Se acordo na saúde "for para salvar o Grupo Mello, não pode ter o Bloco

29 de abril 2019 - 14:11

No mercado do Fundão, Marisa Matias considerou a subida da extrema-direita em Espanha um aviso para Portugal. Catarina Martins sublinhou a importância da ferrovia no interior. Sobre a Lei de Bases da Saúde, considerou um acordo necessário para salvar o SNS, mas não os privados.

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Campanha no mercado do Fundão, 29 de abril de 2019. Foto de Paula Nunes.
Foto de Paula Nunes.

Numa arruada no mercado do Fundão, Marisa Matias e Catarina Martins comentaram os resultados eleitorais em Espanha, as políticas para o interior e o diferendo em torno do papel dos privados na saúde.

Sobre as eleições em Espanha, Marisa Matias considerou uma boa notícia a direita não ter atingido uma maioria. No entanto, a chegada da extrema-direita ao Parlamento do país vizinho constitui mais um "aviso sobre as ameaças à democracia", pois apesar de muitos dos eleitos do Vox virem do Partido Popular espanhol, "agora assumem um passado claramente alinhado com a ditadura". A subida da extrema-direita é um fenómeno que atravessa a Europa, mas Marisa manifestou esperança de que "em Portugal tenhamos a capacidade para não deixar que estas forças ganhem espaço".

Em relação a políticas para o interior, a candidata do Bloco a Bruxelas lembrou que se tem batido por um "território mais igualitário que aquele que existe" na definição dos orçamentos europeus e na distribuição dos fundos. Marisa identificou uma "injustiça tremenda" na distribuição dos fundos de coesão e estruturais, "não só a partir de Bruxelas, mas também a partir de Lisboa", pois a maior parte dos fundos que o país recebe "continuam a ser destinados à Grande Lisboa e ao Grande Porto". Apesar de todo o país necessitar de investimento, "necessitamos de um país mais igual", pois "o país conta todo, não pode contar só numa parte", concluiu.

Também sobre questões de território e do interior, Catarina Martins lembrou que o Bloco apresentou há poucas semanas o seu Plano Ferroviário Nacional, que contempla "possibilidades reais de ligação ferroviária em todo o país, que abrangem também a Beira". Tendo os planos de investimento para a ferrovia debate marcado no Parlamento no início de maio, Catarina sublinhou a importância de decidir se "queremos que o investimento seja para fazer a ligação dos portos a Espanha, e o interior seja um corredor onde não para nada", ou se pelo contrário o interior também deve ter "redes secundárias, que servem tanto o transporte de pessoas como de mercadorias". Lançou ainda um desafio a todos os partidos para discutir "de forma real, não só com intenções mas também com o Orçamento de Estado, com responsabilidade de investimento, as questões do território".

Questionada sobre perspetivas para as eleições europeias, a porta-voz do Bloco lembrou que há apenas um círculo nacional pelo que, embora em todas as eleições o "voto útil seja o voto da convicção", nas eleições europeias "todos os votos contam igual, sejam aqui no Fundão, sejam em Lisboa ou no Porto". Sobre a associação que muitos estabelecem entre resultados das eleições europeias e das legislativas marcadas para outubro, repetiu que, mais do que proclamações de intenções, o peso de cada partido é que determina o que será o governo e que decisões ele toma: "quando as pessoas escolheram em 2015 dar mais força ao Bloco", escolheram "a subida do salário mínimo, impedir a privatização das águas, descongelar as pensões". Por isso, "essa força começa a construir-se já a 26 de maio", pois "quem não votar em maio vai chegar atrasado a outubro".

Em relação à Lei de Bases da Saúde e às manobras da semana passada para impedir o fim das PPPs, Catarina Martins reafirmou que o Bloco provou ao longo dos últimos quatro anos que "cumpre absolutamente tudo o que é acordado: não fazemos ziguezagues" e "somos consequentes com aquilo que dizemos", sem "recuos nem arrependimentos". Apesar do recuo recente do PS em relação ao SNS, Catarina enfatizou que as votações na especialidade ainda não começaram e que "este é o momento de tomar decisões". Na sua opinião, o PS tem escolher um lado: "ou escolhe o SNS, ou escolhe o grupo Mello e os hospitais privados".

Catarina refutou como uma falsa questão críticas recentes de que não se pode abdicar de parceiros privados e do setor social na saúde: "nunca dissemos o contrário: onde o SNS não responde, tem de haver contratualização com os privados", como no caso da hemodiálise e dos cuidados continuados. Mas "o que não faz sentido é entregarmos hospitais públicos aos privados", tirando dinheiro ao SNS "para o entregar aos grandes grupos económicos".

"Quem vive no interior sabe como a política das PPPs tem feito uma sangria de recursos no SNS", acrescentou Catarina, questionando: "Quantos concursos para médicos no interior ficam vazios?". No seu diagnóstico, é "aqui no interior que os concursos ficam vazios, porque andamos a entregar tudo aos gigantes dos negócios privados". Questionada sobre se temia ser excluída de um acordo, Catarina Martins respondeu que "o que queremos é um acordo que salve o SNS"; se "for um acordo para salvar o Grupo Mello, pois não pode ter o Bloco de Esquerda", ironizou.