As conclusões do projeto-piloto português da semana de quatro dias serão apresentadas publicamente num evento organizado pela Universidade do Porto. Mas já está acessível o relatório final deste projeto realizado no ano passado por iniciativa do Ministério do Trabalho em parceria com os investigadores Pedro Gomes (Birkbeck, Universidade de Londres) e Rita Fontinha (Henley Business School).
O projeto incluiu 41 empresas, das quais 21 coordenaram-se para iniciar a experiência ao mesmo tempo, tendo as restantes vinte empresas diferentes datas de início, num total de mais de mil trabalhadores envolvidos em doze distritos. Note-se que o primeiro contacto por parte de gestores de empresas, em ais de metade (55%) dos casos, foi feito por mulheres, o que representa o dobro da incidência no universo empresarial português, onde as mulheres ocupam apenas 27% dos cargos de liderança. As empresas não receberam subsídios por participarem no projeto e comprometeram-se a fazer a redução do horário de trabalho sem perda de salário para os trabalhadores, recebendo formação da 4 Day Week Global. O projeto envolveu também a comunidade académica através da Universidade do Porto e levou à conclusão de seis dissertações de mestrado com outras 16 em curso, além de um doutoramento sobre o tema. A projeção pública foi alcançada com centenas de referências em órgãos de comunicação social nacionais e internacionais e dezenas de apresentações em eventos.
Os resultados obtidos e a forma da aplicação do tempo de trabalho variaram bastante consoante o tipo de atividade e a dimensão da empresa. A redução horária foi em média de 13,7% e apenas em 20% das empresas o dia livre foi coordenado à sexta-feira. A maioria das empresas (52,5%) optou pelas 36 horas semanais como formato de implementação adaptado à sua realidade e uma percentagem semelhante diz que irá manter a semana de quatro dias no mesmo modelo aplicado no projeto-piloto. 42,5% foram mais longe e conseguiram reduzir o horário para 32 horas ou menos.
Do ponto de vista dos empresários, destacam-se pela positiva a melhoria de processos no interior da empresa e do funcionamento das equipas, bem como o uso das tecnologias. E afirmam ter notado uma melhoria de desempenho dos trabalhadores ao nível da prestação de cuidados ou do trabalho criativo. 72% afirmam que o projeto não teve custos financeiros para a empresa e cerca de 20% referem poupanças com energia e consumíveis, enquanto 10% falam em poupanças em horas extra ou com absentismo. 86% viram as receitas aumentarem e, para 72%, também os lucros. Apenas 19% das empresas afirmam que não irão dar continuidade à semana de quatro dias.
Para os trabalhadores que passaram em média de uma semana de 41.6 horas para 36,5 horas de trabalho, os resultados passaram pela redução da sensação de desgaste e exaustão ao fim do dia de trabalho e pelo aumento da energia para estar com a família e amigos. Declararam também a redução de sintomas de ansiedade, fadiga, problemas do sono, depressão, tensão e solidão. O tempo livre é naturalmente o aspeto mais valorizado por quem sentiu essa mudança, com as horas a mais passadas com a família, em atividades de autocuidado e hobbies, ou com amigos, não se notando uma subida significativa dos biscates. Mas quando inquiridos para quantificarem a semana de quatro dias em percentagem do seu salário, são as mulheres, os trabalhadores com filhos, os que recebem menores salários e têm menos qualificações que dão mais valor (32% do salário) ao facto de trabalharem menos. Não admira portanto que 92% dos trabalhadores queira continuar no regime horário do projeto-piloto.
AD e Chega rejeitaram alargamento do projeto-piloto. Relatório “dá mais argumentos para contrariar os preconceitos da direita”
Este mês o Bloco de Esquerda levou ao Parlamento um pacote de medidas que designou de “Vida Boa”, onde incluiu o alargamento deste projeto-piloto com a criação de um mecanismo de apoio às empresas privadas para efetuarem a transição e a concretização do projeto-piloto na administração pública e setor empresarial do Estado. Mas a proposta acabou rejeitada por PSD, CDS e Chega, com a abstenção da IL.
Sobre o relatório agora divulgado, o deputado bloquista José Soeiro diz que é “muito importante”, ao mostrar os benefícios da aplicação da semana de quatro dias sem redução de salário e com redução das horas de trabalho semanal. “As objeções colocadas à semana de quatro dias resultam de preconceitos que este relatório e o estudo que ele apresenta ajudam a desmontar. É importante que ela seja amplamente divulgado e debatido, como propusemos”, afirmou Soeiro ao Esquerda.net.
“A semana de quatro dias é uma transformação importantíssima. Devemos avançar rapidamente nessa direção, nomeadamente com o projeto piloto no setor público, com apoio técnico para as empresas que queiram aderir e também aprovando legislação que preveja a redução do horário de trabalho e facilite a adoção da semana de quatro dias”, prometendo que o Bloco vai bater-se por isso. “Este relatório dá mais argumentos e mais motivação para contrariar os preconceitos que, à direita, se esgrimem contra este avanço de civilização que é termos mais tempo nosso, mais tempo para viver”, concluiu.