PPP na Saúde

Torrejón não é um escândalo: é o plano

15 de dezembro 2025 - 16:33

O escândalo do grupo que detém em Portugal a PPP do Hospital de Cascais mostra que a privatização da saúde não visa curar, mas sim monetizar a doença, transformando os pacientes em ativos financeiros e a saúde num luxo.

por

Troy Nahumko

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Hospital de Torrejón
Hospital de Torrejón gerido pelo grupo Ribera Salud. Imagem RTVE

O terror completo e absoluto nos seus olhos atravessava a noite como um foguete sinalizador que ninguém nunca veria, um pedido de socorro devorado pela escuridão. O suor escorria-lhe em ondas quentes e irregulares; cada espasmo torcia-lhe os membros em ângulos impossíveis até que a sua pele se transformou num Telesketch trémulo de hematomas, manchas que apareciam e desapareciam como bolor acelerado em câmara rápida. Moviam-se ao ritmo do labirinto imundo de salpicos no tapete dos anos 70 do motel — redemoinhos cor de tabaco e laranjas psicadélicas — desenhos que pareciam ter ganho vida por pura maldade, subindo lentamente, prontos para arrastá-lo para qualquer submundo húmido e imundo que o esperasse debaixo daquela cama fofa.

Lá fora, o pântano empurrava as paredes como se quisesse entrar. O guincho incessante de insetos invisíveis, o atrito inquietante de algo rastejando pela lama e a humidade pegajosa da noite do norte da Flórida engrossavam o ar até que cada respiração parecia emprestada, como se algo com mais pernas do que nós já a tivesse usado. O quarto encolhia. Ele encolhia. Ele estava a morrer.

Ele ia e vinha da consciência, emergindo apenas o suficiente para deixar escapar uma frase, um fragmento de memória enterrado, arranhando a sua garganta. O veneno agitando-se nas suas veias distorcia as palavras, mas o ritmo não mudava. Um mantra. Um aviso. Um apelo.

Cada vez que os seus lábios secos se moviam, eu inclinava-me, perto o suficiente para sentir o calor febril na minha bochecha, esperando que ele chamasse a mãe ou murmurasse alguma oração da infância que o ligasse a este mundo.

Mas não. Nem de longe.

A única coisa que ele disse foi: “Não me leves ao hospital”.

E nessas cinco palavras, a ironia grotesca e carnívora da situação mostrou os dentes. Estávamos no país mais rico do mundo, a um passo de cuidados médicos de primeira linha, vendo um homem que tinha estado a trabalhar há algumas horas morrer por causa da picada de uma aranha, porque não tinha seguro médico e não podia pagar uma noite nas urgências. Os seus últimos pensamentos não eram sobre sobreviver; eram sobre o maior terror: viver o suficiente para que os cobradores de dívidas o encontrassem.

O que tornava a cena ainda mais obscena era o quão perto estava a salvação. Não estávamos numa aldeia sem luz. Não estávamos num lugar onde a saúde era um rumor. Estávamos na América suburbana: centros comerciais gigantes, autoestradas de seis faixas e um hospital cujo estacionamento custou mais do que sistemas de saúde inteiros em meio planeta. Lá, a quinze minutos, eles tinham o antídoto perfeito para uma picada de aranha-eremita-parda. Perfeitamente frio. Perfeitamente disponível. Perfeitamente inútil.

Então, em vez de atendimento profissional, demos a ele o último anti-histamínico empoeirado que estava na minha bolsa de higiene pessoal desde o governo Bush. Era como tentar apagar um incêndio mijando dentro de um copo.

E claro, a pergunta pairava entre nós — primeiro baixinho, depois mais forte a cada espasmo voraz: se ele morresse, seríamos responsáveis? Poderiam denunciar-nos por não o entregar à sua ruína financeira? Agora era crime não arruinar um homem?

Este é o dilema, o milagre americano destilado na sua forma mais pura e febril: a liberdade de escolher entre a morte e a dívida.

O que aconteceu naquele motel da Flórida não foi uma anomalia americana, foi um avanço. O trailer do filme que agora é exibido em Espanha sob títulos sedutores como “inovação”, “eficiência” e “modernização orientada para o mercado”.

Nas próximas eleições, os de cima tentarão dividir-nos em caixinhas bem ordenadas, como se os rótulos “direita” e ”esquerda” pudessem conter a incompreensível raridade do ser humano. Cortar-nos-ão como se fôssemos pedaços de carne política: “conservador magro”, “liberal marmorizado”, “centrista alimentado com pasto”. E nós, a mugir obedientemente.

Sim, podemos posicionar-nos mais ou menos num espectro em temas como crucifixos nas salas de aula, impostos aos ricos e ultra-ricos, quantidades “legalmente toleráveis” de chumbo na água ou se os imigrantes devem ser tratados como seres humanos em vez de móveis com rodas. Mas fora a anomalia de um país que conscientemente elegeu um criminoso condenado e suposto predador sexual como chefe de Estado — e depois perguntou se ele queria sobremesa —, o resto do mundo desenvolvido viveu meio século com um par de axiomas claros: totalitarismo = mau, democracias liberais = bom. Tito, o Tio Enver e Ceaușescu = completamente loucos. Hitler, Mussolini e Franco = não convidar para jantar. E entre esses extremos estava a zona cinzenta onde supostamente queríamos viver.

E nessa zona cinzenta havia, durante décadas, espaços sagrados onde era feio o capitalismo cravar os dentes. A polícia e os tribunais deviam ser “iguais” para todos, pelo menos no papel. A educação — sobretudo no início — era o grande equalizador, a cadeirinha elevatória que dava uma oportunidade a cada criança. E depois havia a saúde. A ideia de lucrar com a morte era de mau gosto, moralmente repugnante, como aparecer num funeral com um vestido de noiva. Classificar doenças como “oportunidades premium de rendimento” ou “perdas aceitáveis” era o que te mandava para o exílio em algum escritório em mogno no deserto da FAES[1].

E então algo mudou. Primeiro lentamente, como o mofo a espalhar-se por trás do papel de parede. E, surpreendentemente, nem sequer começou pela direita. Os governos do PSOE na Andaluzia foram-se convencendo — ou seduzidos, pressionados, subornados, o que preferirem — de que era possível ganhar dinheiro com as pneumonias. Pneumonias! Como se os pulmões de um reformado fossem de repente uma carteira de investimento diversificada.

Este é o futuro que nos dizem para aplaudir como “inovador”, “eficiente” e “moderno”. Um futuro em que o hospital não é um refúgio, é o monstro debaixo da cama. Mas não o da Pixar. Um com dentes de folha de cálculo, olhos de EBITDA e um contrato de caridade agrafado na testa. Um monstro que mede o seu pulso em euros e o seu prognóstico em trimestres fiscais.

Mas o pior, a gargalhada histérica, é que nem precisamos imaginar o que acontece quando convidamos essa besta para o sistema de saúde. Já sabemos. Os dados estão aí. The Lancet, aquele panfleto ultracomunista da guerrilha médica, já avisou: quando se entrega um sistema público a operadores privados, a qualidade diminui, a equidade afunda e os pobres são deitados no lixo como ativos que não rendem. Quando a saúde é um negócio, as pessoas são rubricas contabilísticas e os doentes, passivos tóxicos. A Espanha não está a ser avisada. A Espanha está a viver isso.

Nos corredores mal iluminados do hospital de Torrejón, aconteceu algo extraordinário: o monstro falou. Numa gravação filtrada, obra-prima da sinceridade neoliberal, os executivos da Ribera Salud explicaram o modelo de negócio com a ternura de um abutre explicando a sua dieta. Falaram em identificar “processos não rentáveis”, em atrasar o atendimento para maximizar as margens e, claro, no velho truque: esticar o material “de uso único” até transformá-lo em “uso múltiplo”.

Austeridade, mas versão biorrisco. Foi o “isso não se diz” proclamado aos gritos; dava para ouvir Milton Friedman a aplaudir do túmulo.

E o modelo por trás de tudo isso? Capitação. Um sistema mágico pelo qual o hospital cobra uma taxa fixa por habitante: quanto menos pacientes tratarem e quanto mais evitarem os caros, mais ganham. Uma fantasia de eficiência, se o seu sonho molhado for uma folha de cálculo distópica onde o número ideal de pacientes tratados é zero.

Enquanto isso, as listas de espera crescem, os centros públicos definham e um coro de think tanks insiste que isso prova que “o público já não funciona”. Claro que não funciona! Vocês mataram-no à fome. Espremeram-no. Deixaram-no na unidade de cuidados intensivos até que o capital de risco chegou com uma capa e gritando “inovação!”

Lembro-me de quando se podia consultar o médico de família no mesmo dia. Agora, as pessoas esperam tanto que não optam por cuidados médicos, mas sim por classificação arqueológica.

E é aqui, nesta privatização sigilosa e fúngica, que a verdadeira divisão entre esquerda e direita se revela. Não em bandeiras. Não em crucifixos. Não em brincos de pérolas, nem em camisolas sobre os ombros, nem em promessas nostálgicas de que Espanha será sempre pura, ordenada e homogénea.

A verdadeira divisão é esta: acredita que a saúde é um direito humano ou uma linha de receitas corporativas?

Porque se o seu voto for para a Candidata Sorriso Bonito, que lhe promete que o presunto continuará na mesa e que o catalão nunca entrará na sala de aula infantil, mas nas letras pequenas está a privatização do seu hospital... parabéns: trocou a sua biópsia pelo nacionalismo e a sua quimioterapia pelo conforto cultural.

E, mesmo assim, as pessoas ficaram escandalizadas — escandalizadas! — quando o caso Torrejón veio à tona. Quando os CEO falavam abertamente em atrasar o atendimento, em transformar as urgências em centros de lucro, em reutilizar material médico como se estivessem a lavar tupperwares na casa de banho de um posto de gasolina. Levavam as mãos à cabeça como se fosse uma maldade imprevisível e não a consequência lógica — matemática — de um modelo de saúde pensado para o lucro.

É isso que as empresas fazem. Monetizam. Otimizam. Canibalizam tudo o que não está preso ao chão. Se isso inclui os teus rins, bem, os rins podem ser substituídos. As margens, não.

Portanto, quando chegar o dia de votar, a questão não é se você é de esquerda ou de direita, vermelho ou azul, nacionalista ou globalista. Não se trata de bandeiras, nem de línguas, nem da memória edulcorada de uma Espanha que só existe nos cartões postais.

A questão é brutalmente simples: quer um sistema de saúde ou um sistema de faturação? Quer um médico ou um acionista? Quer tratamento ou uma fatura? Quer morrer por causa da picada de uma aranha porque a ambulância custa mais do que o seu carro?

Se quer saber para onde vai o nosso sistema de saúde, não olhe para os anúncios da campanha. Olhe para aquele quarto de motel na Flórida. Esse é o final do jogo que querem que joguemos.

Após uma noite eterna, o meu amigo na Flórida sobreviveu. Ele cerrou os dentes o suficiente para evitar a falência. Ele fugiu do hospital não por se recuperar, mas por medo. E anos depois, quando uma pneumonia grave finalmente o arrastou para o sistema que ele tinha evitado toda a sua vida, a profecia cumpriu-se: fizeram-lhe um exame, registaram o seu cartão de crédito, calcularam o seu status de não segurado e diagnosticaram-lhe um cancro de pulmão em estágio quatro antes de mandá-lo para casa com aspirinas. Não havia camas para “aproveitadores”.

Ele não morreu porque a medicina falhou. Ele morreu porque o modelo de negócios funcionou exatamente como foi desenhado.


Troy Nahumko é um premiado escritor de viagens, ensaísta e redator freelancer de conteúdo de viagens, residente em Cáceres. Artigo publicado em El Salto.


Nota:

1- Fundación para el Análisis y los Estudios Sociales, think tank ligado ao PP e presidido pelo ex-primeiro-ministro José Maria Aznar