A capa do suplemento satírico do Público, “Inimigo Público”, publicada na passada sexta-feira, levou a Polícia de Segurança Pública apresentar uma queixa contra o jornal ao Ministério Público nesse mesmo dia.
Na ilustração de Nuno Saraiva, vê-se um grupo de manifestantes com tochas e máscaras, aparentemente da cara do deputado da extrema-direita. A presença das tochas pode ser interpretada como uma referência à ação de intimidação que um grupo de extrema-direita fez recentemente à porta do SOS Racismo. Uma das personagens surge fardada como polícia. Mas aquela que ficou conhecida como a “parada Ku Klux Klan” nem sequer é o tema da “notícia” de capa do jornal. O título que domina a capa do Inimigo Público é "André Ventura contra pena de morte porque depois de mortos é impossível haver castração".
A direção da PSP não terá encarado com humor esta publicação. Em comunicado, “lamenta a leviandade com que o jornal e o cartoon em questão feriram a boa imagem da instituição e dos polícias que nela servem e protegem os nossos concidadãos”, considera que “os factos referidos ofendem a credibilidade, o prestígio e a confiança devidos à instituição, consubstanciando a prática de crime” e critica a publicação por associar a polícia “a um qualquer movimento politico-ideológico”, o que afetaria “a isenção e apartidarismo que caracterizam a instituição, resultantes não só de obrigação estatutária e da condição policial, mas também da convicção dos polícias que a integram”.
O criador da ilustração, Nuno Saraiva, defende-se com a ideia de liberdade de expressão. Diz é “absolutamente exagerado” fazer uma queixa-crime sobre uma ilustração deste tipo em declara não estar preocupado consigo mas com “o caminho que o país está a trilhar”, com a “reviravolta para mais de 40 anos” e com o “silêncio institucional”.
Segundo as suas declarações à Lusa, “criminoso é acharem que isto é um crime, que um criativo, um jornalista, um ‘opinion maker’, um cartoonista não pode ter direito à sua liberdade de expressão”. Na ocasião, recusou explicar o que desenhou porque “um cartoon vale por si. Os desenhos ilustrados têm a faculdade de ter várias interpretações”.
Também o diretor do Inimigo Público, Luís Pedro Nunes, em declarações à Renascença reagiu dizendo-se “estupefacto” pela reação e incomodado por ter de explicar o sentido da imagem. Explica que a ilustração não é contra a polícia e que pretende ser sobre as pessoas que estão ligadas a manifestação racistas e que “se escondem atrás da máscara” de André Ventura”.
Para ele, a “imagética” conta “uma história da sociedade portuguesa”. E detalha a explicação que Nuno Saraiva não quisera fazer: há “um que parece um apresentador de televisão das manhãs, e que vai à frente, outro parece um adepto de futebol, e há um que está fardado” [de PSP] “porque temos tido notícias de alguns membros da Polícia, que estiveram ligados a manifestações racistas”. Diz assim que por estar lá um adepto de futebol “não chamo todos os adeptos de futebol”.
Luís Pedro Nunes pensa por isso que é absurdo que “numa semana tão intensa de acontecimentos relacionados com a sociedade portuguesa e graves, verdadeiramente graves, a direção nacional da PSP pense que numa sexta-feira à tarde o assunto mais importante que tinha em mãos era um cartoon do Inimigo Público”, realçando que, desde 2004, a publicação nunca tinha sido processada.
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— Inimigo Público (@inimigo) August 14, 2020
Por sua vez, a Associação Sindical de Profissionais da Polícia reage de maneira diferente da direção da instituição. O seu presidente, Paulo Rodrigues, diz que “não temos de ficar chateados” porque os cartoons são mesmo assim mas não deixa de realçar que a imagem “magoa” os polícias e que é “injusta” porque toma a parte pelo todo.