Na semana passada veio a público através de uma investigação do El País que o CEO do grupo Ribera Salud - que detém a única PPP de gestão hospitalar em Portugal, a do Hospital de Cascais - dera ordens aos administradores do Hospital de Torrejón, nos arredores de Madrid, para recusar doentes “não rentáveis”, e que os diretores clínico, de enfermagem e de relação com o utente foram imediatamente despedidos após denunciarem internamente essas práticas.
CEO do grupo que gere Hospital de Cascais mandou recusar doentes “não rentáveis”
Desde então, o caso teve consequências no grupo, com o auto-afastamento do CEO, Pablo Gallart, e a promessa da ministra da Saúde de vir a mudar a lei das PPP para acabar com o que chamou de “parasitismo” dos grupos privados em relação aos cofres públicos.
Entretanto, o El Diario publicou um documento interno do Hospital de Torrejón, gerido pelo Ribera Salud, que mostra como a direção mudou o funcionamento das Urgências para que se atendessem primeiro os doentes ligeiros e que se evitasse transferir doentes para os andares da medicina interna. Segundo o El Diario, também foram dadas ordens verbais para que a doentes graves, que deveriam ser triados com pulseira amarela, fossem dadas pulseiras verdes e atendidos com rapidez. O objetivo das ordens para dar prioridade aos doentes ligeiros era o de reduzir a lista de espera e evitar reclamações dos utentes, o que ao mesmo tempo “comprometia os padrões mínimos de qualidade e segurança”, denuncia no documento com data de 17 de abril a secção do Sindicato dos Enfermeiros daquele hospital.
Para conseguir “escoar” aqueles doentes, a direção criou uma consulta paralela às Urgências, retirando um médico e um enfermeiro àquele serviço que trata dos casos mais graves e urgentes. O resultado era que “os doentes com dor de cabeça e dores musculares eram atendidos mais depressa do que os graves”, diz uma fonte interna do hospital. Houve alturas em que foram dadas ordens verbais para proibir a triagem com pulseira azul, a que é dada a doentes que poderiam ter ido a um centro de saúde, para não ter a sala de espera cheia durante muito tempo, atendendo-os rapidamente.
Outra medida de gestão contestada pelos trabalhadores foi a abertura da Unidade de Curta Permanência para acolher doentes sob observação das Urgências e que deveriam estar no respetivo piso. Neste espaço amontoavam-se duas dezenas de doentes que em circunstâncias normais deveriam estar num dos quartos. Isto rendia ao hospital a mesma verba dos restantes internados, acrescida de um suplemento se fossem de fora da área de influência do hospital, mas sem os custos de os acomodar com as condições de privacidade e segurança que deveria.