Numa ação inédita a esta escala, mais de duas centenas de revistas médicas e científicas de referência - como The Lancet, New England Journal of Medicine, The BMJ ou PLOS Medicine - publicaram o mesmo editorial. No caso, trata-se de um apelo subscrito por editores de vários países a defender que “as nações ricas devem fazer muito mais, muito mais rápido” para combater a crise climática que assola o planeta.
No editorial, publicado em português na Revista de Saúde Pública brasileira, os autores aproveitam as vésperas de encontros importantes - como a assembleia geral da ONU este mês, a primeira parte da cimeira da biodiversidade em Kunming em outubro e a COP26 no mês seguinte em Glasgow - para alertar que “não podemos esperar que a pandemia passe para então reduzirmos rapidamente as emissões”.
Os efeitos para a saúde decorrentes do aumento da temperatura global que se tem feito sentir, bem como “a destruição generalizada da natureza, incluindo habitats e espécies, está a corroer a segurança hídrica e alimentar e a aumentar a probabilidade de pandemias”, apontam os editores.
Por outro lado, sublinham, “as consequências da crise ambiental incidem desproporcionalmente sobre os países e comunidades que menos contribuíram para o problema e são menos capazes de mitigar os danos”, o que irá “gerar mais conflitos, insegurança alimentar, deslocamento forçado e doenças zoonóticas — com graves implicações para todos os países e comunidades”, alertam.
“Muitos governos enfrentaram a ameaça da pandemia de covid-19 com financiamento sem precedentes. A crise ambiental exige uma resposta de emergência semelhante. Serão necessários grandes investimentos, muito além do que está a ser considerado ou concretizado em qualquer lugar do mundo”, prosseguem os editores das revistas científicas, chamando a atenção para os benefícios desse investimento, que incluem “empregos de alta qualidade, redução da poluição do ar, aumento da atividade física e melhores habitações e dieta”.
Mas para que essa transformação se faça, “os países que criaram desproporcionalmente a crise ambiental devem fazer mais para apoiar países de baixo e médio rendimento para construir sociedades mais limpas, saudáveis e resilientes”, nomeadamente cumprindo e indo muito além do compromisso fixado em 100 mil milhões de dólares anuais.
“A maior ameaça à saúde pública global é o fracasso contínuo dos líderes mundiais em manter o aumento da temperatura global abaixo de 1,5°C e restaurar a natureza”, conclui o apelo para que 2021 seja “o ano em que o mundo finalmente muda de rumo”.