Pablo Gallart, CEO do grupo Ribera, deu ordem aos dirigentes do Hospital de Torrejón de Ardoz para aumentar as listas de espera, mesmo que isso significasse realizar menos intervenções e recusar pacientes ou processos não rentáveis, para aumentar os lucros. As palavras de Gallart foram gravadas e divulgadas esta quarta-feira pelo diário espanhol El País.
Hospital madrileno do dono da PPP de Cascais fez batota na triagem das urgências
Torrejón de Ardoz é um hospital público da região de Madrid gerido por este grupo privado que detém em Portugal a única PPP de gestão hospitalar em vigor, a do Hospital de Cascais. Aquele hospital madrileno cobre uma área de 150 mil habitantes, mas a lei da Comunidade de Madrid permite que qualquer habitante da região possa recorrer aos cuidados de saúde naquelas instalações. Na gíria da gestão hospitalar, estes doentes “forasteiros” são considerados ‘não-cápita’
“De certeza que estamos a fazer muitas atividades ‘não-cápita’ que não nos trazem benefícios, ou seja, que nos estão a prejudicar. Não sei se há possibilidade de captar ou não atividades que nos interessem mais. Por exemplo, atividades relacionadas com a farmácia podem não nos interessar. Não sei, há tantas teclas que podemos tocar”, prosseguia o CEO do grupo na reunião de setembro.
O objetivo de Gallard na reunião era alterar a gestão do hospital para “atingir um EBITDA [lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações] de quatro ou cinco milhões”. O aumento das listas de espera significaria mais demoras e menos intervenções, logo menos despesa com pessoal e meios, mantendo a receita vinda dos cofres públicos.
“A elasticidade funciona sempre nos dois sentidos”, dizia Gallart, lembrando que após a pandemia aumentou bastante a despesa com pessoal para reduzir as listas de espera no pós-covid. “E não estou a falar só de listas de espera, tenho a certeza de que vocês têm muita imaginação, que são capazes de identificar quais processos não contribuem para o EBITDA da empresa e quais processos contribuem, e quais atividades nos interessam mais realizar”, insistia.
Fontes do hospital disseram ao El País que nas reuniões seguintes os dirigentes avaliaram que tipo de intervenções não são rentáveis, para tentar encaminhar esses doentes a outras unidades de saúde da região. O diário consultou documentos em que está expressa a ordem de não atender doentes “não-cápita" que necessitem de diálise peritoneal, por não ser rentável.
Diretores clínico, de enfermagem e de qualidade foram despedidos após terem denunciado as ordens
A seguir a estas reuniões, uma das dirigentes hospitalares, Pilar Navarro, denunciou estas práticas no canal interno do grupo a 22 de outubro. Dois dias depois foi despedida. Em seguida, o diretor clínico, a diretora de enfermagem e o diretor de qualidade e experiência do doente usaram o mesmo canal para denunciar os cortes a 26 de outubro e acabaram despedidos no dia seguinte, revela esta quinta-feira o El País. Contactado pelo jornal, o grupo Ribera Salud diz que as saídas se deveram à “perda de confiança na sua gestão e à sua falta de liderança, com motivos justificados que nada têm a ver com o assunto em questão”. Um deles trabalhou 26 anos no grupo - desde a abertura do Hospital de Torrejón - e lamentou que o projeto em que se empenhou “tenha desaparecido por causa dos atuais gestores, que querem cumprir os seus objetivos financeiros a qualquer preço, incluindo a saúde dos doentes”.
Em comunicado, a Comunidade de Madrid, governada pelo PP e que injetou nos últimos anos mais de 123 milhões de euros no Hospital de Torrejón construído e gerido por este grupo privado, anunciou que irá reunir com a direção do grupo e investigar o caso. O CEO Pablo Gallard anunciou que se vai afastar da gestão do hospital enquanto decorre uma auditoria interna.
O primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez reagiu ao escândalo nas redes sociais afirmando que “este é o modelo do PP: fazer da saúde um negócio e da doença uma oportunidade para se enriquecer. O CEO de uma empresa a decidir sobre a vida das pessoas: é nisto que consiste a privatização da saúde. Mais listas de espera, mais rentabilidade, ais injustiças. Não o vamos permitir. O Governo defenderá a saúde pública com todos os instrumentos do Estado”