Ramonet: Fórum Social Mundial vive um impasse político

31 de janeiro 2008 - 19:18
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Ignácio RamonetNa avaliação do jornalista Ignácio Ramonet, o Fórum Social Mundial vive um momento de impasse político. Para ele, os movimentos sociais internacionais não conseguiram encontrar uma forma de articulação consistente capaz de enfrentar as actuais crises no mundo.

Por Marie Dominique Vernhes e Peter Strotmann, da Freitag

Ignácio Ramonet é, desde 1991, redactor-chefe do Le Monde Diplomatique. Em 1997, participou da fundação do movimento internacional Attac (Associação pela Tributação das Transacções Financeiras em Apoio aos Cidadãos). Foi um dos articuladores, em 2001, do primeiro Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. No dia 12 de Janeiro deste ano, Ramonet participou do Simpósio Rosa Luxemburgo, em Berlim, fazendo uma conferência sobre o fracasso do chamado "quarto poder". Entre outras coisas, defendeu maiores esforços na construção de meios de comunicação resistentes para o movimento anti-capitalista. Na ocasião, o jornalista concedeu uma entrevista para Marie Dominique Vernhes e Peter Strotmann, do semanário alemão de esquerda Freitag, que publicamos na íntegra.

Nela, Ramonet faz uma análise da actual conjuntura internacional e reflecte sobre a situação do Fórum Social Mundial neste contexto. Para ele, o processo FSM vive um momento de crise e de impasse político. "Os movimentos sociais internacionais no momento têm sido incapazes de encontrar uma forma de articulação mais consistente que lhes permita agir de modo unitário. Não estão em condições de fixar objectivos que sigam uma mesma linha", afirma.

As organizações principais que constituem o Fórum Social Mundial, acrescenta Ramonet, estão obrigadas a colocaram-se a seguinte pergunta: O que será de nós? O que devemos fazer? "Em torno de tudo isso, a questão do poder torna-se importante. Todo o movimento formou-se com base na ideia que não se pode tomar o poder. Eu pergunto-me se isso continua a ser verdadeiro. A experiência na América Latina mostra que com o poder nas mãos se pode fazer algo". A seguir, a entrevista:

 

No Fórum Social Mundial de 2006, disse que seria preciso fazer fracassar o projecto militar dos Estados Unidos. Isso seria necessário para criar uma margem de manobra suficiente, sem a qual todo o progresso social e democrático resultaria vulnerável. Continua a ter a mesma opinião, dois anos depois?

Em princípio, sim. Por outro lado, agora surgem processos que já eram importantes em 2006 e que agora têm uma presença ainda mais forte. Agora vemos mais claramente que estamos a viver o fim da era do petróleo. Temos petróleo para, talvez, 40 ou 60 anos. Essa matéria prima vai alcançar no futuro um preço tal que só uns poucos países poderão permitir-se manter uma matriz energética baseada no petróleo. Esta vai converter-se numa questão estratégica, como se pode ver em anos passados. O domínio militar do mundo por parte dos EUA está determinado pelo controle do petróleo. É por isso que os EUA estão no Médio Oriente e na África, é por isso que estão em situação de hostilidade com a Venezuela e a Rússia. Existe o perigo de novas guerras futuras pelo petróleo.

Um segundo tema do qual já éramos conscientes é o da crise ecológica. As consequências das alterações climáticas são mais drásticas do que o previsto. Isso obriga-nos a repensar radicalmente o tema do abastecimento energético, obviamente no sentido das energias renováveis, mas nalguns países também na direcção da energia nuclear, com todos os perigos daí resultantes.

Como avalia o ascenso espectacular de alguns países do Sul?

Índia e China não representam apenas uma boa terça parte da população mundial. Se acrescentamos Brasil, África do Sul e Rússia, vemos que o peso económico desse grupo de Estados como motor da economia mundial chega a ser maior que o dos EUA. Esses países estão em vias de dispor de fundos soberanos estatais que poderão colocá-los em situação de actuar sobre o próprio núcleo do processo de globalização. Na minha opinião, então, vai colocar-se mais cedo do que tarde a questão de um regresso do proteccionismo. Se países como China ou Índia, mas também Coreia do Sul, Malásia ou Indonésia se convertem na fábrica do mundo, pouco se poderá continuar a exportar para lá, por mais que esses Estados representem as novas potências económicas que poderiam comprar alguma coisa. O que vai acontecer, então, com as indústrias dos países desenvolvidos do Ocidente?

Enfim, trata-se de um perigo que conhecemos há algum tempo, mas que nunca analisamos com a urgência com que agora se coloca com a quebra dos mercados de valores nos EUA. A crise hipotecária tem consequências para os grandes bancos norte-americanos, que agora têm de ser salvos com fundos estatais, sobretudo de países árabes. Considerando que também os bancos na Alemanha e na Suíça sejam afectados, coloca-se a questão de saber se o que está a vista é uma recessão económica mundial. China, Índia e outros países poderiam converter-se no motor da economia mundial, se o motor dos EUA falhar? Se isso não ocorresse, estaríamos diante de uma crise económica de alcance planetário.

Também vê sintomas de decadência no potencial militar dos EUA?

Nesse aspecto, os EUA ainda são o número um. Mas o Médio Oriente revela que seu poder militar não lhes garante ganhar guerras assimétricas: os EUA não conseguiram ganhar a guerra do Iraque. Talvez consigam manter-se no Iraque, mas essas coisas nunca se sabe como acabam. Os norte-americanos tampouco podem ganhar a guerra no Afeganistão. Israel não pode ganhar a guerra contra os palestinianos, pelo menos não militarmente, ainda que possam fazê-lo politicamente. O que se vê nessa região do mundo é que a superioridade militar não leva forçosamente à vitória militar.

O que isso significa?

Significa que os EUA não vão marchar contra o Irão. Talvez bombardeiem o país, mas não o vão invadir, como fizeram ao Iraque, com tropas terrestres. Significa também que os norte-americanos ficaram tão esgotados com todos estes conflitos que não vão poder permitir-se por um certo tempo aventuras militares importantes. Além disso, a Rússia está, outra vez, em vias de se converter numa potência militar mundial relevante. Vemos, pois, que, do ponto de vista do equilíbrio militar, e sob uma ordem unipolar, está a aparecer de novo uma relação de forças multipolar.

Nestas circunstâncias, como podem continuar a desenvolver-se os movimentos sociais e, em particular, que futuro aguarda os Fóruns Sociais Mundiais?

Infelizmente, os movimentos sociais internacionais, no momento, têm sido incapazes de encontrar uma forma de articulação mais consistente que lhes permita agir de modo unitário. Não estão em condições de fixar objectivos que sigam uma mesma linha.

Isso impede os movimentos sociais de responder adequadamente à situação atual?

Exactamente. Atravessamos diferentes fases. A primeira consistiu em definir a globalização. Em meados dos anos 90, ainda não existia o movimento porque não se sabia contra quem lutar. Foi preciso que muitos intelectuais e muitas forças políticas definissem conjuntamente o inimigo, e o inimigo era a globalização. Na segunda fase juntaram-se todos, do Sul ao Norte, na luta contra a globalização. Tem-se evidentemente a impressão de que esses êxitos - particularmente, a fundação do Fórum Social Mundial - acabaram por paralisar o movimento. O movimento é hoje, potencialmente, forte, como nunca foi antes. É, em escala planetária, a única força de alguma medida organizada que resiste à globalização, mas não sabe o que fazer com essa força. Desperdiçaram-se oportunidades, pelo menos é assim que vejo. Hoje estaríamos em condições de levar a cabo lutas em escala mundial. Lembre-se apenas das grandes manifestações contra a guerra no Iraque. Chegou a hora para que movimentos, como o Fórum Social Mundial, deixem de ser movimentos de resistência e entrem numa nova etapa com outras formas de luta.

Por que afirma isso com tanta ênfase?

A ofensiva ideológica da globalização prossegue. Constatamos que o movimento já não amedronta os dominadores. Pouco falam dele. Desde que a Attac entrou em crise em França, a imprensa francesa já não fala da Attac, tampouco fala do Fórum Social Mundial. Preocupa esse silêncio, porque demonstra que os outros têm vencido a batalha e, desde logo, por causa da dispersão. Por isso, creio que as organizações principais que constituem o Fórum Social Mundial estão obrigadas a se porem a seguinte pergunta: O que será de nós? O que devemos fazer? Em torno de tudo isso, torna-se importante a questão do poder. Todo o movimento formou-se com a base na ideia que não se pode tomar o poder. Pergunto-me se isso continua a ser verdadeiro. A experiência na América Latina mostra que com o poder nas mãos se pode fazer alguma coisa. Isso na Europa é mais difícil, devido à camisa-de-forças que se transformou a União Europeia.

Falar na América Latina hoje, queira-se ou não, significa falar no conceito de "Socialismo do século XXI". É uma alternativa?

É, por enquanto, uma obra em construção. O próprio Hugo Chávez, que lançou esse conceito, não poderia dar uma definição do socialismo do século XXI, se alguém lhe perguntasse. O próprio Fidel Castro disse que o socialismo se encontra em crise, o que faz com que haja distintas noções do mesmo. Ele é muito consciente disso, como pude comprovar nas minhas conversas com ele.

Chávez está ciente do facto de que, num processo de transformações políticas, chega um momento em que é preciso passar da prática à teoria. É exactamente o que fez Marx: o capitalismo já existia quando Marx definiu o que é o capitalismo. Já havia movimentos revolucionários quando Lenine elaborou teoricamente as observações sobre as suas lutas, do mesmo modo que Marx fizera em relação à Comuna de Paris.

Chávez procede do mesmo modo: na América Latina, o que impera hoje é sobretudo a vitalidade dos momentos de base, não a dos partidos políticos. Chávez não foi escolhido por um partido político (a social-democracia estava e continua a estar contra ele). São as organizações de base, com a sua multiplicidade nos bairros ou nas regiões, são homens e mulheres, são os indígenas com as suas respectivas reivindicações. São eles que têm ajudado a triunfar personalidades como Chávez, ou o novo presidente equatoriano Rafael Correa. Esse tipo de políticos vincula-se com os movimentos sociais, dando-lhes a possibilidade de ter audiência e de introduzir reformas, por exemplo, em áreas como educação e saúde. Mas chega um momento em que isso já não pode continuar a ser um instrumento estável. É preciso passar à teoria e perguntar: o que conservamos de todas essas experiências? O resultado é o Socialismo do século XXI.

Sobre o qual, contudo, não se sabe grande coisa....

...Não necessariamente. Teríamos de olhar os dez anos até agora decorridos da Revolução Bolivariana, assim como a situação mundial antes descrita, com os seus aspectos ecológicos e energéticos. Como podemos elaborar conjuntamente todos esses elementos num esquema teórico que não seja válido apenas para a Venezuela, mas para toda a Humanidade. O resultado é, de novo, o Socialismo do Século XXI.

O processo no qual nos encontramos agora vai mais além da situação que tínhamos com o subcomandante Marcos e os zapatistas no México. Marcos desempenhou um papel extremamente importante, a ponto de convencer muitos resistentes do mundo sobre a necessidade de se unir. Deu um impulso muito grande nesta direcção, do mesmo modo que Pierre Bourdieu na França, Noam Chomsky, o movimento sindical, o Le Monde Diplomatique, a Attac. Mas chega um momento em que é preciso passar a uma nova fase. Quando a ideia de que os movimentos sociais são a única força que pode agir efectivamente torna-se um fetiche, o movimento fica paralisado.

Tem conversado muito com Fidel Castro e escreveu um livro que é resultado dessas conversas. Em sua opinião, que experiências cubanas deveria ser admitidas e quais deveriam ser evitadas?

Seria preciso evitar, em primeiro lugar, o confronto com a primeira potência da Terra. Isso é, claro, dificílimo, mas quando alguém está exposto a um bloqueio dos EUA, as restrições daí decorrentes tornam a vida muito difícil. Também seria preciso evitar que só um partido fosse permitido. Em troca, parece-me digna de imitação toda a política social. Mas não só ela: há uma política de constante consulta aos trabalhadores. Em Cuba, há pleno emprego. As cooperativas surgem com toda liberdade, especialmente no campo.

Cuba é um país muito pequeno que não está em condições de viver autarquicamente e que já padeceu, ao longo da sua história, de três dependências: primeiro da Espanha, depois dos EUA e mais tarde, ainda que de um modo diferente, da União Soviética. Eu creio que o que os cubanos querem é deixar de ser dependentes. Aqueles que falam agora de uma dependência em relação a Venezuela passam por alto que se trata de uma relação de natureza muito diferente. Porque o que os cubanos podem oferecer em troca é muito importante. Ainda que não se possa quantificar em termos petrolíferos, é um factor de grande importância. Graças aos professores cubanos, o analfabetismo foi erradicado na Venezuela. Veja você, em troca, o que ocorreu na Nicarágua, onde houve, sob os sandinistas, uma importante campanha de alfabetização: o analfabetismo reapareceu e, hoje, 35% das pessoas são analfabetas. Isso é dramático.

Assim, uma boa quantidade de experiências cubanas merece ser conservada, e creio que os próprios cubanos querem manter muito do que os torna únicos. Mas neste país há uma sociedade muito complexa, não monolítica. Um partido único não está em condições de representar a multiplicidade de aspirações dos cubanos.

Castro disse que essa multiplicidade pode encontrar lugar no partido único...

É verdade, mas o que diz, sobretudo, é que num país ameaçado pela primeira potência mundial a unidade é o factor mais importante a conservar. Por isso é tão elementar que essa ameaça deve cessar. No dia que acabar, haverá progressos no reconhecimento da pluralidade da sociedade cubana. Fala-se muito do modelo chinês, mas os cubanos miram-se também no espelho do que ocorre no Vietname.

Esta entrevista foi publicada, em espanhol, em Sinpermiso (Tradução de Amaranta Süss)

Tradução do espanhol para português: Marco Aurélio Weissheimer, para a Agência Carta Maior. Adaptação para Portugal: Luis Leiria

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