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A renovação do pensamento mundial marca o Maio de 68

Destacamos aqui alguns dos temas que marcaram o Maio de 68 e as suas consequências. Este texto é a terceira parte do artigo “Maio de 68 no mundo”, de Gustave Massiah.
"É proibido proibir", grafitti de 1968 em Menton, Alpes - Foto wikimedia
"É proibido proibir", grafitti de 1968 em Menton, Alpes - Foto wikimedia

Desde o final dos anos cinquenta e, mesmo antes em 1947, novas e poderosas correntes de ideias surgem no mundo. Essas ideias brotam em determinadas situações, em função dos lugares, dos momentos e das situações. Elas estão fortemente concentradas desde 1965. São alcançadas pela busca de uma crítica radical e de uma teoria crítica. O Maio de 68 não fez a unanimidade nos intelectuais. Não esquecemos a cólera de Raymond Aron, para quem se trata, na sua reação mais ponderada, de um simples e trágico "psicodrama". Concentramo-nos nas ideias que construíram este movimento intelectual, mesmo se algumas pessoas que as defenderam num momento voltem atrás posteriormente. Destacamos aqui alguns dos temas que marcaram o Maio de 68 e as suas consequências. Os nomes são citados mais como ilustração, lembram algumas pessoas que formalizaram e explicitaram, entre muitas outras, essa corrente. A crise das universidades, com o significado e o número de estudantes, e as respostas, em termos de autonomia relativa e de trocas internacionais, contribuíram consideravelmente para a emergência, maturação e difusão desta corrente. Ela acentuou a permeabilidade das universidades, especialmente às questões e reflexões feitas pelos intelectuais dos movimentos sociais, nomeadamente os intelectuais operários.

Uma análise crítica das sociedades industriais

A visão crítica alimenta-se com as análises das sociedades industriais e dos seus novos paradigmas, o fordismo, o keynesianismo, o Estado social, o social-liberalismo e a social-democracia. Ela atribui grande importância às recomposições da classe operária através dos significados das novas lutas operárias, como sublinham inúmeros trabalhos, nomeadamente os de Daniel Mothé, Serge Mallet, Emma Goldschmidt. Ela abre novas perspetivas com o reposicionamento dos camponeses-trabalhadores por Bernard Lambert. Enriquece-se com as análises sobre a natureza do estado, especialmente com Pierre Naville. Em Itália, uma impressionante produção de ideias floresce, nomeadamente com o jornal Il Manifesto, criado por Luciana Castellina, Lucio Magri e Rossana Rossanda. Esta crítica põe em causa a civilização técnica, o produtivismo, a sociedade de consumo.

Revisão do marxismo

A revisão do marxismo, particularmente ocidental, alimenta-se das críticas ao stalinismo e às derivas do sovietismo. Foi relançada pela rutura sino-soviética e pelas inúmeras investigações, nomeadamente a cubana e a vietnamita. As análises do totalitarismo e da burocracia são aprofundadas. São realizadas por intelectuais checos e polacos e por algumas grandes vozes soviéticas, como Sakharov. Em Belgrado, Milovan Djilas tenta uma análise de classe do comunismo real. A análise dos capitalismos de Estado ou de partido é debatida por Charles Bettelheim e Paul Sweezy. Nos Estados Unidos, vários economistas, como Harry Magdoff, descodificam o imperialismo americano. A revisão do marxismo também está em marcha nos países descolonizados, no sistema internacional e nos novos regimes. Samir Amin e André Gunder Frank revisitam o espaço, mundial, e o tempo, longo, do capitalismo. Nos EUA, Immanuel Wallerstein analisa o capitalismo histórico e trabalha com Fernand Braudel, Georges Duby e outros na refundação do método histórico da Escola dos Annales.

Antiburocracia e anticapitalismo

Um passo torna-se óbvio a partir de Maio de 68, a necessidade de um pensamento unitário do totalitarismo burocrático e das sociedades ocidentais que se dizem liberais. Foi trabalhado de 1949 a 1967 por Socialismo ou Barbárie, e em particular por Cornelius Castoriadis, Claude Lefort e Jean François Lyotard, e pela revista Arguments, criada por Edgar Morin e Kostas Axelos. A crítica unitária dos dois tipos de regime, alargada aos novos estados descolonizados, mostrou além das suas diferenças a unidade do capitalismo privado e dos sistemas burocráticos e dos seus modelos de desenvolvimento. Ela também abrirá algumas pistas que serão retomadas em Maio de 68, a das liberdades, a da criatividade e a da autogestão aberta. Esta discussão não é um rio longo e calmo, é cheia de paixões e desgostos. Declina-se numa multidão de correntes inimigas, heterodoxas, trotskistas e maoístas diversos, guevaristas, libertários e situacionistas, reformistas radicais, que ... se empenharam fervorosamente na análise deste período, nas estratégias de conquista do poder, na construção do socialismo.

O marxismo continua a ser uma questão atual

No século XIX, o marxismo tinha conseguido lançar uma ponte entre o pensamento científico nos seus diferentes desenvolvimentos e o movimento social então limitado ao movimento operário. O dogmatismo quebrou este laço. E, no entanto, foi a partir do marxismo que se fez a renovação. Immanuel Wallerstein argumenta que, como o pensamento escolástico emergiu do cristianismo a partir da linguagem da Igreja, a superação do marxismo far-se-á na linguagem do marxismo, que se impôs como a chave para compreender a evolução das sociedades. O estruturalismo assumiu o existencialismo que continua a progredir. Sartre pesou na cultura do movimento e encontrou-se plenamente na continuação do maio de 1968; ele transmitiu ao movimento, entre muitos contributos, a sua referência às situações e à liberdade situacional. Simone de Beauvoir vai ser uma referência em muitos domínios; especialmente, mas não apenas, para a nova geração do feminismo. A sua palavra encontra uma nova juventude com a descoberta do Segundo Sexo, escrito em 1949, por novas gerações de jovens mulheres e homens, que compreendem todo o alcance da tranquila e penetrante afirmação: não se nasce mulher, torna-se. O estruturalismo renovou e pesquisou as ciências sociais. A economia política foi questionada pelo magistério de Althusser, a começar por Lire le Capital, especialmente com Étienne Balibar e com a Escola da Regulação; a antropologia estrutural, depois de Claude Lévi Strauss, com Emmanuel Terray e Claude Meillassoux e muitos outros; a sociologia com Bourdieu e Passeron (Les Héritiers em 1964 e la Reproduction em 1970); a psicanálise com o magistério de Lacan e da Escola Freudiana. Na turbulência geral das disciplinas, notamos algumas em posição estratégica: as ciências do direito, confrontadas com o furacão libertário; as ciências da educação que estão no olho do ciclone e que trabalha a renovação da linguística especialmente com Noam Chomsky e Umberto Eco. O Maio de 68 vai completar a ponte entre o marxismo e o continente da psicanálise. Herbert Marcuse desempenhará um papel eminente pelos seus trabalhos sobre Freud; Eros e civilização data de 1955 e o Homem Unidimensional de 1964. Ele afirma "a possibilidade de um desenvolvimento não-repressivo da líbido, nas condições de uma civilização chegada à maturidade". Assegura uma certa continuidade com a Escola de Frankfurt, a sua influência é grande na extrema esquerda alemã, diretamente e através de Rudi Dutschke; ele está presente em todas as frentes que se agitam. É preciso também lembrar a redescoberta de William Reich, e as reedições de A função do orgasmo (primeira edição de 1927) e A psicologia de massas do fascismo (primeira edição de 1934).

Aspirações individuais

A tomada de consciência da alienação resulta de uma crítica radical da vida quotidiana

O Maio de 68 levanta a aspiração à autonomia individual. Implica lutar contra a alienação, que é uma das palavras-chave do Maio de 1968. A tomada de consciência da alienação resulta de uma crítica radical da vida quotidiana. Avança que um pensamento político comum poderia surgir de um questionamento radical da vida quotidiana. Jürgen Habermas, fortemente envolvido nos movimentos alemães, recorda a teoria crítica da Escola de Frankfurt sobre os sistemas de educação, o imperialismo e a revolução socialista, a cultura e o sistema capitalista, a psicologia e a sociedade. Antonio Gramsci reencontra direito de cidadania com as suas análises esclarecedoras de cultura e política que vão inspirar novas propostas, como por exemplo a do movimento político de massa. Henri Lefebvre analisa e critica a vida quotidiana, a cidade e a urbanização, a sociologia da mudança, a crítica da modernidade. A crítica dos situacionistas será devastadora. Eles vão desempenhar, através da Internacional Situacionista, um papel importante na preparação dos acontecimentos e na sua difusão internacional.

Três panfletos premonitórios aparecerão em 1967: A Sociedade do espetáculo de Guy Debord; A Arte de Viver para as Novas Gerações de Raoul Vaneigem e A miséria do meio estudantil de Mustapha Khayati. Eles vão abrir novas pistas, especialmente sobre a espetacular sociedade de mercado, a sociedade de consumo, a natureza e o papel dos media. Para eles, a vida quotidiana está literalmente colonizada. A aspiração à autonomia individual vai a par com a evolução dos costumes, a libertação dos corpos e a revolução sexual. A sexualidade torna compreensível a alienação, concretiza a miséria do mundo moderno e sublinha a violência da escassez.

Autonomia e coletivo

A aspiração à autonomia, a individualidade afirmada não é contrária à solidariedade social, à emancipação e ao compromisso coletivo. Uma vez que o Maio de 68 afirma, como disse muito justamente Kristin Ross, a paixão da igualdade, de uma igualdade massivamente reivindicada e inscrita no presente. O Maio de 68 não foi a causa do individualismo sacralisado e da contrarrevolução liberal; é a reação conservadora ao Maio de 68 que foi o seu promotor. O Maio de 68 reafirmou a compatibilidade, em função das situações, da liberdade e da igualdade; foi a reação conservadora que desviou para os droits de l’hommisme” limitados e rebaixou a democracia ao mercado e a política à gestão. O Maio de 68 afirma a liberdade não apesar das injustiças, mas necessária para lutar contra elas. O ódio ao Maio de 68 está sempre vivo para os dominantes que consideram como um saque qualquer questionamento da moral, do trabalho, da autoridade, do Estado e da Nação que ponha em causa a reprodução das relações sociais dominantes.

Uma dinâmica antiautoritária

O Maio de 68 revelou o pensamento de intelectuais, não só para o exterior, mas também e especialmente para eles próprios

A crítica do autoritarismo e da hierarquia vai levantar a questão do poder e das relações de dominação. Foucault vai levantar o véu sobre a natureza destas relações através do hospital e da prisão. Todas as abordagens dos anos sessenta convergem para desconstruir os sistemas coercitivos e as ideologias arbitrárias. As relações de dominação não são naturais e são historicamente construídas; a sua legitimidade é questionável. A crítica das relações de dominação desafia a história e exacerba-se com a rutura do véu pudico que cobria a realidade das colonizações. A politização da vida quotidiana, da sexualidade, das relações Homem/Mulher traduz-se contraditoriamente pela rejeição das formas quotidianas de dominação e por um desejo de revolução completa.

Depois do Maio de 68, um novo curso começou. Insistimos num único aspeto, a reflexão sobre a ação quotidiana, a nova ligação do trabalho intelectual, não apenas académico, com ação social e política. As novas abordagens dando lugar à mudança da prática social vão caraterizar numerosos domínios, o da sociologia, com o exemplo de Bourdieu, a psicanálise como Deleuze e Guattari, e também a psicologia, o ensino, a medicina, etc. A recusa das formas de autoridade e da fatalidade dá de novo um lugar às mulheres e aos homens na construção da sua história. Novas formas de militância desenvolvem-se, a exemplo de Foucault, com a criação, em 1970, do GIP (Grupo de Informação sobre as Prisões). O Maio de 68 revelou o pensamento de intelectuais, não só para o exterior, mas também e especialmente para eles próprios; o acontecimento mudou para alguns deles, o pensamento e o comportamento.

Este texto é a terceira parte do artigo “Maio de 68 no mundo”, de Gustave Massiah, publicado em Contretemps. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

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