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1968: A junção do movimento estudantil com as lutas sociais e o movimento operário

A junção entre os movimentos estudantis e as lutas operárias dá ao movimento uma dimensão societal e facilita a mobilização de uma larga parte da sociedade. Por Gustave Massiah
Manifestação de estudantes universitários, Itália, 1968
Manifestação de estudantes universitários, Itália, 1968

Os movimentos estudantis, quando evidenciam as fraturas abertas das sociedades, perturbam as situações políticas. O sistema educativo e universitário está no centro das contradições sociais, muito pelo papel que desempenha na reprodução da sociedade como na sua transformação. Ele vai ao encontro das interrogações da pequena burguesia intelectual sensível à evolução política dos regimes e à garantia das liberdades. Nicos Poulantzas, insistirá no papel destas camadas sociais numa “saída pacífica” do fascismo em Espanha, na Grécia e em Portugal. Mas, são as lutas sociais na produção, e em particular das lutas operárias que dão ao movimento a sua verdadeira dimensão. É com as grandes greves e a sua generalização que começa a confrontação; e a implicação dos sindicatos deve ser alcançada para passar a um nível superior e uma ascensão ao nível seguinte e equacionar uma greve geral determinada e ofensiva. O movimento operário encontra-se sempre numa posição estratégica, mesmo que não resuma só por si o conjunto do movimento social. A junção entre os movimentos estudantis e as lutas operárias dá ao movimento uma dimensão societal e facilita a mobilização de uma larga parte da sociedade. A junção entre os movimentos estudantis e as lutas operárias, a passagem à greve geral, em França como na Itália, caraterizou o Maio de 68.

A modernização industrial a partir dos anos cinquenta não se faz sem contestações

O compromisso fordista implica a submissão ao taylorismo e à militarização do trabalho batizada organização científica do trabalho. A produtividade integra a produção de tecnologias nas cadeias de produção. O movimento sindical afirma-se como movimento antissistémico e multiplica as greves. O crescimento baseado no mercado interno instaura o consumo como modo de regulação e fator de integração das camadas populares e de regulação social. O Estado-providência assume o salário indireto e assegura, através dos serviços públicos, a saúde, a educação, as reformas. A democratização apoia-se no sistema educativo e na afirmação da igualdade de oportunidades e de mérito.

Uma profunda transformação social acompanha esta revolução dos processos de produção

A nova classe operária nos setores de ponta alarga-se às novas camadas assalariadas, aos técnicos, quadros e engenheiros. No extremo oposto da cadeia, a desqualificação do trabalho abrange novas camadas sociais, as mulheres, os jovens urbanos, os migrantes rurais e os imigrantes estrangeiros. Entre os dois, os operários qualificados, estáveis, perpetuam uma representação do movimento sindical ancorada na história do movimento operário.

O meio estudantil está envolvido numa mutação

O duplo movimento da tecnicização dos métodos e do controlo e do enquadramento dos operários, assim como a integração social conduzem a uma massificação dos estudantes. Em França, em 1968, o número de estudantes duplicou no espaço de oito anos, atingindo o número de 500.000. Por outro lado, a proletarização, mesmo relativa, destas camadas integradas no processo de produção, entra em contradição com o futuro prometido à pequena burguesia. Esta contradição encontra eco na difícil condição estudantil, acentuada pela crise urbana e da habitação, e vai ao encontro das teses situacionistas1 sobre a miséria no meio estudantil. O movimento estudantil alarga-se aos universitários, em especial aos jovens assistentes, e aos estudantes do ensino secundário. O movimento estudantil rejeita o papel que é atribuído aos futuros quadros e põe em causa a hierarquia, a autoridade e a reprodução das elites.

Nos países com industrialização rápida, as tensões sociais exacerbam-se

Os sindicatos são sensíveis à agitação. Em 1967, os representantes da IG Metall2 participam na manifestação dos estudantes em Berlim Ocidental. Os sindicatos ficam divididos entre, por um lado, a desconfiança face a um movimento de estudantes que não poupa críticas e, por outro, às oportunidades criadas. Em Espanha, as Comisiones Obreras partilham a agitação estudantil. É em França e na Itália que a junção é mais espetaular. Na Itália, a partir de 1967, é em solidariedade com os trabalhadores da Fiat que se manifestam os estudantes que acompanham as ocupações das universidades de Trente e de Turim e que se estendem a Milão, Roma e Nápoles. Aí vê-se já a diversidade de grupos de diferentes credos (Guardas Vermelhos, Uccelli3, autónomos, situacionistas, trotskistas, maoistas) que agitam o movimento estudantil sem que nenhum desses grupos possa pretender dirigi-lo. Em 1968, a agitação cresce nas universidades e nas fábricas. O PCI pronuncia-se contra um movimento estudantil autónomo mas organiza várias mesas redondas sobre a revolta da juventude. Em maio de 1968, propõe um novo bloco histórico que inclui estudantes e operários. Em novembro, uma onda de greves rebenta, os estudantes do secundário juntam-se aos universitários e à agitação social. A 5 de dezembro de 1968, a greve geral é declarada em Roma.

Em França, uma modernização em marcha forçada

Os sindicatos, apesar das suas divisões juntam-se ao movimento. As ocupações de fábricas são momentos extraordinários de reconhecimento social. A greve geral, eficaz e carregada de carga simbólica, leva o movimento ao ponto mais alto. A vitória eleitoral massiva dos partidos de direita não anula a relação de forças sociais. As negociações de Grenelle, apesar de contestadas, dão origem aos melhores acordos conquistados desde a Frente Popular em 1936. A força propulsora do movimento social não está esgotada. Ela vai declinar em diferentes formas de comités e assembleias operárias e camponesas. Em 1973 acabará por estar no centro da “luta de LIP” que preconiza a autogestão. Irá igualmente marcar as lutas camponesas com o desenvolvimento do movimento dos camponeses trabalhadores iniciado por Bernard Lambert e as marchas do Larzac. Vai, igualmente, dar origem a um grande número de formas coletivas de emancipação social e a novos movimentos sociais como os novos movimentos feministas, os movimentos de consumidores, os movimentos homossexuais, os primeiros movimentos ecologistas e um largo espectro de movimentos de solidariedade.

Este artigo é a segunda parte do artigo “Maio de 68 no mundo”, de Gustave Massiah, publicado em Contretemps. Tradução de Henrique de Freitas para esquerda.net, revisão de Carlos Santos.


Notas:

1 Internacional Situacionista, movimento internacional político e artístico, com peso e papel em vários países europeus, entre 1957 e 1972. (ver wikipedia)

2 Sindicato metalúrgico da Alemanha e maior sindicato da Alemanha e da Europa. (ver wikipedia)

3 Pássaros. Três estudantes de arquitetura, em 19 de fevereiro de 1968, ocuparam a torre do sino de Sant’Ivo alla Sapienza em Roma, ficaram conhecidos como “os pássaros”. (ver notícia)

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