Seca na Amazónia: indígenas pedem declaração de estado de emergência

12 de outubro 2023 - 11:19

Falta água potável e alimentos, dizem indígenas e outras comunidades da região. Aquela que está a ser classificada como “a pior seca do Amazonas” coloca em perigo toda a vida económica da região.

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Seca na região amazónica. Foto de Raphael Alves/EPA/Lusa.
Seca na região amazónica. Foto de Raphael Alves/EPA/Lusa.

A Articulação das Organizações e Povos Indígenas do Amazonas (Apiam), que representa 63 povos da Amazónia, pediu a declaração de emergência climática na região que atravessa uma forte seca sob influência do El Niño.

Em comunicado citado pela Reuters, instam-se os governos “da Amazónia, do Brasil e do Mundo” para que “façam algo urgentemente para enfrentar a enorme vulnerabilidade climática e social a que estão a expor os povos indígenas e as populações tradicionais”.

No texto, salienta-se ainda que rios como o Rio Negro, Solimões, Madeira, Juruá e Purus estão a secar “em ritmo recorde”, ao mesmo tempo que os incêndios florestais estão a destruir a floresta tropical no baixo Amazonas.

As comunidades indígenas estão a enfrentar falta de água potável. Mariazinha Baré, coordenadora da Apiam, explica que ribeiros e rios menores secaram e “o que tem é lama”. Assim, “o povo tem que fazer longas caminhadas para encontrar água. Com a má qualidade da água, as pessoas estão a ficar doentes”.

Para além disso, vários rios ficaram intransitáveis, o que está a impedir que chegue assistência médica e a isolar várias comunidades. E o fumo dos incêndios também está a afetar a saúde. Ivaneide Bandeira, dirigente da organização indígena Kanindé, no Estado de Rondônia, declarou à agência de notícias internacional que o problema “não é somente o El Niño. Tem desmatamento que está lá, as queimadas que estão lá. Essas pessoas não param para pensar. O agronegócio não pára, ele está indo, está destruindo tudo. Eles parecem que não veem o que está acontecendo com a natureza”.

Por sua vez, o governo brasileiro assegura estar a enviar para a região dezenas de milhares de “cestas básicas” para as comunidades isoladas, enquanto estuda mais respostas de emergência.

Os “sem água” na economia do rio

No portal de informação Amazônia Real, uma reportagem de fundo sobre a situação, intitulada “Os sem águas e sem peixe” classifica o que está a suceder como “a pior seca da Amazónia”, vincando que o “drama humanitário” atinge “a vida de milhares de ribeirinhos e a economia como um todo”. Neste plano económico geral, as comunicações de transporte afetadas, com o Porto de Manaus com muitas embarcações paradas a temer encalhar nas areias, e a falta de peixe fazem temer o pior.

O preço do peixe está a subir e uma peixeira entrevistada pelos jornalistas, Mara Lopes, diz que as vendas já caíram 80% com a feira a estar “às moscas”. No defeso, teme, “quem trabalha com peixe vai passar fome. Se já está ruim, agora, imagina quando chegar a época em que não se pode pescar. Não recebemos nenhum tipo de auxílio. Vamos passar fome”.

O seu colega Eden Ferreira explica que “o rio está muito seco e isso muitos municípios ficam isolados”. Assim, “está faltando peixe na banca”. Para ele, o problema não é só natural: “é obra do garimpo, do ser humano”. “É a natureza revoltada com o ser humano que está mais de olho em ouro, em petróleo, em tirar a vida dos outros, de se matar por tesouros. Fazem isso e esquecem da floresta amazónica. No fim das contas falta comida”.

Numa outra escala, os patrões da indústria local também se preocupam. A reportagem falou com Antonio Silva, presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas, que reconhece que já há “uma preocupação de que possa faltar matéria-prima para as fábricas, principalmente no período que antecede as demandas de produção para o final de ano”.