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Solidarity/People Before Profit, a outra esquerda irlandesa também conversa sobre governo

A vitória do Sinn Féin no fim de semana passado chamou a atenção para o quadro político da Irlanda. À esquerda, o partido não está sozinho. Solidarity e People Before Profit, por exemplo, enterraram o machado de guerra do sectarismo em 2015 para construirem uma aliança eleitoral anti-capitalista que agora discute governo.
Apresentação da campanha eleitoral do Solidarity/People Before Profit.
Apresentação da campanha eleitoral do Solidarity/People Before Profit.

Nem toda a esquerda irlandesa chegou às manchetes mundiais esta semana. À esquerda do Sin Féin, a coligação Solidarity/People Before Profit não mereceu, na maior parte da imprensa mundial, sequer referência. Foram várias as notícias a fazer contagens de deputados eleitos que referiam Verdes, os Trabalhistas e os Sociais-Democratas e por aí paravam.

Só que as contas eleitorais não ficam completas sem olhar para esta aliança. Apesar de ter diminuído a votação de 3,9 para 2.6% e de ter perdido um deputado, passando de seis para cinco, o Solidarity/People Before Profit resistiu a um desastre que tinha sido vaticinado. E é uma força política que está para durar na política irlandesa.

Do sectarismo à aliança

A história da aliança nascida formalmente em 2015 vem de bem mais longe. Os seus dois principais partidos têm origem em formações trotskistas históricas: o People Before Profit vem da tradição do SWP, Socialist Workers Party, o Solidarity da tradição do Socialist Party. A estes dois, se juntou um parceiro mais pequeno em setembro de 2019, o RISE, um partido fundado pelo deputado Paul Murphy que tinha saído do Solidarity.

O casamento tem assumidamente algo de conveniência. De acordo com a lei eleitoral irlandesa, só um grupo parlamentar de cinco elementos tem direito a plenos direitos de intervenção e quem tenha mais 2% recebe mais fundos estatais.

Como é óbvio, não é apenas este interesse que os mantém unidos. Partilham uma plataforma política anti-austeritária, pelo ecossocialismo e em defesa dos serviços públicos. Não têm porta-voz único, partilhando também essa tarefa. Nos debates eleitorais assumiram esse papel à vez. Juntos no parlamento, mantêm-se com identidade firmemente separada e lançam manifestos próprios. De qualquer forma, o simples facto da aliança se ter concretizado e continuar a existir é um marco, dada uma velha história de sectarismos.

Um governo de esquerda?

Durante a campanha eleitoral, o People Before Profit/Solidarity insistia para que a esquerda não cometesse o “erro desastroso” de se tornar uma muleta da direita. O recado relembrava colaborações passadas do Labour e dos Verdes mas estava destinado igualmente a prevenir tentações futuras do Sinn Féin.

Essa foi a mensagem transmitida por Richard Boyd Barrett na conferência de imprensa final da campanha, apelando à esquerda para ter “coragem e ambição” para quebrar o ciclo de governo do Fianna Fáil e do Fine Gael.

Paul Murphy, na mesma ocasião, apresentava as contas de uma possível alternativa, sublinhando desde logo que os 42 candidatos apresentados pelo Sin Féin seriam de qualquer forma insuficientes para construir uma maioria: “se houve um governo alternativo, que exclua o Fianna Fáil e o Fine Gael, então um grande número de candidatos do Solidarity – People Before Profit e de outros candidatos de esquerda com princípios têm de ser eleitos.

Depois das eleições, o People Before Profit afirmou-se disposto a negociar e participou já numa reunião com a dirigente do Sinn Féin Mary Lou McDonald. À saída desta reunião, Richard Boyd Barrett declarou ao Irish Times que a aliança tinha sido a única força a antecipar a possibilidade de um governo de esquerda no país: “quando dissemos no início desta campanha que era possível um governo de esquerda sem o Fianna Fáil e o Fine Gael as pessoas riram-se de nós. Agora é uma possibilidade real e viva.”

O deputado tem consciência das dificuldades que enfrenta esta possibilidade mas acha que é preciso “um governo que genuinamente resolva os grandes problemas que as pessoas enfrentam neste país”, realçando que “a paisagem está a mudar e pensamos que a mudança é possível”.

Sobre as suas prioridades para um governo deste tipo indicou medidas como o regresso da idade de reforma para os 65 anos, a adoção de medidas significativas na área da habitação de forma a parar o aumento de sem-abrigo, travar a especulação imobiliária e fundiária, avançar com medidas para reagir à crise da saúde e um a ação genuína e radical para lidar com as alterações climáticas “que não passe por punir a classe trabalhadora mas atinja as empresas poluidoras”.

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