Sexta-feira, 13 de junho. Mal tendo chegado ao Mali, mercenários da nova estrutura militar russa, o Africa Corps, que substituiu a Wagner, a milícia do falecido Yevgeny Prigozhin, foram emboscados entre Anefis e Aguelhoc, na região de Kidal. O balanço é pesado. Foram reportadas várias dezenas de mortes [1]. A operação foi reivindicada pela Frente de Libertação de Azawad (FLA), composta maioritariamente por separatistas tuaregues.
Esta armadilha mina a narrativa que apresenta os mercenários russos, quer da Wagner, quer do Africa Corps, que pertencem frequentemente sucessivamente às duas entidades, como soldados formidáveis que deveriam fazer a diferença na arena militar. Põe ainda em perspetiva o único sucesso que a Wagner pode reivindicar, nomeadamente a recuperação de Kidal, um bastião dos movimentos separatistas tuaregues, apresentado pelas autoridades malianas como a reconquista da soberania nacional, que se revela, no mínimo, precária.
A substituição da Wagner pelo Africa Corps não irá modificar fundamentalmente a relação entre as autoridades malianas e os auxiliares russos. A maioria dos combatentes da Wagner foi integrada no Africa Corps. O que poderá mudar é um maior controlo das autoridades russas sobre a política maliana, porque a nova entidade depende do Ministério da Defesa, o que não era o caso da Wagner. Outras mudanças poderão surgir, particularmente no aspeto económico. O governo maliano pagava 10 milhões de dólares mensais à agência mercenária [2]. Com o Africa Corps, assistimos a uma formalização da intervenção russa, considerada mais como uma relação de Estado para Estado, abrindo possivelmente caminho para uma isenção deste pagamento para o governo maliano. Essencialmente, nada deverá mudar, incluindo na frente militar, tanto no Mali como para os outros dois países, Níger e Burkina Faso, que formam a Aliança dos Estados do Sahel (AES), que também enfrentam ataques de jihadistas.
A degradação da situação humanitária
Desde que as juntas militares dos países do Sahel tomaram o poder, os jihadistas do JNIM (Jamāʿat nuṣrat al-islām wal-muslimīn, Grupo de Apoio ao Islão e aos Muçulmanos), afiliados da Al-Qaeda, e as tropas do Estado Islâmico do Grande Saara (ISGS), não param de avançar. Das 135 entidades administrativas destes três países do Sahel, a maioria dos especialistas considera que dois terços estão sob o controlo mais ou menos flexível dos grupos islâmicos. Esta progressão é acompanhada por um aumento significativo do número de mortes, tendo sido registadas quase 11.200 até ao final de Junho de 2024. Isto representa um aumento de três vezes em relação a 2021. Também neste caso, este desenvolvimento deve ser olhado com cautela, uma vez que o controlo das juntas sobre a informação, juntamente com a repressão dos jornalistas, sugere que esta tendência continua a ser subestimada.
Na vertente humanitária, a situação também se agravou, com quase cinco milhões e meio de pessoas deslocadas. Na maioria das zonas onde a guerra entre islamitas e forças armadas se alastra, as escolas e os centros de saúde estão encerrados, deixando a população sem educação e assistência médica. Por exemplo, no Burkina Faso, 20% das unidades de saúde e aproximadamente 5.300 estruturas educativas estão abandonadas. Como resultado, 40% das crianças não têm acesso à escola.
A insegurança alimentar é considerada um risco maior. No Mali, 12% da população está subnutrida; no Níger, metade das crianças sofre de deficiências nutricionais moderadas ou graves; e no Burkina Faso, mais de 2,3 milhões de pessoas sofrem de fome.
O avanço jihadista
Os grupos islamitas estão a ganhar terreno aproveitando o enfraquecimento dos exércitos nacionais devido à negligência e corrupção da maioria dos oficiais superiores. Desviam salários e utilizam parte do financiamento substancial que os países destinam à sua defesa para construir vivendas ou comprar empresas. A isto se junta o tráfico de armas, por vezes vendidas aos grupos armados.
Os especialistas da Conflict Armament Research estimam que a maioria das armas e munições dos atacantes provém dos exércitos nacionais, grande parte das quais é recuperada após ataques a comboios ou quartéis militares. [3]
Além disso, os jihadistas têm investido fortemente na tecnologia, especialmente nas comunicações, graças às redes Starlink, que permitem o fluxo de informação entre os combatentes, dando-lhes uma vantagem decisiva durante as batalhas. Este reforço das capacidades operacionais é acompanhado, com a rede de satélites de Musk, por uma presença nas principais redes sociais, onde pequenos vídeos destacam os sucessos das suas operações militares, contrariando as comunicações oficiais das autoridades. [4] Mais ainda, a vantagem que as forças armadas dos países sahelianos tinham no ar tende a desaparecer com a utilização de drones por grupos armados. Utilizam-nos para recolha de inteligência, para bombardeamentos, mas também para conduzir batalhas. A primeira utilização de drones ocorreu no Mali em abril de 2024, onde os combatentes utilizaram um quadricóptero, equipado com granadas e morteiros para atacar uma milícia Dozo aliada ao exército nacional. No Burkina Faso, o ataque ao acampamento militar de Diapaga, que provocou a morte a cerca de cinquenta pessoas e levou à captura de um grande arsenal, incluindo carros blindados, foi liderado com a ajuda de drones. Isto permitiu aos líderes insurgentes ter uma visão abrangente do campo de batalha. É provável que a utilização de drones por grupos armados se intensifique, aumentando a sua força de ataque.
Neste contexto, os exércitos nacionais são incapazes de manter territórios; os quartéis tornam-se alvos, e cada ataque aumenta o número de soldados mortos ou capturados, provocando desmoralização entre as tropas. O exemplo do campo de Boulikessi, considerado altamente estratégico pelo seu controlo das estradas no centro do Mali, é bastante revelador. Atacado duas vezes num mês, o exército maliano não teve outra opção senão abandonar este local sob o eufemismo de uma retirada estratégica.
As juntas no poder
Tanto a nível social como de segurança, a situação é extremamente preocupante e continua a deteriorar-se. Foi para pôr fim ao défice de segurança que os militares dos três países tinham decidido derrubar o regime civil, como se o exército não tivesse qualquer responsabilidade nesta situação. A tomada do poder pelos militares ocorreu num contexto de forte combatividade popular, embora diferenciada nos três países. No Mali, mobilizações significativas, lideradas nomeadamente pelo Movimento 5 de Junho – Reunião das Forças Patrióticas (M5-RFP), ocorreram contra o governo do Presidente Ibrahim Boubacar Keïta, que não só acumulou fracassos económicos e militares, como também foi manchado por vários escândalos de corrupção. Particularmente em destaque estão as extravagâncias “bling bling” do filho do presidente, Karim. Nas redes sociais, é visto a tirar selfies num iate de luxo onde o champanhe flui livremente, dançando com jovens. Os militares sequestraram a mobilização popular usurpando o poder com a cumplicidade de uma minoria do M5-RFP liderada por Choguel Maïga, que viria a ser primeiro-ministro sem qualquer poder real.
Em 2014, no Burquina Faso, uma revolução derrubou a ditadura de Blaise Compaoré, levando a eleições cujos dois principais candidatos eram liberais próximos da França. O balanço do governo de Roch Marc Christian Kaboré, tal como o seu correligionário civil maliano, foi incapaz de endireitar minimamente o rumo do país. O ataque ao quartel da polícia de Inata provocou a indignação da população, pois, apesar de vários apelos, esses polícias permaneceram isolados, reduzidos a caçar para se alimentar. Durante o ataque conduzido pelos jihadistas, cerca de 60 militares morreram. Embora a responsabilidade por este acontecimento seja amplamente partilhada entre o governo Kaboré e o exército, isso não impedirá os militares de tomarem o poder através de um primeiro golpe de Estado liderado pelo tenente-coronel Paul-Henri Sandaogo Damiba, seguido de um segundo. O exército burquinês tinha o campo totalmente livre, ao contrário do Mali, com a ausência de qualquer oposição política. A vontade do movimento Balai Citoyen, bem implantado entre os jovens, de se limitar apenas a um papel de vigilante da cena política, eliminou a possibilidade de aparecer como uma alternativa aos políticos cuja lealdade à França era evidente. Outro caminho poderia ter sido seguido, à semelhança dos Comités de Resistência no Sudão. Estes surgiram inicialmente como um movimento civil de ajuda e solidariedade, depois como um instrumento de mobilização e, finalmente, pouco antes da guerra dos generais, foram capazes de propor uma “carta revolucionária do poder popular”, apresentada como uma alternativa aos militares, mas também aos partidos políticos integrados no sistema.
O Níger apresenta uma diferença notável. O presidente Mohamed Bazoum foi eleito num processo eleitoral globalmente satisfatório. Tinha começado a seguir uma via interessante para tentar pôr fim à guerra travada pelos jihadistas, tentando simultaneamente uma resposta militar e uma política de abertura para negociações de paz. No entanto, ele apareceu como o homem dos franceses ao aceitar hospedar no seu país as tropas francesas que tinham sido anteriormente expulsas do Mali e depois do Burkina. Além disso, antes de concorrer à presidência, Bazoum era ministro do Interior e da Segurança e havia deixado péssimas lembranças aos ativistas do país. [5] Um incidente que passou relativamente despercebido, mas que reflete as tensões e as mobilizações contra o imperialismo da França, é a manifestação em Téra, na região de Tillabéri, contra o comboio da operação Barkhane, cuja repressão causou duas mortes, certamente provocadas pelos tiros dos soldados franceses.
Como podemos constatar, a ascensão dos militares ao poder nos países da AES continua a ser consequência de mobilizações populares contra governos civis corruptos. Foi também alimentada pela incompreensão da população quanto à tangível falta de resultados contra os jihadistas por parte do exército francês, que se orgulhava de conhecer o terreno e era incapaz de conter os ataques inimigos. Para muitos jovens, esta incompreensão transformou-se numa dúvida, e depois numa convicção, da cumplicidade da França com os grupos armados. Uma opinião que se tornou moda nas redes sociais. Deve o seu sucesso também à política do exército francês de forjar uma aliança, ainda que informal, mas real, com os separatistas tuaregues, agrupados na altura no Movimento Nacional para a Libertação de Azawad (MNLA). O trabalho conjunto entre o MNLA e o exército francês contra os jihadistas foi visto como um ataque à soberania nacional, pois implicava assumir a região de Kidal como um santuário para os tuaregues pró-independência.
No plano económico, a junta maliense travou um braço de ferro com as empresas mineiras ocidentais por uma distribuição mais justa dos lucros. Embora este objetivo tenha conduzido a medidas coercivas contra os gestores das subsidiárias multinacionais, tal não constituiu, por si só, uma rutura com a ordem económica. Muitos governos africanos reviram as suas leis mineiras e alteraram-nas para conseguir uma melhor distribuição da riqueza. No passado, os governos completamente reacionários, totalmente alinhados com os governos ocidentais, tomaram por vezes medidas muito mais radicais. É o caso, por exemplo, da política de zairianização no Congo, que incluiu uma componente económica lançada por Mobutu. Esta levou à mudança da moeda e à nacionalização de terras e propriedades comerciais pertencentes a estrangeiros. Esta campanha foi levada a cabo com o claro desejo de romper com tudo o que pudesse representar o Ocidente no país; assim, os primeiros nomes, os nomes das cidades e das ruas foram alterados, incluindo o do país. O Congo tornar-se-ia a República do Zaire. Esta política violenta e burocrática imposta a partir de cima foi um meio de fortalecer uma política clientelista para a sustentabilidade do poder. É o que acontece com as juntas da AES, que lucram enormemente com as receitas da segurança, com a explosão dos orçamentos da defesa [6]. Os métodos de corrupção continuam a ser clássicos: contratos opacos sem concurso, atribuição de contratos públicos a familiares ou colaboradores próximos da junta e repressão contra jornalistas e ONG para impedir a circulação de informação sobre estes desvios. No entanto, é difícil esconder as luxuosas villas recentemente construídas pelos membros das juntas. [7]
Quanto às narrativas soberanistas amplamente utilizadas pelos golpistas, dificilmente convencem. Recordemos que os caciques da Françafrique também não hesitam em utilizar o vocabulário anticolonialista ou das organizações “pan-africanas” para difamar as ONG que denunciam a corrupção destes sátrapas. Assim, a “ONG” Dignité et consciousness africaine organizou uma conferência de imprensa para “enfrentar os ataques das ONG ocidentais contra os líderes africanos” com a pergunta “Como podemos aceitar que chefes de Estado de países independentes sejam alvo de tais intrusões nos assuntos internos dos seus respectivos países?” [8]
Os dirigentes malianos compreenderam claramente que a questão da retoma de Kidal poderia fortalecer a sua popularidade e dar algum crédito às suas declarações soberanistas, mesmo que, a médio prazo, esta política se tenha revelado catastrófica, como veremos mais tarde. Certamente que as declarações contra a política francesa são sempre recebidas com entusiasmo, seja a do primeiro-ministro Choguel Maïga nas Nações Unidas, declarando que a França tinha abandonado o Mali em pleno voo, seja a do líder burquinense Ibrahim Traoré, criticando as políticas neocolonialistas do Ocidente, sob o olhar benevolente do seu anfitrião Putin, reproduzindo assim uma cópia pálida e adulterada de Thomas Sankara. Ainda para mais o comportamento das autoridades francesas só alimenta esta retórica. Com Barkhane, a hierarquia militar francesa dirige as operações e ignora as opiniões dos países sahelianos envolvidos. Os soldados franceses trabalharam em colaboração com milícias culpadas de crimes de guerra, como a GATIA, o Grupo de Autodefesa Tuaregue Imghad e aliados [9]. As forças francesas foram responsáveis pelo bombardeamento de civis, particularmente em Bounti, matando 19 pessoas, enquanto se recusavam sistematicamente a estabelecer uma comissão de inquérito independente. As autoridades francesas queriam intervir militarmente para restaurar Bazoum após o golpe de Estado. Sem mencionar, claro, a contínua arrogância do Presidente Macron, que incomoda tanto os africanos como os franceses.
As juntas contra a população
A questão central para as três juntas poderia resumir-se em como se manter no poder com um historial muito distante das promessas feitas para justificar o seu golpe. Durante muitos meses, as discussões sobre a soberania e a segunda independência dos países da AES foram bem recebidas. Este apoio tende agora a ruir face aos ataques quase diários de grupos armados, resultando em mortes, prisioneiros, testemunhos de soldados atacados que não recebem ajuda apesar dos seus apelos desesperados e aldeias cercadas e abandonadas à sua triste sorte pelas autoridades. As políticas adotadas pelas juntas continuam, antes de mais, a limitar a informação em favor de uma propaganda baseada, como diria Trump, na verdade alternativa. Assim, as estações de rádio e de televisão independentes são encerradas, os jornais são ameaçados e os jornalistas são amordaçados. As vozes dissidentes também devem ser abafadas; mesmo apoiantes de primeira hora dos golpes que são críticos são presos no Mali ou enviados para a frente de combate no Burkina Faso. No Níger, ativistas anti-imperialistas como Moussa Tchangari estão presos por ordem do presidente Abdourahamane Tiani, antigo chefe da guarda presidencial. Afirma agora ser o arauto da soberania do país, mas, durante a sua longa carreira, não se destacou particularmente na luta contra o neocolonialismo francês. No Burkina Faso, sindicalistas como Moussa Diallo, secretário-geral da CGT-B, são obrigados a entrar na clandestinidade. No Mali, os partidos políticos estão agora proibidos e ativistas como Oumar Mariko, líder do partido da esquerda radical Solidariedade Africana para a Democracia e a Independência (SADI), são forçados ao exílio. Ao mesmo tempo, estruturas ad hoc criadas e sujeitas às juntas estão a apoiar presidentes, como Asimi Goita, que passou diretamente de coronel a general de cinco estrelas, e que poderá continuar a ser presidente do Mali enquanto o país enfrentar riscos terroristas.
A sua gestão da guerra agravou significativamente a situação. No Mali, a junta denunciou unilateralmente os Acordos de Argel, assinados por uma série de grupos armados, a maioria deles independentistas. De seguida, considerou-os terroristas e lançou a operação para recapturar Kidal. A junta maliense não só alienou a Argélia, a principal força regional, acusando-a de desestabilizar o Mali, como abriu uma nova frente interna com o risco, que tende a materializar-se, de uma aliança entre o JNIM e a FLA. No Burkina Faso, a corrida precipitada está em curso com a criação dos Voluntários para a Defesa da Pátria (VDP). Estes civis recrutados recebem uma ou duas semanas do treino militar mais básico. Devem fornecer assistência de inteligência ao exército. Espalhados pelas aldeias, rapidamente se tornam alvos para os jihadistas. A maioria dos VDPs é da etnia Koglweogo, que no terreno atuava como polícias e juízes. Têm sido frequentemente acusados por organizações de defesa dos direitos humanos por atos de tortura contra pessoas suspeitas de serem bandidas. Atualmente, os VDP são acusados de massacres contra a comunidade Fulani, suspeita de apoiar o JNIM. As forças armadas nigerinas, em menor escala, também dependem das milícias comunitárias, nomeadamente a Zankaï, da comunidade Zarma, que tem como alvo os Fulani acusados de apoiar o Estado Islâmico, particularmente na região de Tillabéri.
Os exércitos da AES, acompanhados pelos seus mercenários russos ou comunitários, mataram mais civis do que jihadistas. As últimas revelações do jornal Le Monde e do semanário Jeune Afrique sobre a tortura de mercenários do Wagner, todas acompanhadas de insultos racistas, são uma ilustração assustadora do que as populações destes três países podem sofrer. O isolamento e as violações em larga escala dos direitos humanos apenas fortalecem as posições dos grupos armados islâmicos ou pró-independência.
A ironia é que a estratégia de fuga em frente militarista adotada pelas forças armadas nacionais é a mesma seguida pelos militares franceses, com o mesmo resultado: um fracasso retumbante, explicado pela natureza da crise no Sahel.
A estratégia dos jihadistas
No Sahel, as razões para o empenhamento nos combates jihadistas são múltiplas. Frequentemente, estão ligadas ao desejo de se proteger a si, à sua família ou à sua comunidade. Pode também envolver vingança contra abusos cometidos por autoridades ou milícias que alegam pertencer a outra comunidade. A questão económica, ou seja, a possibilidade de emprego remunerado, é também referida por prisioneiros jihadistas ou jihadistas arrependidos entrevistados por académicos. Uma observação emerge: muito poucos enfatizam a religião.
Claro, existem debates sobre a importância da religião nesta radicalização. Parece irrealista ignorar completamente este fator. Até porque a maioria dos líderes tem uma abordagem diferente, mais religiosa, que transmite diariamente aos seus combatentes. Isto fornece uma estrutura para a ação, mas também uma justificação para a guerra travada, com o sofrimento e a morte que a acompanham.
A força dos grupos jihadistas reside na sua integração nas comunidades de diversas formas e no seu envolvimento em conflitos muito locais. Por outras palavras, as lutas políticas e, por vezes, armadas, antecedem frequentemente o aparecimento dos grupos jihadistas. Se tomarmos o caso das rebeliões tuaregues, elas remontam ao início da independência do Mali. O Níger também sofreu revoltas armadas destas comunidades. Neste sentido, o percurso de Iyad Ag Ghali, líder do JNIM, é bastante edificante e característico da história da luta tuaregue nas regiões do Mali. No final da década de 1980, fundou o Movimento Popular para a Libertação de Azawad (MPLA), que nada tem de religioso e defende as reivindicações dos tuaregues. Foi apenas no início dos anos 2000 que a questão religiosa se tornou central.
No centro do Mali, a Macina Katiba do pregador Amadou Koufa foi construída com base na defesa das populações mais pobres. Denuncia os abusos e a obrigação de pagar pelo acesso a pastagens, e critica os grandes proprietários de rebanhos e os clérigos corruptos. Esta mesma retórica encontra-se no grupo Ansarul Islam, no Burkina Faso, que se juntou ao JNIM. O seu líder, Ibrahim Malam Dicko, defende a igualdade entre as classes sociais, defende as pessoas de origem servil e critica os chefes tradicionais. Estes discursos ressoam fortemente entre os muitos jovens descontentes e sem futuro.
Os jihadistas, pelo menos, garantem justiça para a população, que lhes parece justa e rápida. Esta dimensão é frequentemente subestimada, mas importante, até mesmo vital, quando se trata de resolver questões de terra ou gado.
Esta luta armada é impulsionada por profundas desigualdades sociais, pela violência das Forças Armadas e pela falta de justiça. Não é excessivamente determinada por questões religiosas, embora a população, em geral, tenha um forte apego ao Islão. Vencer esta guerra implica profundas reformas sociais.
Surpreendentemente, o exército francês teve em conta esta dimensão e tentou abordá-la lançando os projetos “Aliança do Sahel” e, de seguida, “Coligação para o Sahel”, procurando a participação da União Europeia e das instituições financeiras internacionais. Este esforço foi em vão, pois contrariava a trajetória declarada da intervenção, ou seja a erradicação do terrorismo e não a implementação de uma política de desenvolvimento e melhoria da governação. Tal política teria entrado em conflito com as elites estabelecidas e, em última análise, dado credibilidade às críticas dos combatentes islâmicos à corrupção e à ineficiência das autoridades.
Os biliões gastos, e que continuam a sê-lo, são desperdiçados e poderiam ter sido investidos em programas que realmente melhoram a vida das populações.
Que futuro?
Independentemente das especificidades de cada país na AES, certos elementos comuns podem ser destacados como suscetíveis de desempenhar um papel no futuro.
Em primeiro lugar, há anos que existe o desejo entre a população de abrir um diálogo com os jihadistas e, de um modo mais geral, com os grupos armados para avançar para a paz. Se tomarmos o caso do Mali, esta reivindicação foi reiterada várias vezes. Em 2017, durante a Conferência Nacional de Entendimento, a sociedade civil lançou apelos ao debate. Em 2019, novamente durante o diálogo nacional inclusivo, um bom número dos 3.000 delegados manifestou-se a favor da abertura de conversações com Amadou Koufa e Iyad Ag Ghali para estabelecer a paz. No Níger, as negociações foram iniciadas em 2022 pelo governo de Bazoum antes de ser derrubado. No Burkina Faso, sob o presidente Kaboré e depois durante o primeiro golpe de Estado liderado pelo tenente-coronel Paul-Henri Sandaogo Damiba, o desejo de negociações de paz esbarrou com a intransigência das autoridades francesas, que traçaram uma linha vermelha recusando-se a discutir, e assim a negociar, com aquilo a que chamavam terroristas. Esta regra foi sistematicamente desrespeitada quando se tratou de negociar a libertação de reféns ocidentais.
Esta procura de diálogo poder ser encontrada no mais profundo dos três países. As aldeias e as cidades negoceiam com os jihadistas para pôr fim ao bloqueio ou aos ataques, e estas discussões são frequentemente lideradas por notáveis e figuras religiosas. Estes acordos entre residentes e grupos armados são vistos como um apoio aos jihadistas e levam ao massacre de numerosos civis pelos militares.
A junta no Burkina Faso considera os apoiantes do diálogo traidores. [10] Traoré declarou recentemente: “Os burquinenses não negociarão com o seu inimigo. Lutaremos e venceremos. Não abdicaremos de nada, de absolutamente nada.” [11]
Em segundo lugar, a situação internacional tem repercussões nos grupos armados, ou pelo menos em alguns deles. A evolução do grupo Hayat Tahrir al-Sham, liderado por Ahmed al-Sharaa na Síria, poderá ser um caminho seguido pelo JNIM. Nomeadamente, a desfiliação da Al-Qaeda e reivindicações religiosas menores que permitiriam alianças com outros grupos, como os separatistas de Azawad. Existem já discussões entre estas duas forças, com dois pontos de divergência: a questão religiosa e a questão da independência. Se cada entidade, não se ousa dizer “diluir o seu vinho”, então poderia ser formada uma aliança. Se ocorreram escaramuças entre a FLA e o JNIM no momento do fim do acordo de paz, rapidamente se encontrou um modus vivendi, abrindo caminho a uma cooperação militar ocasional contra as forças armadas malinesas e os mercenários de Wagner. Foi o caso em Tin-Zouatin, perto da fronteira com a Argélia, onde foram mortos 82 russos.
Em terceiro lugar, o crescente isolamento das juntas no exterior. O Níger recusa-se a cooperar com o seu vizinho Benim, facilitando o aumento do número de ataques jihadistas naquele país. O Burkina Faso mantém relações terríveis com a Costa do Marfim, acusando-a de querer desestabilizar o país sem qualquer prova formal que sustente esta acusação. O Mali desentendeu-se com a Argélia, que desempenhou um papel decisivo nos acordos de paz desde então denunciados pela junta. Estes países que fazem fronteira com os da AES estão cada vez mais preocupados com a deterioração da situação de segurança, que está a enfraquecer os seus regimes e estão gradualmente a assistir a incidentes violentos a ocorrer no seu território. É o caso, por exemplo, do parque natural W-Arly-Pendjari (WAP), localizado nas três fronteiras do Benim, Burkina Faso e Níger, uma verdadeira base de retaguarda para islamitas armados.
Quarto ponto: a fragilidade das juntas. De facto, não podem ser descartados movimentos dentro do exército. No Burkina Faso, Traoré denuncia tentativas de golpe, reais ou imaginárias, que foram frustradas. Isto demonstra que ele não pode contar com todas as forças armadas. Recentemente, o Níger sofreu dois motins no espaço de dois dias, um em Filingué e outro em Téra. As tropas recusaram-se a ir para a frente de batalha, o que diz muito sobre a situação das forças nigerinas. No Mali, fazem-se ouvir vozes dissidentes dentro do exército.
Para o futuro, existem muitas opções; podemos referir três que ocorreram noutros países. Um cenário ao estilo somali, onde os grupos islamistas conseguem controlar a maior parte dos territórios em redor das capitais, que se mantêm sob o domínio de juntas, tentando impor um bloqueio e continuando as suas guerras contra os países costeiros. Um segundo cenário que se assemelharia ao que aconteceu na Síria. A ruptura do JNIM com a Al-Qaeda e uma relativa desconfessionalização, permitindo alianças com fações do exército num dos três países da AES em torno da expulsão das tropas russas e de uma governação livre de corrupção. Finalmente, não podemos descartar o colapso, sob os golpes dos jihadistas, de um dos três regimes, o que teria um efeito dominó sobre os outros dois países. Um episódio que faria lembrar o do Afeganistão, com todas as consequências catastróficas, particularmente para as mulheres.
Paul Martial é editor do Afriques en Lutte.
Texto publicado originalmente no Afriques en Lutte.
Notas:
[1] https://www.rfi.fr/fr/afrique/20250613-mali-embuscade-des-rebelles-du-fla-contre-un-convoi-de-l-arm%C3%A9e-et-de-l-africa-corps-dans-la-r%C3%A9gion-de-kidal
[2] https://www.lemonde.fr/afrique/article/2023/12/21/au-mali-les-operateurs-miniers-sous-la-pression-fiscale-de-bamako-pour-payer-les-mercenaires-de-wagner_6207137_3212.html
[3] https://www.conflictarm.com/
[4] https://www.lemonde.fr/afrique/article/2025/06/12/starlink-le-nouvel-atout-des-groupes-rebelles-et-djihadistes-au-sahel_6612513_3212.html
[5] https://tournonslapage.org/fr/actualites/quand-mohamed-bazoum-consolide-la-repression-civique
[6] https://www.ifri.org/fr/presse-contenus-repris-sur-le-site/niger-le-putsch-de-trop
[7] https://afriquexxi.info/La-junte-militaire-a-instaure-la-terreur-partout
[8] https://news.abidjan.net/articles/341644/lancement-officiel-des-activites-de-long-dignite-et-conscience-africaine-les-dirigeants-occidentaux-cloues-au-pilori
[9] https://www.atalayar.com/fr/articulo/politique/lonu-accuse-larmee-malienne-crimes-guerre/20201223162422149027.html
[10] https://www.thenewhumanitarian.org/news-feature/2024/11/18/how-burkina-faso-military-junta-outlawed-local-peace-talks-jihadists
[11] Burkina Faso: primeira declaração de Ibrahim Traoré às tropas depois dos ataques de maio.