No seu site diz-se que “nasceu no Porto há muitos anos. Não se lembra! Dizem-lhe que era uma segunda-feira e fazia sol. Apesar de cético por natureza, acredita.”. Viveu a sua infância nas Fontainhas, e a juventude foi passada antes da revolução de Abril, num país marcado pelo cinzentismo, pela falta de liberdade e pelo espectro da Guerra Colonial. Faz o curso de engenharia participando no movimento estudantil contra a repressão, sempre sob o cutelo da Guerra Colonial. Esteve profundamente envolvido no processo revolucionário em curso. Na faculdade, inicialmente como dirigente associativo, faz parte da direção da Associação da FEUP, sendo depois contratado como assistente e tendo estado ligado a vários órgãos diretivos da FEUP. Foi depois trabalhador da Portugal Telecom, onde esteve cerca de três décadas.
Manteve-se sempre envolvido em actividades culturais e cívicas, tendo sido, por exemplo, dirigente da cooperativa cultural Gesto, no Porto, durante vários anos. Destacou-se como fotógrafo, tendo começado, no final da década de 70, a fazer fotografia a preto e branco e, nos anos 80, fotografia a cor, com uma intensa prática que foi sempre crescendo ao longo dos anos. À experimentação e à prática, associou também uma interrogação escrita sobre a fotografia ou a partir dela: “A maior parte do que publiquei nasceu da prática do acto de fotografar ou da reflexão a partir dele”. Por isso dizia que a sua escrita era “feita de dentro da fotografia”, “sem a fotografia nunca teria escrito uma linha”.
Publicou inúmeros livros, entre os quais: “Espelhos (1992, de fotografia e textos poéticos), “Arcas de Sonhos” (1994, ilustrado pelo pintor Carlos Reis), “Renato no País das Manchinhas” (em 1997, também ilustrado por Carlos Reis), o cordel “O engenheiro que é e não era ou que era e não é” (2007, na editora Folhetaria de Cordel - Pernambuco), o livro de literatura infanto-juvenil “O Caracol” (em 2011, com ilustrações de Sérgio Ribeiro, pela Afrontamento), o teatro de cordel “Quem tem tudo quer à força ter canudo” (2014, sendo objeto de várias leituras públicas), ou o livro “Histórias do Lagarto” (em 2022), entre muitas outras publicações dispersas. Este ano publicou, pela Douda Correria, o livro “A Teoria da Relatividade Restrita dos Sonhos (TRRS) e a Democracia em Portugal”, apresentado como tendo a autoria “do professor de Hiperfísica Onírica Albert Eitraum, traduzido por Renato Roque”. No livro dá-se a conhecer uma “teoria onírica revolucionária” que Renato Roque apresentou em inúmeras conferências: na FEUP (Porto), UTAD (Vila Real), Centro Cultural Regional de Vila Real, Abril em Maio (Lisboa), Livraria Centésima Página (Braga), Casa Comum (Porto), Mira Fórum (Porto), Casa da Achada (Lisboa), em Coimbra, Tavira, entre muitos outros lugares. Enquanto personagem-autor Albert Eintraum, afirma que “os conceitos clássicos só são válidos enquanto o sonho tem baixas velocidades e não atinge valores próximos da velocidade da loucura”. Foi nessas sessões públicas/ conferências oníricas que Renato Roque se empenhou nos últimos meses e semanas, denunciando a “contração do espaço para os sonhos dentro do coração” e demonstrando “sem ambiguidade” que “alguns sonhos no interior do coração são sujeitos a acelerações elevadíssimas”.
Renato Roque fez inúmeras exposições de fotografia e fez da escrita uma aprendizagem. Em ensaios fotográficos, poéticos e etnográficos como “Escrito com Cal e com Luz”, “Celebração da Primavera”, “Viúvas do Entrudo”, entre outros, apesar de ativista sociocultural, cocordenador de “Cadernos do Património” e dinamizador solidário e discreto nos lugares transfronteiriços mais recônditos, apresenta-se como um fotógrafo solitário, um passeador de montes, um respigador de fenascos, um cultivador de giestas, um apanhador de desperdícios, um compositor de silêncios. Mascarado pela sua câmara, gostava de fotografar as festas genuinamente populares, as mascaradas, os ciclos solsticiais e equinociais, saturnálias e dionísias, com um sentido comunitário, longe das atuais recriações turísticas. Com ele levava, por terras portuguesas e espanholas, habitantes e coletividades locais, pessoas fotógrafas e amigas, reunidas no recente grupo fotográfico “Porta 55”, que criou a partir da terra natal dos seus avós, em Figueira de Castelo Rodrigo. Na Casa da Cultura foi inaugurada a mais recente exposição fotográfica “A Raia”, em 17 de maio de 2024.
Renato Roque era uma presença permanente nas mobilizações cívicas na cidade do Porto. Também como fotógrafo, acompanhou eventos culturais e as principais lutas da cidade, deixando testemunho vivo através das suas imagens, que podem ser abundantemente encontradas nas redes sociais.
Apoiou como independente o Bloco de Esquerda em diversas campanhas. Envolveu-se com muito entusiasmo e presença na candidatura de 2013 - “E se virássemos o Porto ao contrário?”, para a qual contribuiu, entre muitas outras coisas, com este vídeo-galeria sobre “diversas lutas no Porto que tenho fotografado”, “contra uma memória que tanto esquece”.
No site www.renatoroque.com está acessível um impressionante manancial de obras, textos, fotografias, conferências e as entradas do seu “uma espécie de blog”
O Bloco de Esquerda lamenta profundamente a perda de Renato Roque, um amigo e um cúmplice de tantas lutas, um ativista incansável pela liberdade cultural, pela justiça e pelo sonho, endereçando aos seus familiares e amigos as mais sentidas condolências.
O velório decorre esta sexta, 24 de maio, a partir das 15h e o funeral será amanhã, dia 25 de maio, às 11h, no Tanatório de Matosinhos.