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Socialismo 2013: O poder económico angolano em Portugal

Numa das sessões do Socialismo 2013 (30 e 31 agosto no Liceu Camões, em Lisboa) Jorge Costa apresentará os traços essenciais da presença do capital ligado ao regime angolano nos grandes grupos económicos portugueses e da sua rede de influência política.
A primeira bilionária africana, filha de Eduardo dos Santos, é a face mais visível da elite angolana que transfere capital para Portugal. Imagem retirada do site club-k.net

Texto de apresentação da sessão sobre "O poder económico angolano em Portugal", dia 30 às 18h no Socialismo 2013.


O momento da grande aceleração das relações económicas portuguesas com o regime angolano é o ano de 2007. A curva era já ascendente, mas com os primeiros sinais de crise financeira mundial (colapso do subprime nos EUA), as atenções portuguesas viram-se radicalmente para Angola. Afinal, a eclosão da crise financeira ocorre precisamente no imobiliário e no crédito bancário a ele associado, o coração do modelo económico português dos últimos 20 anos. São esses setores os mais rápidos abandonar pruridos de qualquer espécie na relação com o regime de Luanda. Só o grupo Espírito Santo lhes tomara já a dianteira.

A “disponibilidade de capitais” e a vontade de os canalizar em grande parte para fora de Angola caracterizam o regime angolano. Esta “elite”, composta por cerca de uma centena de indivíduos em torno da família do Presidente da República e das altas patentes militares, tem um projeto definido: em primeiro lugar, acelerar o processo a que o ministro-adjunto, Aguinaldo Jaime, chamou, numa entrevista sobre corrupção, “a acumulação primitiva de capital em Angola” (Diário Económico, 8.5.2008). Em segundo lugar, proteger parte significativa do produto dessa acumulação em cofres e aplicações longe do território angolano, para que a sua propriedade esteja garantida no futuro, mesmo que uma qualquer “primavera” se atravesse no caminho do MPLA. Em terceiro lugar, para assegurar esse mesmo objetivo, refazer a imagem externa e interna do regime, através do controlo de meios de comunicação social.

Os ganhadores nesta radical desigualdade na distribuição da riqueza ensaiam a sua auto-justificação, ora invocando a seu favor a experiência sul-africana do Black Economic Empowerment - o programa lançado pelo ANC no final do apartheid como medida legal para corrigir as iniquidades herdadas da segregação -, ora simplesmente colocando as coisas... preto no branco, como só o Jornal de Angola sabe fazer: “os países ocidentais, inclusive Portugal, disseram aos angolanos que tinham de aderir à economia de mercado. Angola aderiu ao capitalismo (...) e cá estamos nessa via. As riquezas do Estado passaram para as mãos de privados, desde as casas onde viviam até aos espaços comerciais, às fazendas, propriedades industriais, minas e tudo o que era estatal. Essas riquezas são propriedade de angolanos. Angola tem direito a ter uma burguesia nacional que seja cada vez mais forte e mais rica” (Editorial, 26.11.2012).

Esta nova burguesia angolana encontra em Portugal a plataforma ideal: um sistema político permeável ao poder do dinheiro, um sistema bancário descapitalizado e com vocação de lavandaria, grupos económicos sedentos de investimento direto, um desemprego de quadros que oferece uma enorme disponibilidade para a emigração. Acresce um mercado de comunicação social retraído e em recomposição, no qual o capital angolano tem facilidade em reciclar-se, comprando posições, ganhando força simbólica em circuitos europeus de comunicação e captando quadros para a modernização tecnológica e de conteúdos dos media angolanos - uma exigência absoluta da produção de consenso numa sociedade dominada, em que a riqueza nacional é drenada pelo restrito círculo do poder.

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