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Temer investigado por corrupção e bloqueio à “Lava Jato"

Procurador-geral brasileiro avança com investigação. Lula diz que o impeachment será mais demorado que o de Dilma. Denunciantes contribuíram para campanhas de 1829 candidatos de 28 partidos em 2014. E para além da liberdade que o acordo inédito garante, ainda podem ter ganho centenas de milhões em especulação bolsista nos últimos dias.
Michel Temer
Foto Valter Campanato/Agência Brasil

Rodrigo Janot, o procurador-geral da República brasileira, acusa o atual presidente Michel Temer de corrupção passiva, obstrução à Justiça e associação criminosa, com base na conversa gravada entre Temer e o empresário Joesley Batista, alvo de investigações sobre o pagamento de luvas a decisores políticos e de empresas públicas em troca de contratos e outros benefícios. Na gravação feita na residência oficial do presidente, Temer deu o acordo para que Batista continuasse a pagar o suborno mensal a Eduardo Cunha, o condutor do processo de destituição de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados, que pouco depois foi preso e acusado de corrupção.

“Eduardo Cunha, ex-deputado federal e ex-presidente da Câmara dos Deputados, era do mesmo partido do presidente da República, PMDB, e se tornou pública a tentativa de Cunha arrolar o presidente da República como uma de suas testemunhas, facto reconhecido pelo próprio presidente como uma tentativa de constrangê-lo. Depreende-se dos elementos colhidos o interesse de Temer em manter Cunha controlado”, refere o procurador-geral no seu despacho, citado pelo Jornal do Brasil.

Janot diz também que se verifica que “Aécio Neves [líder do PSDB e adversário de Dilma nas últimas presidenciais] em articulação, entre outros, com o presidente Michel Temer tem buscado impedir que as investigações da Lava Jato avancem, seja por meio de medidas legislativas, seja por meio de controle de indicação de delegados de polícia que conduzirão os inquéritos."

Numa nova declaração ao pais feita este sábado, Michel Temer repetiu que não renunciará ao cargo e reclamou a suspensão do inquérito por parte das autoridades judiciais enquanto não for feita uma perícia para confirmar a autenticidade da gravação feita por Joesley Batista.

Lula quer eleições diretas e promete oposição às reformas de Temer

Na primeira reação aos acontecimentos desta semana, o ex-presidente e provável candidato às próximas eleições Lula da Silva defendeu que o Brasil deve ir para eleições diretas. Lula foi também visado nas denúncias do empresário Joesley Batista, que afirmou ter pago 150 milhões de reais (mais de 40 milhões de euros) com destino a contas de Lula e Dilma no estrangeiro.

No seu depoimento, o empresário não refere nenhum contacto direto com Lula ou Dilma, mas com o ex-ministro Guido Mantega que supostamente teria aberto contas em seus nomes. Dilma Rousseff reagiu em comunicado, dizendo que “rejeita delações sem provas ou indícios” e que “jamais teve contas no exterior” e “nunca autorizou, em seu nome ou de terceiros, a abertura de empresas em paraísos fiscais”. Para os advogados de Lula da Silva, que é visado em várias denúncias da Lava Jato e aponta a perseguição política como estando na sua origem, estas delações só são aceites pelo Ministério Público se fizerem “referência – ainda que frivolamente – ao nome do ex-presidente”. “A verdade é que a vida de Lula e de seus familiares foi  – ilegalmente – devassada pela Operação Lava Jato. Todos os sigilos - bancário, fiscal e contábil - foram levantados, e nenhum valor ilícito foi encontrado, evidenciando que Lula é inocente”, referem os advogados em comunicado.

Lula: “Ainda tem muita briga para a gente fazer. Eu imaginava que não seria mais candidato a nada, mas com essa provocação, eu sou o único babaca que tenho dinheiro no mundo inteiro e nada está no meu nome".

Foi só este sábado, na tomada de posse da direção petista de São Bernardo do Campo, que Lula da Silva reagiu de viva voz: “Ainda tem muita briga para a gente fazer. Eu imaginava que não seria mais candidato a nada, mas com essa provocação, eu sou o único babaca que tenho dinheiro no mundo inteiro e nada está no meu nome. Isso me dá vontade de disputar a eleição. Mas depende do partido, da minha saúde, da construção da alianças, do PT e da minha saúde”, afirmou Lula, citado pelo jornal Globo.

A possibilidade de saída de Temer através de um processo de destituição pelos deputados foi vista com pessimismo pelo ex-presidente. “O impeachment da Dilma levou oito meses com mais da metade do Congresso a favor. Se tivesse metade do Congresso hoje, demoraria muito mais”, concluiu.

Delação dos donos da JBS considerada “golpe de mestre”

Numa reportagem publicada na revista Piauí, da Folha de São Paulo, são revelados pormenores da origem da delação, quando os empresários Joesley e Wesley Batista propuseram oferecer à justiça denúncias em torno dos governos de Lula e Dilma e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econímico e Social, o BNDES. Só o fizeram depois de alertados por um procurador, entretanto afastado de funções, a quem pagavam para saber pormenores do andamento das investigações.

Ao contrário da maioria dos delatores premiados, que acabam por negociar a sua denúncia já depois de presos, os irmãos Batista garantiram que não passariam um dia na cadeia ou com pulseira eletrónica. Joesley, que implicou Michel Temer numa conversa gravada, tem garantia de poder continuar a viver nos Estados Unidos livre de perseguições judiciais. Ambos podem continuar a gerir empresas e serão amnistiados nas restantes investigações de que são alvo.

O diário Estadão revela este sábado que quem negociou os termos do acordo entre o grupo JBS e a justiça brasileira foi um dos braços direitos do procurador Janot no grupo que investiga a operação anti-corrupção Lava-Jato. Marcelo Miller abandonou a Procuradoria há dois meses, trocando-a pelo escritório Trench, Rossi & Watanabe Advogados, do Rio de Janeiro, que agora negociou este acordo inédito em nome dos donos da JBS. Em resposta à notícia, a Procuradoria-Geral desmentiu que Miller tivesse alguma participação nas negociações.

Um dos rumores dos últimos dias é o de que os irmãos Batista, conhecedores do impacto político da sua denúncia e do provável abalo nos mercados, teriam apostado forte no dólar no mercado de futuros, ganhando em poucos dias muito mais do que alguma vez irão pagar de multa.

Um dos rumores dos últimos dias é o de que os irmãos Batista, conhecedores do impacto político da sua denúncia e do provável abalo nos mercados, teriam apostado forte no dólar no mercado de futuros, ganhando em poucos dias muito mais do que alguma vez irão pagar de multa.

A empresa JBS, detida pelos irmãos Batista, é a líder mundial do processamento de carnes e a segunda maior empresa brasileira em faturação, a seguir à Petrobras. O seu crescimento deveu-se em boa medida ao financiamento do BNDES ao processo de internacionalização a partir de 2007. Para além dos apoios financeiros, o banco público de investimento adquiriu 21% do capital da JBS. Com essa capitalização, o grupo fez aquisições em vários países, tornando-se em 2014 a segunda maior empresa no setor alimentar, apenas abaixo da Nestlé.

Hoje em dia, a JBS, através da holding J&F Investimentos, está também presente no setor da energia, laticínios têxteis, celulose, calçado, televisão, entre outros. Um percurso abalado desde o ano passado, com o início de várias investigações policiais por fraudes e irregularidades em várias empresas, como a operação “Carne Fraca”, que apanhou infrações à segurança alimentar.

Nas eleições de 2014, o grupo dos irmãos Batista foi o maior doador para as campanhas eleitorais no país, com mais de 500 milhões de reais (137 milhões de euros) distribuídos por 1.829 candidatos a deputados estaduais, federais, senadores e governadores oriundos de 28 partidos, segundo a lista agora entregue à justiça por Ricardo Saud, o o diretor de Relações Institucionais e Governo da J&F Investimentos.

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