Por que a Internet é mais importante do que a imprensa?
Ignacio Ramonet: Tem-se dito que a Internet é tão importante quanto a invenção de Gutenberg. Mas é mais importante do que a imprensa. Porque com a imprensa se tem apenas o livro, o escrito. Não o desenho ou as representações gráficas que mudaram o Ocidente quando nos séculos XIV e XV Filippo Brunelleschi inventou a perspectiva. A imprensa foi chave, sim. Não apenas mudou a maneira de fabricar textos como o número de universidades. Em 1440 havia quatro ou cinco. Com a extensão do livro, multiplicaram-se e surgiu o humanismo, o Renascimento.
A edição da bíblia em línguas que não se resumiam ao latim.
Exacto. Que foi um suporte do protestantismo. Cada um podia ter o seu livro, que antes valia o mesmo que um carro de hoje em dia. Desapareceram, aos poucos, os copistas. O que quero dizer é que há transformações na política, na sociedade, na geopolítica… A guerra dos Trinta Anos, de protestantes contra católicos, era uma consequência, nesse sentido, da imprensa. Hoje a Internet e as redes sociais não geram por si só alguns fenómenos, mas aceleram-nos enormemente.
O uso massivo dos Blackberry nos recentes protestos de Londres?
Por exemplo. Esses protestos, em boa medida, são filhos da Internet.
Internet e as redes sociais produzem o fenómeno ou são ferramentas dos fenómenos?
As redes não são uma causa, mas um acelerador. As causas são sempre as condições sociais, económicas, políticas… mas, a aceleração é importante. A globalização apenas adquire a intensidade actual quando se criam o que chamamos de auto-estradas da informação, por onde circulam por 24 horas as ordens de compra e venda nas bolsas que circulam velozmente graças ao que a Era digital permitiu. A Internet é um actor do que ocorre e um vector do que acontece, e em ambos os casos para além do campo da comunicação. O jornalista tinha até agora o monopólio da informação. A sociedade recebia a informação através dos jornalistas.
Agora já não é assim?
É um trabalho partilhado. Os cidadãos, com os seus blogs e a informação que eles mesmos difundem com os sítios de informação online, com a informação que se difunde pelo Twitter.
Não é má essa nova situação, ou é? Inclusive é interessante para os jornalistas, por um lado, se têm mais fontes de informação em mãos e, por outro lado, qualquer um pode corrigir o que fazemos.
Isso mesmo.
E se o jornalista é bom, mantém sua capacidade de edição, ainda que não seja monopolizada.
Claro. Eu diria que é o momento de os jornalistas demonstrarem à sociedade que são necessários. A sociedade, em teoria, pela extensão dos instrumentos como a Internet, poderia se auto-informar.
Naturalmente é um sonho que não se pode realizar. Como diz a psicanálise, não basta que se tenham conhecimentos para se auto-analisar. Por definição, a auto-análise não existe. A sociedade não pode “auto-informar-se”, mas, pelo menos em teoria, seria possível. Daí que os jornalistas são mais exigidos do que antes. Antes tinham esse monopólio, certo prestígio social, exerciam certo “terrorismo” intelectual na sociedade… Esse estatuto um pouco privilegiado está abalado por inteiro e agora surgem novas vozes e jornalistas novos. Basta ver o êxito do The Huffington Post nos Estados Unidos.
Até chegou a vender-se, em poucos anos, pelo sucesso que alcançou. Como se reconhece hoje e como se reconhecia anteriormente um bom jornalista? Mudou de verdade a profissão?
O que se pede da informação hoje? Que seja confiável. Muita informação que recebemos não é confiável e às vezes, inclusive, é falsa. Nem falo da má intenção e da manipulação voluntária que existe. Apenas refiro-me a que um programa de rádio ou um canal de televisão não podem garantir que a informação que transmitem seja verdadeira. O uso da condicional “ao que parece” ou “segundo fontes…” tornou-se abusivo. Faz com que os jornalistas se limitem a transmitir uma informação mais rapidamente possível, porque sabem que na rapidez está em parte a captação da audiência, não podem verificar a realidade da informação que estão a transmitir. O cidadão quer confiabilidade. Que meios podem garantir isso? Não são, indiscutivelmente, os canais de informação urgente, imediata, constante.
O mundo que se escuta, vê e lê em multimédia não tem até o momento uma palavra que o defina, correcto?
Não, ainda não.
Essa pessoa, para a qual não temos definição, espera ainda que de alguma maneira alguém lhe explique o que está a acontecer?
Você mesmo disse, de maneira nenhuma. A questão é que hoje a informação se dá de acordo com o emprego. Os meios dão a informação e dizem como interpretá-la. Muito rapidamente. Demasiado sumariamente. Quem sabe o cidadão está à espera que lhe ponham a informação no contexto. Isso impede a urgência, perturba a imediatez.
A audiência recebe fragmentos.
Efectivamente. Assim funciona a informação. Hoje um fragmento, amanhã outro… Mas o cidadão não vai conseguir realizar o trabalho de reunir o mosaico. Tem de se ter especialistas do geral. São os chamados generalistas.
Podemos chamá-los de “todólogos”.
Pode ser. Mas a cada dia está mais difícil encontrá-los. O mundo faz-se muito complexo. Nem toda a gente sabe, se o tema é Fukushima, o que é a radioactividade, como funciona, o que é um terremoto e que consequências traz.
Bem, o que não sabe, e se é jornalista, pode perguntar.
Sim, mas quando um canal de televisão envia uma equipa porque acontece o acidente de Fukushima e isso assusta o mundo inteiro, e a equipa chega ao Japão, nem toda a gente fala japonês, nem todos os japoneses forçosamente falam inglês, inteiram-se de algumas coisas, como a energia nuclear no Japão, recém chegando, averiguam as autoridades responsáveis. Antes, nos anos 20 ou 30, um jornalista era enviado a um lugar de navio.
Com o tempo de deslocamento lia-se vários livros e sabia-se algo do que o esperava. Hoje em dia, em poucas horas se está do outro lado do mundo e nem se teve tempo para se reunir com as pessoas que lhe possam explicar, nem de ler tudo o que deveria ler. Por isso, o próprio ofício não se faz com as garantias necessárias. Acrescente-se a isso que está a escrever-se e ao mesmo tempo a ser-se “vigiado” pelo que se escreve, por uma multidão de pessoas que tem a possibilidade de intervir no que você escreve, às vezes desde autoridades em sismologia ou Japão. O seu trabalho já não vai ser julgado apenas pelos leitores habituais ou pelos colegas, mas sim por toda uma série de especialistas.
E isso é bom.
Claro que é bom. Alguns jornalistas, como disse, vêem o seu estatuto posto em questão. Mas para a colectividade no seu conjunto é muito bom. Antes, na Era industrial, as coisas eram oferecidas prontas. A informação também saía e não era alterada. Era autónoma. Hoje não. Sai a informação e na maioria dos meios, online, já se têm os comentários. A informação vai-se transformando e ao final quase é preciso voltar a redigir o artigo em função dos contributos positivos, que obviamente é preciso verificar, que foram aparecendo no caminho.
Hoje, a informação é um acto colectivo, mais democrático. Evidentemente que também há rumores, falsa informação, “colagem”, prejuízos. Mas, o avanço é importante porque o jornalista não está sozinho. Antes, se havia dois actores, um activo e outro passivo. O emissor e o receptor. Hoje, o receptor é tão activo quanto o emissor. Eu chamo-o de webactor. Tem o seu próprio sistema de comunicação. Bem, primeiro é preciso aceitar esse diálogo, porque faz parte da realidade de hoje e tem muitas coisas boas a recolher. O resultado pode ser muito mais interessante. Não se podem contar histórias. E não se podem contar histórias a todos permanentemente.
Ou seja, nem tudo está perdido.
Pelo contrário.
Salvo para os que querem perder-se.
Para os que ficam parados. Para uma nova geração de jornalistas, ao contrário, nunca houve tantas oportunidades como as que se apresentam hoje no mundo das comunicações. Um grupo de jornalistas recentemente formados pode criar um meio de comunicação de alcance nacional, continental ou planetário, com poucos recursos financeiros, coisa que era impossível para as gerações anteriores. Vejo as coisas de forma muito optimista.
11-09-2011
Publicado no site da Unisinos, recolhido por Vi o mundo
A tradução é do Cepat.