Os trabalhadores da agência Lusa cumpriram esta quinta-feira uma greve parcial acompanhada de concentrações em Lisboa e Porto. Junto à sede do Governo, cerca de uma centena de trabalhadores voltaram a contestar os novos estatutos e a restruturação que o Governo está a promover desde que o Estado se tornou acionista único da empresa.
Estas mudanças estão a ser vistas como uma ameaça à independência da agência de notícias face ao poder político e o caso já chegou à Comissão Europeia pela mão da eurodeputada do Bloco Catarina Martins. Um dos administradores nomeados pelo ministro Leitão Amaro trabalhava em projetos do fundo Alpac Capital, ligado a figuras próximas do regime de Viktor Orbán na Hungria.
“A missão da Lusa é muito clara: trabalha para a sociedade como um todo, para a população que vive em Portugal. Não trabalha para nenhum governo. E há várias coisas naqueles estatutos e neste modelo de governação que põem isso em causa”, afirmou à RTP a jornalista da Lusa Sofia Branco na manifestação em Lisboa.
Os trabalhadores da Lusa contestam também a ideia do Governo de os transferir para as instalações da RTP.Para Sofia Branco, essa ideia “simbolicamente é absolutamente aniquiladora das diferenças que o serviço público tem: a RTP tem uma determinada missão, a Lusa tem outra missão”. Além disso, sendo a RTP e as outras televisões clientes da Lusa, “como é que a Lusa pode ficar dentro de uma televisão para a qual trabalha em igualdade de circunstâncias com as outras televisões que existem no país?”, questionou.
A concentração da Lusa contou com a presença de trabalhadores da RTP solidários com o que consideram ser um ataque à independência do serviço público de informação. “Sentimo-nos muito confortados e apoiados pelos trabalhadores da rádio e televisão pública. Os problemas podem parecer diferentes, mas a tutela é a mesma e podem acabar num problema comum”, afirmou à RTP Pedro Sousa Pereira, da Comissão de Trabalhadores da Lusa.
Liberdade de imprensa
Catarina alerta Bruxelas para governamentalização da agência Lusa
Para Susana Venceslau, do Sindicato dos Jornalistas, além dos novos estatutos preverem três administradores nomeados diretamente pelo Governo, “a direção de informação passa a ser escrutinada pela Assembleia da república, o que achamos que vai contra a Constituição”. O sindicato contesta também a existência de um plano de rescisões de trabalhadores, “que por muito que lhe queiram chamar amigáveis, implica sempre pessoas que saem,” sem que haja alguma previsão de pessoas que entrem. Isso mostra que “não há uma vontade de reforço das condições de trabalho”, concluiu. Os delegados sindicais irão agora apresentar uma exposição à Entidade Reguladora da Comunicação e ao Provedor de Justiça, além de “continuar o trabalho junto das instâncias europeias, nomeadamente junto da representação em Portugal da Comissão Europeia".
O secretário-geral da CGTP também esteve presente e afirmou que as alterações de estatutos e a restruturação conduzidas pelo Governo “foram feitas ao arrepio do direito de consulta dos sindicatos”.
Também no Porto os trabalhadores da Lusa se concentraram em protesto e, tal como em Lisboa, onde esteve presente o deputado Fabian Figueiredo, contaram com a solidariedade de uma delegação do Bloco de Esquerda que criticou “as graves alterações introduzidas pelo Governo, sem qualquer debate público e que pretendem instrumentalizar e condicionar a agência Lusa”.