Só 1% das contas falsas russas serão detetadas pelas redes sociais

17 de abril 2023 - 20:39

Os documentos militares classificados dos EUA revelam como os perfis falsos que desencadeiam as campanhas de desinformação russas estão a ganhar à suposta deteção das redes sociais.

PARTILHAR
Putin is Watching You. Imagem de Sergei F/Flickr.

A recente fuga de informação de documentos militares classificados norte-americanos não mostrou apenas detalhes sobre as ações e planos militares ucranianos, a presença de tropas especiais de países da Nato no território deste país ou a vigilância dos EUA aos seus aliados. Também revelou informações sobre o lado russo deste conflito, nomeadamente os planos egípcios de venda de armas à Rússia e pormenores sobre a atuação do grupo paramilitar Wagner, como a sua intervenção em África, a tentativa de expansão para o Haiti e as tentativas de compra de armas turcas através do Mali.

Esta segunda-feira, o Washington Post acrescenta mais informações. Um documento secreto preparado pelos Chefes de Estado-Maior, pelo Ciber-Comando dos EUA e pelo Comando da Europa dos EUA indica que os responsáveis pelos milhares de contas falsas que fazem parte do aparelho de propaganda putinista se gabam de que apenas 1% das vezes estas são detetadas pelas redes sociais.

O documento centra a sua análise na atividade do GlavNIVTs, o principal centro de investigação computacional russo que trabalha diretamente com a presidência russa e que se dedicava, no final do ano passado, a melhorar a eficácia das campanhas da Fabrika, nome dado à rede de desinformação do Kremlin. Esta, por exemplo, recolhe informações de contacto de utilizadores para lhes enviar diretamente as suas peças mas também promove este tipo de conteúdo, colocando bots a “visualizar, gostar, subscrever e republicar”, o que o faz ganhar proeminência em resultados de pesquisas e listas de recomendações.

Nos EUA, depois das medidas implementadas pelas redes sociais para verificar utilizadores, na sequência da investigação sobre as alegadas tentativas russas de interferências nas eleições presidenciais norte-americanas em 2016, a atuação da rede de desinformação teve de se refinar de forma a conseguir continuar a criar perfis falsos: primeiro comprando em série cartões SIM norte-americanos, depois, quando isso foi detetado, utilizando empresas de fachada que pudessem comprar cartões menos detetáveis.

Foi ainda divulgado outro documento que analisava a atividade de uma nova organização russa dedicada à desinformação, desta feita dirigida aos aliados regionais da Ucrânia, chamada Centro para as Operações Especiais no Ciberespaço. Entre as campanhas identificadas desta entidade estão as que espalham boatos sobre as autoridades norte-americanas estarem a esconder supostos efeitos colaterais da vacina, a Letónia, Lituânia e Polónia pretenderem expulsar refugiados ucranianos para os enviar para a guerra ou os funcionários das Nações Unidas serem contratados para espiar para a Ucrânia.

Os especialistas contactados pelo jornal norte-americano consideram o número de 1% exagerado. Mas sublinham que existe uma base verdadeira na afirmação de que uma enorme quantidade da atividade das contas falsas escapa à suposta vigilância das redes sociais: “a Google, o Meta e os outros estão a tentar parar isto e a Rússia está a tentar melhorar. O número que vocês citam sugere que a Rússia está a ganhar”, declarou por exemplo Thomas Rid, professor na Johns Hopkins University’s School of Advanced International Studies e perito no tema da desinformação.

Do lado das empresas donas das redes sociais só a Google, que detém o YouTube respondeu, TikTok, Twitter e Telegram, optaram pelo silêncio. E aquela limitou-se a uma declaração em que indicava que “temos um forte historial de deteção e tomada de medidas contra botnets. Estamos constantemente a monitorizar e a atualizar as nossas defesas”.

Os trabalhadores do Twitter, por sua vez, temem que as mudanças de política e os cortes implementados por Elon Musk tenham limitado fortemente a capacidade desta plataforma de resistir a campanhas de propaganda e desinformação. Estas, junto com o discurso de ódio, aumentaram desde outubro, quando o multimilionário comprou o Twitter. Recentemente, a política de venda do “selo azul” de verificação de contas passou a permitir, escrevia aquele jornal em fevereiro, um muito maior destaque e influência às contas de desinformação russa.