Numa publicação na sua conta de Facebook, a equipa que produz o Spam Cartoon para a RTP respondeu às intimidações de que sido alvo nas redes sociais. Em causa está o cartoon "Carreira de Tiro", de Cristina Sampaio, em que um agente policial numa carreira de tiro atira cada vez mais furiosamente. No final verifica-se que os alvos têm tantos mais tiros acertados quanto mais escura é a silhueta.
O cartoon foi emitido após o assassinato policial nos arredores de Paris, justificado pelos agentes em causa com o perigo de vida, uma versão dos factos que seria desmentida graças à filmagem em vídeo da operação stop que realizavam. O caso incendiou literalmente as ruas francesas durante vários dias. Mas em Portugal, o cartoon foi visto como tendo por alvo a PSP e não tardou o aproveitamento político por parte da extrema-direita.
O Sindicato Nacional da Carreira de Chefes (SNCC) da PSP anunciou a apresentação de uma queixa-crime contra a RTP e os autores do cartoon. Em seguida, o Chega propôs a ida da administração da RTP e da ERC ao Parlamento e o PSD questionou a administração da RTP sobre o cartoon, alegando que ele “atenta de forma evidente e infeliz contra a imagem e o bom nome, não só das instituições policiais em geral, mas também dos profissionais a que elas pertencem”.
Em comunicado, a equipa do Spam Cartoon respondeu aos ataques, afirmando que “o cartoon que o deputado André Ventura partilhou hoje nas suas redes sociais, convidando os seus seguidores a intimidar-nos, insere-se num espaço de opinião na RTP que comenta actualidade nacional e internacional. Neste caso o mote foram os recentes acontecimentos em França, com a morte injustificada de um jovem às mãos da polícia francesa. Quer formal quer concetualmente este cartoon nada tem a ver com a PSP nem com as forças de segurança portuguesas, como o atestam a ausência de símbolos e uniformes correspondentes e o contexto em que foi emitido pela primeira vez”, afirmam.
“Às entidades que nos escreveram a ameaçar e intimidar, obrigado por nos seguirem. Certamente que se se familiarizarem com o nosso trabalho, encontrarão pontos em que concordamos, e outros em que discordamos. A diferença entre nós é que se discordarmos de vocês não vos ameaçamos, fazemos um desenho”, conclui com ironia o Spam Cartoon.
Três anos depois do cartoon no Inimigo Público, PSP volta a apresentar queixa-crime
Depois das explicações da equipa do Spam Cartoon, também a própria PSP apresentou queixa ao Ministério Público, à Entidade Reguladora para a Comunicação Social e à Comissão da Carteira Profissional de Jornalista, por entender que há elementos “com relevância criminal”. Esta não é a primeira vez que a instituição reage contra cartunistas com queixas crime. Em 2020, o alvo foi Nuno Saraiva e o cartoon era um grupo de personagens com máscaras e tochas, um deles com a farda policial, numa referência à ação protagonizada por um grupo da extrema-direita junto à sede do SOS Racismo, ao estilo do Ku Klux Klan norte-americano.
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— Inimigo Público (@inimigo) August 14, 2020
Nas redes sociais, o premiado cartunista André Carrilho, que também integra a equipa do Spam Cartoon, afirma que “há ataques concertados a cartunistas e ao cartoon pelo mundo inteiro, alimentados por mecânicas das redes sociais, critérios automáticos de avaliação de algoritmos e o uso da vitimização como arma de arremesso político”. E diz que “são tácticas muito usadas pela extrema direita, pelo centro direita que precisa da extrema direita para chegar ao poder, e também por facções da esquerda, dependendo do caso”, dando o exemplo do cartunista Chappatte, cujo cartoon publicado em abril na revista alemã Der Spiegel, a propósito da ultrapassagem da Índia à China em número de habitantes, mostra um comboio sobrelotado indiano a ultrapassar um comboio de alta velocidade chinês. Vários ministros indianos pronunciaram-se contra o desenho, acusando-o de racista.
Notícia atualizada às 15h30 com referência à queixa-crime da PSP e à iniciativa semelhante sque tomou em 2020 contra o cartoon no Inimigo Público.