo do alerta informativo enviado para os telemóveis da população era suficiente para a preparar para um fenómeno que se sabia ser “de intensidade recorde”.