Ataque ao Irão

Turquia continua a apostar na mediação para garantir “estabilidade regional”

03 de março 2026 - 10:17

A Turquia, membro da NATO, encara com crescente apreensão a agressão militar dos EUA e Israel ao seu rival regional. A diplomacia de Ancara insiste em assumir a função de mediador, mas os riscos securitários poderão sugerir outras opções.

porPedro Caldeira Rodrigues

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Recep Tayyip Erdogan
O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan. Foto da Presidência turca.

O mais recente ataque coordenado e em larga escala dos Estados Unidos e de Israel ao Irão, iniciado na manhã de 28 de fevereiro e que implicou no imediato a morte do guia supremo iraniano e outros importantes dirigentes do país – incluindo o chefe de estado-maior das Forças Armadas, o ministro da Defesa, o chefe dos Guardas da Revolução e o chefe dos serviços de informações da polícia –, está a suscitar crescentes receios na vizinha Turquia.

Um novo afluxo de refugiados, instabilidade regional ou o relançamento da “questão curda” constituem os principais receios face a um complexo cenário, com prováveis consequências nas suas fronteiras e nos equilíbrios regionais.

Desde finais de dezembro que o regime de Ancara denunciava inquietação sobre as possíveis consequências de instabilidade no seu vizinho e tradicional rival no caso de um “vazio de poder”, e em toda a região.

As manifestações contra o regime teocrático, que decorreram desde 28 de dezembro e durante duas semanas com um elevado balanço de mortos e feridos, e os apelos do Presidente dos EUA Donald Trump a uma “mudança de regime”, foram recebidos com precaução.

Logo em janeiro, o ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Hakan Fidan, contactou por diversas vezes o seu homólogo turco, Abbas Araghchi, apelou a negociações “para desanuviar as tensões regionais”, apelou a Teerão para “resolver por si próprio os seus problemas internos” e também manteve contactos com responsáveis diplomáticos norte-americanos.

Em consonância, um porta-voz do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP, islamista e conservador, no poder desde 2003), liderado pelo Presidente Recep Tayyip Erdogan, alertava que “qualquer forma de intervenção externa teria consequências extremamente negativas para a nossa região”.  

Devlet Bahçeli, dirigente do Partido de Ação Nacionalista (MHP, extrema-direita e que integra a coligação no poder) optava por frisar que “a paz interna, a estabilidade e a tranquilidade do vizinho Irão são uma questão de vida ou de morte para a Turquia”.

As tensas relações com Israel, agravadas pelo genocídio na Faixa de Gaza, voltaram a ser expostas neste contexto. Ainda em janeiro, Hakan Fidan admitia que as manifestações no país vizinho eram também manipuladas pelos inimigos externos do Irão e recordava que a Mossad israelita, os serviços secretos para o exterior, apelou à revolta contra o regime iraniano através de diversos meios, desde as redes sociais à atuação da sua rede de agentes no terreno.

O dilema do nuclear

A Turquia sabe que Israel possui armas nucleares, e nesta região particularmente turbulenta há muito que existe a convicção de que Estados armados com o nuclear poderão permanecer imunes a uma agressão externa.

Essa foi a convicção do Irão logo após a revolução de 1979, quando o vizinho Iraque, estimulado pelo ocidente, decidiu iniciar uma guerra de agressão contra a República islâmica que se prolongou por oito anos com um balanço de cerca de um milhão de mortos.

Para além de Israel, a liderança turca sempre se opôs à obtenção pelo Irão de armamento nuclear, e receava, à semelhança da Arábia Saudita – outro rival regional – que Teerão fosse bem-sucedido neste projeto, com um consequente desequilíbrio da relação de forças.

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A Turquia não possui de momento um programa nuclear militar (apenas para fins civis, como também assegura o Irão) e declarou não ter a intenção de desenvolver armas nucleares. Mas esta posição também se pode alterar. Recentes estudos de opinião apontam para um crescente apoio entre a população turca para a aquisição ou desenvolvimento de um programa nuclear independente e dissuasor.

Diversos analistas admitiram que o crescente distanciamento dos Estados Unidos face à NATO e a contínua marginalização de Ancara por parte da União Europeia (o processo de “adesão” iniciado em 2005 está há muito bloqueado em Bruxelas), poderá motivar uma crescente pressão sobre futuros governos turcos para aplicar esta ação decisiva.

De momento, a Turquia continua a considerar que o caminho reside no estabelecimento de uma plataforma de segurança regional, numa parceria onde teria função determinante e destinada a prevenir conflitos e agressões.  

Com cerca de 88 milhões de habitantes, a Turquia partilha 560 quilómetros de fronteira com o Irão, e apesar do muro de betão que separa os dois países sempre receou um novo afluxo de refugiados, semelhante ao que sucedeu durante a guerra civil na Síria, onde chegou a acolher cerca de três milhões de refugiados a partir da fronteira comum.

Na sequência do ataque em larga escala israelo-norte-americano iniciado no sábado, a Turquia decidiu suspender provisoriamente as travessias diurnas na fronteira comum com o Irão. Para Ancara, a desestabilização do importante vizinho do leste representa riscos securitários e económicos.

Ao quebrar o seu mutismo, Erdogan criticou o ataque ao Irão, mas também a retaliação de Teerão dirigida a bases e instalações dos Estados Unidos em diversos países árabes do Golfo. “Lamentamos os ataques desta manhã, não apenas por violarem claramente a soberania do Irão, mas também ameaçarem a paz do povo iraniano amigo e irmão”, disse Erdogan. “Também consideramos inaceitáveis os ataques de mísseis e drones movidos pelo Irão contra os países irmãos do Golfo, sejam quais forem as razões”, acrescentou.

Na noite de domingo, o autoritário líder turco também manteve um contacto com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e voltou a insistir no desejo de Ancara em servir de mediador e apoiar uma solução por meios pacíficos.

“Também aprecio os esforços do Presidente [Erdogan] para se preparar face ao potencial impacto desta crise nas migrações. Já trabalhamos em estreita colaboração sobre a Síria”, acrescentou Leyen.

As autoridades turcas também desmentiram um alegado ataque a uma base da NATO na Turquia, após falsa informação. Membro da NATO desde 1953, a Turquia possui duas bases da organização militar no seu território, em Izmir e em particular a decisiva base aérea de Incirlik, perto de Adana, sul do país.

No sábado, decorreram os primeiros protestos contra o ataque militar ao Irão junto destas instalações, convocados pelo Partido Comunista Turco (TKP). “Abaixo o imperialismo. Abaixo o sionismo”, lia-se numa das faixas. Em simultâneo, o Governo turco anunciava a proibição de utilização do seu espaço para ataques ao Irão.

Após o início dos implacáveis ataques em solo iraniano, Erdogan desdobrou-se em contactos com representantes de países da região, e ainda com seu homólogo Donald Trump – numa comprovação de “equilibrismo” diplomático – enquanto o ministério dos Negócios Estrangeiros repetia a disponibilidade da Turquia em “fornecer o apoio necessário à mediação”. Também permanece em aberto o canal de comunicação com Teerão.

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A oposição turca também se pronunciou, com Ozgul Ozel, chefe do Partido Republicano do Povo (CHP, social-democrata, nacionalista e segunda força política após o AKP), a criticar o regime iraniano, mas também sublinhar que “não cabe a Trump ou ao sanguinário Netanyahu salvarem o Irão ou as mulheres iranianas. O povo iraniano decidirá o futuro do Irão”.

Em comunicado, o partido pró-curdo Partido pela Igualdade e Democracia dos Povos (DEM, terceira força no Parlamento de Ancara), considerou que “a liberdade e a paz do povo iraniano são as nossas linhas vermelhas”.

A Turquia iniciou recentemente um processo negocial com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK, a guerrilha curda ativa desde 1984 e com particular implantação no sudeste do país) destinado à sua dissolução, mas ainda inconclusivo e que também envolve o Iraque a Síria, onde também habitam importantes populações curdas. Em janeiro decorreram mortíferos combates entre forças sírias, apoiadas pela Turquia, e milícias curdas locais. A diplomacia turca, num país que desde Erdogan tem vindo a recuperar os grandes feitos do Império otomano, continua a mover-se em amplas frentes.

Pedro Caldeira Rodrigues
Sobre o/a autor(a)

Pedro Caldeira Rodrigues

Jornalista