Solidariedade Imigrante acusa RTP de condenar trabalhadores imigrantes à invisibilidade

27 de outubro 2023 - 11:11

Associação refere que o programa da RTP2 dedicado ao agronegócio em Portugal sem mostrar um único imigrante é uma “obra de ficção propagandística”. E pede explicações à administração da televisão pública e à tutela governamental sobre este "ato de autêntica censura".

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Foto de Paulete Matos.

Em comunicado, a Solidariedade Imigrante (Solim) refere que a RTP 2 operou “um autêntico milagre televisivo” ao emitir, no passado domingo, a peça “Um Dia na Agricultura Portuguesa” sem “mostrar a imagem (e muito menos dar voz) de um/a único/a imigrante” ao longo dos 50 minutos do programa.

Lembrando que os imigrantes representam mais de 90% dos trabalhadores agrícolas do país, e que a emissão foi dedicada por inteiro ao agronegócio, a Associação para a Defesa dos Direitos dos Imigrantes destaca que “é obra não filmar um único imigrante nas estufas de Odemira, nas vinhas do Vale da Rosa ou do Douro, no olival e amendoal superintensivo de Alqueva, nos abacates do Algarve ou na pera no Oeste – onde a percentagem de imigrantes ronda os 100%”.

De acordo com a Solim, “as razões deste eclipse encontram-se ao minuto 33 nas palavras do Eng. Luís Mira”, que referiu “os pilares da agricultura moderna: a sustentabilidade ambiental (?) e uma ‘nova vertente de preocupação social’ introduzida na última reforma da PAC”.

O membro do Comité Económico e Social Europeu (CESE) e pivot do programa afirmou ainda que “nós em Portugal já cumprimos todas as regras sociais, mas importamos produtos de outras partes do mundo onde estes direitos não são cumpridos”. 

A Solim refuta estas declarações, enfatizando que “bastariam umas poucas imagens de imigrantes, em Odemira ou em tantos lugares deste país, para destruir esta obra de ficção propagandística”.

“A maioria dos trabalhadores por conta de outrem na agricultura vêm de ‘outras partes do mundo’ onde direitos sociais e humanos não são respeitados, angariados por máfias que em Portugal os subalugam aos donos do agronegócio, em prol do lucro máximo e do crescimento das exportações”, escreve a Associação.

Existem, porém, conforme sublinha a Solim, “’detalhes’ desagradáveis, que convém esconder: tráfico humano; exploração de imigrantes e até casos documentados de trabalho escravo; habitações miseráveis e em regime de “cama quente” nas cidades ou em contentores espalhados pelos campos, etc”.

Neste contexto, a associação adianta que “percebem-se as razões da “limpeza étnica” que tornou ‘invisíveis’ os trabalhadores imigrantes, neste Dia na Agricultura Portuguesa”.

Considerando que é “inadmissível” que tal “tenha ocorrido na Televisão Pública, e logo no Canal com uma programação de indiscutível qualidade, em violação dos mais elementares critérios jornalísticos”, a Solim enfatiza que a Administração da RTP e a tutela governamental “devem explicações sobre este ato de autêntica censura”, que condenou “milhares de trabalhadores imigrantes à mais dura das penas: a invisibilidade”.

Termos relacionados: Sociedade Agronegócio, Agricultura ,  imigrantes