Audição

Sobrinho foi ao Parlamento atacar o Bloco e deixou trabalhadores da Printer sem respostas

05 de junho 2024 - 15:09

O ex-presidente do BES Angola que fechou as instalações da gráfica Printer, deixando 120 trabalhadores à porta, não respondeu à maioria das perguntas sobre a empresa e preferiu queixar-se das denúncias do Bloco, respondendo assim ao deputado José Soeiro: “Supondo até que eu tivesse roubado a Angola, é um problema de Angola, não é problema seu”.

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Álvaro Sobrinho
Álvaro Sobrinho

Álvaro Sobrinho foi chamado pelo Bloco de Esquerda a esclarecer os deputados da Comissão de Trabalho, Segurança Social e Inclusão sobre a situação na gráfica Printer Portuguesa, que adquiriu em 2012 e fechou portas a 24 de abril, com os trabalhadores a serem impedidos de entrar nas instalações e de procurar alternativas de trabalho. Só a 27 de maio receberam as cartas que lhes permitem suspender os contratos e receber apoio da Segurança Social.

Aos deputados, Sobrinho justificou o encerramento com o arresto das contas da empresa por causa dos crimes de que é acusado no processo do BES Angola, apontando o dedo ao juiz Carlos Alexandre. Questionado sobre a falta de pagamento do salário aos trabalhadores da Printer, disse que a culpa foi de um “ataque informático” que deixou a empresa incapaz de processar os salários.

À maioria das questões colocadas pelos deputados sobre a situação da empresa, Álvaro Sobrinho não respondeu, atribuindo a “fatores exógenos” as causas do que diz ser “a provável insolvência da Printer”, mesmo que seja desbloqueado o arresto das suas contas.

A ida à comissão serviu sobretudo para o ex-líder do BES Angola atacar o Bloco de Esquerda, chegando mesmo a falar de “considerações preconceituosas, que roçam o racismo”, apesar de no requerimento não haver menção à sua nacionalidade nem à sua atividade em Angola. As palavras do antigo banqueiro e atual gestor de fortunas na Suíça motivaram o protesto do deputado bloquista José Soeiro: “Nós nunca nos referimos a características do povo angolano. Nós sempre dissemos que o povo angolano é vítima de oligarcas como o Dr. Sobrinho”, a quem acusou de “gangsterismo financeiro”.

“Eu não quero perder dinheiro. Eu não sou gangster. Não há nenhum gangsterismo”, assegurou Sobrinho. E foi mais longe: “Supondo até que eu tivesse roubado a Angola, é um problema de Angola, não é problema seu”, respondeu o ex-banqueiro, que também se dirigiu aos deputados dizendo que “vocês veem tudo mal. A minha parte filantrópica a nível mundial vocês não relevam”.

“Sei que amanhã, no Esquerda.net, estou desgraçado. Mas isso pouco me assusta quando para mim eu durmo descansado com o que faço na vida”, prosseguiu Sobrinho, aparentemente insatisfeito com a forma como foi retratado no perfil publicado neste site no passado dia 16 de maio. Quem continua a não dormir descansado são os 120 trabalhadores da Printer que lutam desde abril pelos seus postos de trabalho e se viram transformados em vítimas colaterais dos crimes de que o ex-banqueiro é acusado e que levaram ao arresto dos seus bens em Portugal.

Na passada segunda-feira, Álvaro Sobrinho era esperado no Tribunal Central de Instrução Criminal para ser ouvido na fase final do processo instrutório do caso BES Angola, em que está acusado de 33 crimes de burla, abuso de confiança e branqueamento de capitais, com a acusação a alegar o desvio de dinheiro do banco angolano para fins pessoais e em prejuízo do BES em Portugal. Ao todo, a concessão de créditos sob suspeita ascende a 4.700 milhões de euros. Mas Sobrinho não compareceu no tribunal, prescindindo do direito de prestar depoimento. No próximo dia 15 de julho será conhecida a decisão do juiz sobre se o processo avançará para julgamento, como pretende o Ministério Público.