Educadora, investigadora em ação humanitária e escritora de livros infantis, Joana Rocha tem dedicado o seu ativismo à causa palestiniana e voluntariou-se para integrar a flotilha humanitária rumo a Gaza. Estava numa das embarcações intercetadas pelos militares israelitas na semana passada perto da ilha grega de Creta e no regresso a Portugal contou ao Esquerda.net o tratamento violento de que foram alvo. Joana deixa o apelo à mobilização pela libertação de Thiago Ávila e Saif Abu Keshek, levados para uma prisão israelita e atualmente em greve de fome.
Global Sumud Flotilla
Aliança da Esquerda Europeia exige libertação de Thiago e Saif
O cessar-fogo de Trump e a guerra dos EUA e Israel ao Irão e ao Líbano desviaram as atenções mediáticas do que se passa em Gaza. Esta flotilha tinha por objetivo voltar a concentrar essas atenções no bloqueio à entrada de ajuda humanitária, que se tem agravado desde o início de março. Achas que está a conseguir?
O cessar-fogo nunca foi cumprido. Àdevastação dos ataques militares adicionam-se quase três anos de fome imposta, colapso de infraestruturas, e privação ilegal de todas as formas de ajuda médica e humanitária. Da mesma forma, o que está a acontecer no Irão e no Líbano não é separado de Gaza, éum dos resultados da impunidade oferecida pelo resto do mundo a Israel, é consequência de não termos respondido ao genocídio da Palestina.
Tendo em conta a quantidade de distopias a que assistimos todos os dias, sabíamos que iria ser difícil contrariar o apagamento mediático - sistemático e financiado - da situação de Gaza. No entanto, a gravidade e injustificabilidade das ações perpetradas por Israel em águas internacionais acabou por reativar a indignação e a mobilização. Por todo o mundo volta-se a falar em Gaza, no genocídio, e nos crimes de guerra, apesar da exaustão coletiva. Por isso sim, está a conseguir. Só será suficiente quando o custo político por não agir for demasiado alto, mas esta entrevista éprova de que o mundo está novamente a ouvir.
Apesar da interceção de duas dezenas de embarcações, o resto da flotilha vai prosseguir a missão humanitária?
Os próximos passos ainda estão a ser discutidos e serão disponibilizados logo que possível. Em breve haverá assembleia conjunta para reavaliar e reorganizar, mas esta interceção só aumentou a determinação de quebrarmos o bloqueio ilegal.
A maioria dos ativistas saiu em liberdade, mas Thiago Ávila e Saif Abu Keshek foram levados para uma prisão israelita em Gaza e entraram em greve de fome. Saif anunciou agora que vai deixar de aceitar água. Vocês temem que as vidas deles estejam em risco?
Sim, as vidas deles estão em risco. A greve de fome e sede diz-nos que aquilo que lhes estão a fazer neste momento tem o mesmo nível de risco que uma das ações mais extremas que se pode fazer ao corpo humano. Nós vemos o que as forças israelitas fazem todos os dias na Palestina, e vimos com os nossos próprios olhos o que fazem em águas internacionais a civis em ação humanitária. Écrucial que todas as organizações internacionais se imponham e efetivem a libertação imediata do Thiago Ávila e do Saif Abu Keshek.
A interceção da flotilha pelos militares israelitas em águas internacionais foi condenada por vários governos, mas não pelo português. Que apoio éque os ativistas portugueses tiveram após o sequestro por parte dos serviços consulares?
Não tivemos nenhum apoio. Recebemos a visita de um representante da embaixada várias horas depois depois de quase todos os outros ativistas já terem coordenado esforços com representantes que os esperavam no aeroporto. Perguntou-nos o que precisávamos, e quando explicamos o que tinha acontecido, que tínhamos sido sequestrados e torturados em águas internacionais, que estávamos sem qualquer acesso a telemóvel, dinheiro ou alojamento, respondeu que éramos cidadãos livres e que a nossa família deveria comprar-nos o bilhete de avião.
Portugal continua em silêncio, como se não fosse nada connosco. - exceto quando disponibiliza a Base Aérea das Lajes para apoiar um regime genocida.
Podes descrever o que testemunhaste desde a interceção do barco onde estavas até à libertação?
Testemunhei o que acontece quando um regime genocida éapoiado pelo sistema imperialista. Militares das forças de ocupação israelitas entraram no nosso barco, com armas apontadas às nossas caras, destruíram o interior do barco, destruíram a ajuda humanitária que levávamos e roubaram-nos os passaportes. Fomos revistados múltiplas vezes ao longo de todo o processo, muitas vezes de forma violenta. Sob ameaças e violência psicológica levaram-nos para a embarcação militar, onde tinham construído uma prisão a céu aberto com três contentores para 181 pessoas (sabendo que contavam com mais de 300), sob o frio da noite no mar Mediterrâneo. Passamos vários períodos de várias horas em posições de stress físico sob constante manipulação, apesar de permanecermos não-violentos, apesar de incapacidades físicas individuais.
Durante as 40 horas mantiveram-nos em privação de sono, de comida e de condições básicas, tendo alagado o chão onde dormíamos quando pedimos cobertores. Várias pessoas sofreram hipotermia, sendo que a muitas delas tinham roubado sapatos, meias e casacos. Por fim, o momento de maior violência veio quando não aceitamos sair do espaço até que nos fosse dada a medicação necessária, e até que seis camaradas que foram retirados violentamente regressassem até nós. Por essa altura apenas sabíamos que tinham sido agredidos pelos sons que ouvimos, e exigimos prova de vida. Uma a uma, entre palavras de protesto e gritos, as pessoas foram arrastadas para fora do espaço, tendo recebido agressões que resultaram em fraturas, ombros deslocados, traumatismos cranioencefálicos, queimaduras, perdas de consciência e hemorragias.
Quando me arrastaram a mim, passei por cima de pessoas no chão sob botas militares, óculos partidos e poças de sangue. Num dos cantos, dois militares estavam a lavar o sangue da cara de alguém de joelhos. Enquanto nos mantinham de joelhos e cabeça no chão molhado, exaustos, doridos e sem saber para onde nos estavam a levar, sem saber onde estavam os nossos companheiros, sem conseguir ver nada nem ninguém, alguém começou a cantar bella ciao de boca fechada. Eu juntei-me, depois outra e outra pessoa. Com o barulho do barco, os militares não conseguiam perceber de onde vinha a música e nós sabíamos que não estávamos sozinhos.
Fomos transferidos para um barco da guarda costeira grega e esperamos em terra até esse mesmo barco fazer a última viagem para recolher quem faltava. O Thiago e o Saif não voltaram, e as embarcações desapareceram. O que passamos nunca poderá ser completamente descrito, e cada um tem a sua história individual a acrescentar. Da mesma forma, o que passamos não foi nada comparado com o que passam mais de 9.000 reféns palestinos, 400 deles crianças, todos os dias, há anos. Se ficamos ultrajados com o que nos fizeram a nós, temos que parar o mundo pelo que fazem aos palestinos.
Ao contrário da flotilha do ano passado, que foi intercetada a dezenas de milhas de Gaza, agora Israel foi atacar os barcos perto das ilhas gregas. Que mensagem é que isso transmite ao mundo?
Essa é precisamente a pergunta. O que é que estamos a dizer, enquanto União Europeia, enquanto Lei Internacional, quando um estado europeu participa diretamente no sequestro de 181 pessoas em águas internacionais, em missão humanitária, com intenção de expor crimes de guerra de um regime genocida? Três embarcações da guarda costeira estiveram presentes durante todo o processo. E após a nossa libertação da embarcação militar israelita, as autoridades gregas mantiveram-nos nove horas com atrasos administrativos falsos, sem alimentação ou informação, mantendo os nossos passaportes reféns, até termos escapado dos autocarros em que nos levavam e caminharmos os últimos quilómetros até ao aeroporto. Já não estamos a falar de cumplicidade, mas de apoio estratégico. E já não é possível continuar a fingir ignorância ou dúvidas sobre o que está a acontecer. A impunidade de Israel não tem precedentes. Como é que o mundo vai responder?
Como é que as pessoas podem mobilizar-se agora para exigir a libertação de Thiago e Saif?
Inundar as ruas, inundar emails e telefones, incomodar, perturbar, mobilizar, seja coletiva ou individualmente, não aceitar o que está a acontecer, não ser conivente com o silêncio europeu, exigir sanções, exigir cortes de ligações diplomáticas, parar de tratar isto como um problema dos outros e ter coragem para agir. O que acontecer ao Thiago e ao Saif, o que acontecer à Palestina, será da responsabilidade de todos nós.