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“Ser homossexual nos Açores é estar em isolamento”

Pedro Garcia criou, há dois anos, a plataforma “As Cores dos Açores”. O objetivo: combater a invisibilidade e o isolamento das pessoas LGBTI+. Na véspera do Dia Internacional Contra a Homofobia, o Esquerda.net falou com o jovem ativista micaelense. Por Mariana Carneiro.
Pedro Garcia, ativista LGBTI+ de São Miguel, Açores.

Aos 21 anos, Pedro Garcia auto intitula-se “um ativista em formação”. Em determinado momento da vida, decidiu que era necessário dar um passo em frente e abordar algumas questões que não tinham qualquer eco nos Açores. Questões que também “sentiu na pele”.

Desde pequeno soube o que era ser alvo de estigma. Pedro recorda que era uma “criança muito sozinha, não tinha muitos amigos” porque “era gordinho”. As pessoas com excesso de peso são, à partida, “colocadas de parte”, frisa.

O jovem micaelense “andou muito tempo em questionamento em relação à sua orientação sexual”. E, desde cedo, sentiu “necessidade de se encontrar na vida”. Começou a acompanhar um amigo que ia sempre à missa e acabou por se “descobrir” na igreja.

“A igreja fala em aceitarmos a nossa verdade. Baseei-me nas homilias que se pregavam. Mas, quando comecei a abraçar a minha verdade, fui discriminado, dentro e fora da igreja”, explica.

Foi-lhe recomendado que fosse seguido por um psicólogo, mesmo estando bem em assumir-se. Era como se “tivesse de ser curado”.

Pedro recusou-se a “deixar morrer” a sua fé. Achou que era “mais fácil fugir do que enfrentar”, e decidiu que “devia trabalhar estas questões com a comunidade cristã, e não só”.

O seu ativismo não é incompatível com o facto de ser cristão. Vai à missa, vai a retiros e, enquanto catequista homossexual assumido, já consegue ser bem aceite pelos pais. De acordo com Pedro, a abertura aos temas LGBTI+ “depende de freguesia para freguesia. Há padres que abordam estas questões fora das missas, falam sem medos e dão abertura para o fazer”.

Pedro lamenta que o Papa, em março, tenha confirmado a proibição do casamento homossexual, “contra aquilo que prega”. Para o ativista trata-se de uma “hipocrisia”. O Papa Francisco “abriu muitas portas e depois fechou-as. Isso abala a fé de muitas pessoas”, alerta.

“A causa só poderá avançar se as associações estiverem mobilizadas para isso”

A 11 de maio de 2019, Pedro criou a página de Facebook As Cores dos Açores. foi o seu coming out público, já que só tinha assumido a sua homossexualidade num círculo restrito.

“As Cores dos Açores”, que conta com a colaboração de um amigo que trata da parte digital, dos designs, funciona como uma espécie de plataforma para, nomeadamente, partilhar notícias e eventos.

Foi nesta altura que Pedro descobriu que a Marcha LGBT dos Açores foi a quarta a sair à rua do país, em 2012. Bem como teve conhecimento da existência dos coletivos Pride Azores e Azores LGBT.

Infelizmente, o “trabalho destes coletivos não tem tido continuidade e eles têm pouca visibilidade”, refere.

Um dos seus objetivos passa por “unir as associações”. “A causa só poderá avançar se as associações estiverem mobilizadas para isso”, defende.

Pedro tem reunido com várias associações de São Miguel, entre as quais a UMAR Açores, APF Açores, SOLIDARIED’ARTE, AIPA [Associação dos Imigrantes nos Açores], Novo Dia. E está ainda em contacto com outros coletivos dos Açores e do continente. Desta forma, tem sido possível realizar várias atividades, seja em nome da “As Cores dos Açores”, seja de outro coletivo.

No ano passado, a plataforma “As Cores dos Açores” promoveu a iniciativa “A Cores em Casa”, com o objetivo de dar visibilidade a artistas dos Açores. Foram convidadas Drag Queens e o artista de body painting Vitor Oliveira também participou. Pedro também participou nos 16 dias de ativismo promovidos pela UMAR Açores, e nas celebrações do 24 de outubro – Dia Municipal da Igualdade.

“Ser homossexual nos Açores é estar em isolamento”

À pergunta “Como é ser homossexual nas ilhas?”, Pedro responde: “Ser homossexual nos Açores é estar em isolamento”.

“Se já estamos isolados do resto do país por estarmos nas ilhas, quem não é heterossexual cai no isolamento”, descreve, assinalando existir “preconceito mesmo em relação aos próprios filhos”.

“As escolas não são nada seguras e inclusivas, e nem abordam esses temas”

Acresce que “as escolas não são nada seguras e inclusivas, e nem abordam esses temas”, sublinha.

De acordo com Pedro, quando começou “a juntar as associações” sentiu que “havia um certo receio de falar. Agora já não”.

O ativista avança ainda que tem recebido várias mensagens na página de Facebook “As Cores dos Açores” de pessoas que procuram fugir ao isolamento. Mesmo durante a pandemia, faz questão de marcar encontros ao ar livre com quem procura apoio. “Existe a falta de falar. Muita gente tem receio em falar com os amigos e a família”, explica.

Pedro aponta que alguns amigos cristãos “nem tinham ideia da diversidade do ser humano” e agora “já abordam estas questões”.

“As pessoas têm de se mobilizar e perder o receio”

“As pessoas têm de se mobilizar e perder o receio de abordar estas questões, criando uma comunidade LGBTI+”, frisa.

Pedro assume: “Antes pensava sair da ilha para viver a minha verdade e abraçar o meu eu como um todo”. O ativista conhece “pessoas trans que sofreram muito na ilha e tiveram de sair”. Mas, se toda a gente sai, “como é que as coisas vão mudar?”, questiona.

“Dia a dia as coisas vão melhorando. Têm-se aberto muitas portas. A Gertrudes Labaça tem sido muito importante e marcante. A personagem reflete muito o que se vive nos Açores, e vai contribuindo para a mudança de mentalidades”, afirma o ativista.

No ano passado, Pedro denunciou que foi impedido de doar sangue, a 19 de junho, por ser homossexual. Entretanto, foram emitidas novas normas que acabam com esta discriminação injustificada. 

Claro que ainda há muito por fazer. Os casais homossexuais não andam de mãos dadas na rua. “Só os turistas”, e esses são olhados de lado. 

Numa ilha onde toda a gente se conhece, apesar de ser a maior dos Açores, não é possível viver os afetos e a sexualidade livremente.

O 17 de Maio, Dia Internacional Contra a Homofobia, em São Miguel

Pedro está envolvido nas atividades promovidas no âmbito do Dia Internacional Contra a Homofobia.

De 3 a 12 de maio, a APF promoveu o concurso “Junta-te à luta contra a discriminação e cria o teu cartaz!”. A UMAR, por sua vez, garantiu a publicação de artigos de opinião em jornais regionais de 11 a 17 de maio.

No dia 15, realizou-se o programa de rádio “O Mundo Aqui”, da Associação de Imigrantes nos Açores. Esta iniciativa contou com a participação da APF/(A)MAR Açores, Rede Ex Aequo, e “As Cores dos Açores”. 

Já no sábado, Pedro foi o convidado do live, no Facebook de Bruno Costa, da personagem Gertrudes Labaça.

E, à noite, participa no programa de rádio “O Mundo no Feminino”, promovido pela UMAR Açores.

Para esta segunda-feira, Dia Internacional Contra a Homofobia, estão previstas as seguintes iniciativas:

- Inauguração oficial das plataformas e redes sociais do (A)MAR - Açores pela Diversidade e do Centro de Apoio Especializado para a população LGBTI (nas instalações da APF-Açores)

- Publicação de um manifesto.

9:00 Ação de sensibilização e construção do “Mural do Dia Internacional contra a Homofobia, Bifobia e Transfobia” na Escola Tomás de Borba, promovida pelo Núcleo da APF Terceira.

10:00 Webinário organizado pela Câmara Municipal de Ponta Delgada: “Ponta Delgada à conversa”.

10:00 Montra interativa “Dia Nacional e Internacional contra a Homofobia, Bifobia e Transfobia” da autoria do grupo de jovens “Os Atelineiros”, na sede da APF

17:00 Divulgação do vencedor do concurso “Junta-te à luta contra a discriminação e cria o teu cartaz!”, promovido pela APF, e entrega do prémio.

19:00 Conversa online organizada pelo Município de Vila do Porto: “O Amor tem várias formas”

Bandeira LGBTI+ na Vila do Porto.

Hasteamento da bandeira LGBTI pelas associações: APF/(A)MAR, UMAR AÇORES, Cubo Mágico

Hasteamento da bandeira LGBTI durante o dia 17 pelos Municípios: Ponta Delgada, Lagoa, Vila Franca do Campo, Ribeira Grande

Outras entidades que se juntaram à iniciativa de hastear bandeira LGBTI nas suas sedes: Cresaçor; Delegação dos Açores da Ordem dos Psicólogos; Arquipélago Centro de Artes Contemporâneas.

Construção de uma bandeira LGBTI pela entidade Cubo Mágico com o apoio dos colaboradores da Casa do Povo de Arrifes e exposição da mesma na fachada do Centro Intergeracional de Arrifes.

Sobre o/a autor(a)

Socióloga do Trabalho, especialista em Direito do trabalho
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