Venezuela

Trump quer escolher governo da Venezuela, Europa pôs-se fora da vaga de condenação

03 de janeiro 2026 - 18:27

Donald Trump tirou o tapete a Corina Machado e diz que vai escolher novos governantes para a Venezuela. Da América Latina à Ásia, foram muitos os países a condenar o ataque deste sábado e o sequestro de Nicolás Maduro. Líderes europeus ficaram-se pela “prudência”.

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Donald Trump

Em conferência de imprensa, o presidente dos EUA confirmou a captura do seu homólogo venezuelano e da primeira-dama do país e disse que será ele a escolher os próimos governantes da Venezuela. “Estamos a encontrar pessoas para gerir o país e em breve diremos quem são”, afirmou Trump numa conferência de imprensa em que tirou o tapete à dirigente política que ganhou o Prémio Nobel da Paz e foi a primeira apoiante da intervenção militar dos EUA. Apesar dos eogios no passado à dirigente política que acabou por ganhar o prémio que cobiçava, Trump disse agora que Corina Machado “não tem o apoio dentro do país nem o respeito. É uma mulher muito simpática, mas não tem o respeito necessário".

Os ataques aéreos dos Estados Unidos da América sobre alvos militares venezuelanos e a operação que levou ao sequestro do presidente Nicolás Maduro para um porta-aviões dos EUA já mereceram a condenação de muitos países. Mas da parte da União Europeia, a mensagem dos responsáveis pela política externa ficou-se pelos apelos à “prudência”. A Alta representante Kaja Kallas acrescenta que a UE tem reiterado que Nicolás Maduro não tem legitimidade e que sempre defendeu “uma transição pacífica”.

Venezuela

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Na mesma linha, o comunicado do Governo português não refere sequer a existência de um ataque militar ou do sequestro de Maduro: “Não tendo reconhecido os resultados eleitorais de 2024 e defendendo o regresso tão rápido quanto possível à normalidade democrática, Portugal apela à redução das tensões, ao respeito pelo Direito Internacional e pela Carta das Nações Unidas, bem como à promoção da segurança e da tranquilidade públicas”.

O secretário-geral das Nações Unidas afirma estar “profundamente alarmado” com o resultado da escalada para que havia alertado nas últimas semanas, mas também “preocupado com o facto de as regras do direito internacional não terem sido respeitadas”, acrescentando que a ação dos EUA “tem implicações potencialmente preocupantes para a região”. A nota termina com o apelo a todos os atores na Venezuela para que se empenhem num diálogo inclusivo, no pleno respeito pelos direitos humanos e pelo Estado de direito.

Na América Latina, a nota dominante é a de condenação do ataque dos EUA à Venezuela, a começar pela vizinha Colômbia, que acaba de conseguir um lugar à mesa do Conselho de Segurança das Nações Unidas e apelou à reunião urgente deste órgão.

“O Governo colombiano rejeita qualquer ação militar unilateral que possa agravar a situação ou colocar em risco a população civil”, refere a nota oficial. O presidente Gustavo Petro reuniu o conselho de segurança nacional durante a madrugada, que decidiu o reforço da segurança na fronteira e a mobilização da assistência para a eventualidade de uma entrada massiva de refugiados. “Convido o povo venezuelano a encontrar os caminhos do diálogo civil e a sua unidade. Sem soberania não há nação”, escreveu o Presidente colombiano nas redes sociais.

Também o Brasil condenou o ataque, com o Presidente Lula da Silva a escrever que os bombardeamentos e a captura do seu homólogo venezuelano “ultrapassam uma linha inaceitável”, constituem “mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional” e trazem à memória “os piores momentos da interferência na política da América Latina e do Caribe e ameaça a preservação da região como zona de paz”. Lula apela à comunidade internacional uma resposta “vigorosa” por intermédio da ONU diz que o Brasil está “à disposição para promover a via do diálogo e da cooperação”.

A poucos meses de terminar o mandato, o Presidente chileno Gabriel Boric publicou igualmente uma mensagem de condenação dos ataques, considerando que “a crise venezuelana deve ser resolvida através do diálogo e do apoio ao multilateralismo, e não através da violência ou da interferência estrangeira”.

Em sentido contrário, o presidente argentino Javier Milei emitiu uma nota a dar conta do seu contentamento com a captura de Maduro pelo governo dos EUA, apelando ao candidato da oposição Edmundo Gonzalez, que contestou a derrota nas últimas presidenciais, para que exerça o mandato, sublinhando ainda a “liderança” de Maria Corina Machado “na defesa da democracia e da liberdade na Venezuela. Milei diz que Maduro “cumpria até agora um papel semelhante ao de Cuba nos anos setenta, exportando o comunismo e o terrorismo a toda a região”.

De Cuba, o Presidente Miguel Díaz-Canel lançou a sua denúncia e e exigência de uma reação urgente da comunidade internacional contra o “ataque criminoso” dos EUA. “A nossa zona de Paz está a ser brutalmente assaltada”, diz o Presidente cubano, acusando os EUA de “terrorismo de Estado contra o bravo povo venezuelano e contra a Nossa América”.

O Governo do México somou-se à condenação da intervenção militar dos EUA na Venezuela e apelou ao respeito do direito internacional. “A América Latina e o Caribe são uma zona de paz, construída com base no respeito mútuo, na resolução pacífica de controvérsias e na proibição do uso e da ameaça do uso da força, pelo que qualquer ação militar coloca em grave risco a estabilidade regional”, refere o comunicado governamental, instando a ONU a “agir imediatamente para contribuir para a desescalada das tensões”.

No resto do mundo, dois membros com direito de veto no Conselho de Segurança, a China e a Rússia, também condenaram o ataque dos EUA. Um porta-voz da diplomacia chinesa apelou aos EUA para que “respeitem o direito internacional e os objetivos e princípios da Carta das Nações Unidas, e deixem de violar a soberania e a segurança de outros países”, acrescentando que “a China está profundamente chocada e condena veementemente o uso flagrante da força pelos EUA contra um Estado soberano e a ação contra o seu presidente”.

Na sua nota de condenação, a diplomacia da Rússia diz que “os pretextos invocados para justificar tais ações são insustentáveis. A hostilidade ideológica prevaleceu sobre considerações pragmáticas, bem como sobre a vontade de construir relações baseadas na confiança e na previsibilidade”. O Ministério dos Negócios Estrangeiros russo defende que a Venezuela “deve ter garantido o direito de determinar de forma independente o seu próprio destino, livre de qualquer interferência destrutiva — muito menos militar — do exterior”.