Solidariedade

Tempestades e os nomes que importam

07 de fevereiro 2026 - 12:26

Ingrid, Joseph, Kristin, Leonardo, Marta. Não são estes os nomes que importam. Vou apresentar-vos outros, os que têm vivido em zonas sacudidas por chuva e vento, os que foram abandonados por um governo negligente e, ainda assim, emprestam força à comunidade.

porAna Carolina Gomes

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Voluntários ajudam nas limpezas dos detritos nas ruas da Marinha Grande, depois da passagem da depressão Kristin em Embra, Marinha Grande,
Voluntários ajudam nas limpezas dos detritos nas ruas da Marinha Grande, depois da passagem da depressão Kristin em Embra, Marinha Grande, Foto de Carlos Barroso/Lusa

A história da depressão Kristin desenrolou-se a dois tempos. Podem ser traçadas duas cronologias distintas: a do Governo e a da Comunidade. A depressão Kristin atingiu o território nacional na madrugada de dia 28 de janeiro. Depois disto, as cronologias divergem.

Há uma cronologia rígida. O Governo sabia da gravidade extrema da tempestade, mas não acautelou a resposta preventiva devida. O Governo não percebeu (ou não valorizou) que o autarca da Marinha Grande não estava contactável, teve de ser este a deslocar-se ao concelho vizinho para explicar o que se passava na sua terra. A Ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, justificou só ter ido às zonas afetadas 48 horas depois por estar a fazer trabalho de “reflexão”, enquanto participava numa cerimónia da GNR. O Ministro da Presidência, Leitão Amaro, tornou-se influencer e publicou um vídeo nas redes em pose de quem “estuda” a tempestade. O ministro da Economia, Castro Almeida, desvalorizou o atraso nos apoios, alegando ser “suposto” as vítimas da tempestade “terem tido o ordenado do mês passado”. Enquanto os mecanismos europeus vão sendo acionados timidamente e os apoios vão tardando.

Há uma cronologia dinâmica. Há um povo que acorda para casas sem telhado, florestas destroçadas, vias obstruídas, dias sem energia, sem água e sem comunicações (cerca de 90 mil casas estão ainda sem luz enquanto escrevo). Há um povo que não se encolhe perante a adversidade e que, sem esperar pelas respostas que tardam, põe mãos à obra, alimenta, limpa e reconstrói. Há centenas (talvez já milhares) de voluntários que se mobilizam. Há ondas de donativos que percorrem o país até dar resposta às necessidades mais básicas das zonas mais afetadas. Há refeições quentes partilhadas por quem tem fogão a gás, banhos oferecidos por quem não ficou sem água, telhas ajeitadas e lonas estendidas com a ajuda da vizinhança.

É aqui que vos apresento os nomes que importam. Nomes de gente. E que aqui têm estes nomes, assumidamente fictícios (embora todas as histórias sejam reais), simplesmente porque poderiam perfeitamente ser outros nomes. Estas não são histórias de heróis, são histórias que se repetem, sobrepõe e replicam na sua singularidade comum: a resposta solidária e coletiva foi a que, desde o primeiro momento, não deixou ninguém ao abandono.

Inês. A Inês nasceu na Marinha Grande, agora vive na Tocha. Os pais continuam a viver na Marinha e estiveram quase uma semana sem comunicações, mas antes de ficarem totalmente incontactáveis ainda conseguiram avisar a Inês para não ir lá, para se proteger, que o pai se tinha cortado com uma telha e que não conseguia ligar para o 112 ou chegar a um hospital, que o prédio estava sem telhado, mas que estava tudo bem, tinham tido sorte e havia quem estivesse muito pior. A Inês não seguiu o concelho, fez-se à estrada, andou um dia na região da Marinha, incontactável, sem GPS, a saber dos pais, mas também dos familiares de outras pessoas quem lhe pediram ajuda. Nesse mesmo dia, quando regressou à Tocha, ligou a toda a gente a dar novidades.

José. O José é operário na Marinha Grande. A fábrica onde trabalha abrandou, mas nunca parou e continuou a ter internet. O José falou com toda a gente que conseguiu, desde o primeiro momento, a contar o que se passava lá, a avisar que as estradas estavam cortadas, a pedir e dar ajuda. A sinalizar um ponto de internet para quem fosse para a zona, a saber de quem estava incontactável, a oferecer banhos quentes. O telhado do José também voo, mas no dia em que conseguiu uma equipa para o reparar, andou com essa equipa a reparar outros telhados.

Kevin. Kevin é taxista em Coimbra, cidade, mas vive numa aldeia periférica do concelho, São Frutuoso, onde as casas são muito mais baratas. São Frutuoso ficou sem energia vários dias, mas Kevin nunca deixou de trabalhar. Numa das viagens levava alguém que se deslocava para fazer voluntariado na região de Leiria. Kevin agradeceu, porque tinha uma prima na Marinha Grande e sabia como as coisas lá tinham sido muito más, que também tinha ficado sem casa, mas que na Marinha as coisas tinham sido muito piores do que em Coimbra. Kevin não quis o pagamento da viagem, disse ser o seu contributo e agradeceu.

Leonor. A Leonor vive em Coimbra, mesmo no centro da cidade. Mal deu pelo vento da Kristin e as águas do Mondego insufladas pelo Leonardo e pela Marta nunca lhe chegariam a casa. A Leonor percebeu que estava em segurança e que tinha todas as condições para pode ajudar. Muito antes das medidas do Governo serem anunciadas, já tinha partilhado em grupos, redes sociais, mensagens, telefonemas, um apelo: vamos a Leiria, vamos levar o que precisam, vamos ajudar com o que precisam. O grupo whatsapp que criou tem cerca de meia centena de pessoas que se têm organizado para recolher donativos, que não param de chegar, e ir com regularidade aos locais mais afetados pelas tempestades na zona centro. Ainda não passou um dia sem que pelo menos um carro não saísse de Coimbra com esse fim.

Margarida. A Margarida é de Lisboa, encontrei-a no estaleiro municipal da Marinha Grande a fazer voluntariado. Contou-me como em Lisboa só perceberam bem a gravidade dos efeitos da depressão Kristin no sábado, dia 30 de janeiro. Sem saber bem ao que ia, sem levar nada além de uma pequena mochila com o essencial, vestiu um colete refletor e apanhou um autocarro até à Marinha Grande, onde esteve dois dias a fazer voluntariado. Quando a encontrei, ia regressar a Lisboa para fazer uma angariação de fundos no grupo de teatro de que faz parte e regressar, possivelmente com mais pessoas.

Estes são só alguns nomes entre muitos outros sem ordem alfabética. Inês, José, Kevin, Leonor, Margarida, André, Pedro, Manuela, Gil, Miriam, Catarina, Nuno, o trabalhador da loja de ferragens que negociou com as chefias um desconto de quarenta por cento em corda porque era para levar para a Marinha, a trabalhadora da caixa de supermercado que quis doar dez euros para ajudar a comprar fraldas para a Praia da Vieira, os camaradas dos partidos de esquerda que acionaram as suas organizações locais para ter sedes abertas transformadas em abrigos… A coragem da resposta imediata desta gente, a contrastar com a incompetência insensível do governo.

Ana Carolina Gomes
Sobre o/a autor(a)

Ana Carolina Gomes

Antropóloga. Ativista. Dirigente do Bloco de Esquerda
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