Ignacio Ramonet em entrevista a Frédéric Durand, para o jornal francês L’Humanité fala do seu último livro: “L' Explosion du journalisme” (“A explosão do jornalismo”).
Você afirma, no seu livro, que “o jornalismo tradicional se desintegra completamente”
Ignacio Ramonet: Sim, inclusive porque ele está a ser atacado de todos os lados. Primeiro, há o impacto da internet. Parece claro que, ao criar um continente mediático inédito, ela produz um jornalismo novo (blogues, redes sociais, leaks), em concorrência directa com o jornalismo tradicional. Além disso, há o que poderíamos chamar de “crise habitual” do jornalismo. Ela é anterior à situação actual. Desdobra-se em perda de credibilidade, directamente ligada à consanguinidade entre muitos jornalistas e o poder económico e político, que suscita uma desconfiança geral do público. Por fim, há a crise económica, que provoca uma queda muito forte da publicidade, principal fonte de financiamento da média privada e desencadeia pesadas dificuldades de funcionamento para as redações.
A que se deve a perda de credibilidade?
Ignacio Ramonet: Ela acentuou-se nas duas últimas décadas, essencialmente como consequência do desenvolvimento do negócio mediático. A imprensa nunca foi perfeita, fazer bom jornalismo foi sempre um combate. Mas a partir da metade dos anos 1980, vivemos duas substituições. Primeiro, a informação contínua na TV, mais rápida, tomou o lugar da informação oferecida pela impressa escrita. Isso conduziu a uma concorrência mais viva entre médias uma corrida de velocidade em que resta cada vez menos tempo para verificar as informações. Em seguida, a partir da metade dos anos 1990, com o desenvolvimento da internet. Particularmente há alguns anos, com a emergência dos “neojornalistas”, estas testemunhas-observadoras dos acontecimentos (sejam sociais, políticos, culturais, meteorológicos ou amenidades). Eles tornaram-se uma fonte de informações extremamente solicitada pelas próprias médias tradicionais.
O público parece justificar a sua desconfiança em relação à imprensa pela promiscuidade entre o poder e os jornalistas
Ignacio Ramonet: Para a maioria dos cidadãos, o jornalismo resume-se a alguns jornalistas: estes que se vê em toda parte. Duas dezenas de personalidades conhecidas, que vivem um pouco “fora da terra”, que passam muito tempo “integrados” com os políticos, e que, em todo o mundo, conciliam bastante com eles. Constitui-se assim uma espécie de nobreza política, líderes políticos e jornalistas célebres que vivem (e às vezes se casam) entre si mesmos, uma nova aristocracia. Mas esta não é a realidade do jornalismo. A característica principal desta profissão é, hoje, a precarização. A maior parte dos jovens jornalistas é explorada, muito mal paga. Trabalham à tarefa, muitas vezes em condições pré-industriais. Mais de 80% dos jornalistas recebem baixos salários. Toda a profissão vive sob ameaça constante de desemprego. Portanto, as duas dezenas de jornalistas célebres não são nem um pouco representativas, e mascaram a miséria social do jornalismo – na França e em muitos outros países. Isso não mudou com a internet – talvez, se tenha agravado. Nos sites de informação em tempo real criados pela maior parte da velha média, as condições de trabalho são ainda piores. Surgem novos tipos de jornalistas explorados e superexplorados. O que pode consolá-los é saber que, talvez, o seu futuro lhes pertença.
Nestas condições, o jornalismo pode ainda assumir o título de “quarto poder”, que age como um contra-poder?
Ignacio Ramonet: Vivemos uma concentração extraordinária dos média. Quem examina a estrutura de propriedade da imprensa francesa, por exemplo, constata que ela está em mãos de um número reduzidíssimo de grupos. Um punhado de oligarcas – Lagardère, Pinault, Arnault, Dassault – tornou-se proprietário dos grandes meios. Estes expressam uma pluralidade cada vez menor e supõem-se que defendam os interesses dos grandes grupos financeiros e industriais a que pertencem. Isso provoca a crise do “quarto poder”. A sua missão histórica, que consiste em criar uma opinião pública com senso crítico e capaz de participar activamente do debate democrático, já não pode ser garantido. A média procura, ao contrário, domesticar a sociedade e evitar qualquer questionamento ao sistema dominante. Os grandes meios criaram um consenso em torno de certas ideias (a globalização e o livre-comércio, por exemplo), consideradas “boas para todos” e incontestáveis. Quem as renega deixa aquilo que Alain Minc chamou de “círculo da razão”. Entra, portanto, em desrazão…
Você refere-se às vezes à necessidade de um “quinto poder”
Ignacio Ramonet: Sim. Se constatamos que o “quarto poder” não funciona, isso representa um grave problema para a democracia. Não se pode conceber uma democracia sem o autêntico contra-poder da opinião pública. Uma das especificidades dos sistemas democráticos está, aliás, nesta tensão permanente entre poder e no respectivo contra-poder. É o que faz a versatilidade e capacidade de adaptação deste sistema. O governo tem, como contrapeso a seu poder, uma oposição, os patrões, os sindicatos. Mas a média não tem – e não quer ter! – um contra-poder.
Ora, há uma reivindicação social forte e crescente de informações sobre a informação. Diversas associações têm-se constituído (na França, a Acrimed) para aferir a veracidade e o funcionamento dos média. Para que a sociedade possa defender-se melhor. É assim que as sociedades constroem, pouco a pouco, um “quinto poder”. Sendo que o mais difícil é fazer com que a média dominante aceite este “quinto poder” e lhe dê a palavra…
No seu livro, você afirma que o futuro dos jornais escritos é tornar-se imprensa de opinião. Porquê?
Ignacio Ramonet: Os jornais mais ameaçados são, em minha opinião, os que reproduzem todas as informações gerais e cuja linha editorial se dilui totalmente. Embora seja importante, para os cidadãos, que todas as opiniões se exprimam, isso não quer dizer que cada média deva reproduzir, em si mesma, todas estas opiniões. Neste sentido, a imprensa de opinião é necessária. Não se trata de uma imprensa ideológica, ligada ou identificada com uma organização política – mas de um jornalismo capaz de defender uma linha editorial definida pela sua redacção.
Na medida em que, para tentar enfrentar a crise da imprensa, os jornais decidiram abrir espaço, nas suas colunas, a todas as teses políticas, da extrema esquerda à extrema direita, sob pretexto de que vale tudo, muitos leitores deixaram de comprar estas publicações. Porque uma das funções de um jornal, além de fornecer informações, é conferir uma “identidade política” ao seu leitor. Porém, agora, o jornal não expressa mais o que são os seus leitores. Estes, ao contrário, confundem as identidades dos jornais e se desconcertam. Eles compram, digamos, o Libération, e lêem uma entrevista com Marine Le Pen. Aliás, por que não? Mas os leitores podem descobrir, por exemplo, que têm talvez algumas ideias em comum com o Front National. E ninguém lhes dá referências a esse respeito, o que provoca inquietação. Tal desarranjo confunde muitos leitores. Hoje, o fluxo de informações que transita na internet permite que cada um forme a sua própria opinião. Em plena crise dos jornais, o sucesso do semanário alemão Die Ziet é significativo. Ele escolheu contestar as ideias e informações dominantes, com artigos de fundo – longos e às vezes árduos. As vendas crescem. No momento em que toda a imprensa faz o mesmo – artigos cada vez mais curtos, com um vocabulário de 200 palavras, Die Ziet escolheu uma linha editorial clara e distinta. Além disso, os seus textos permitem lembrar de que o jornalismo é um género literário…
Ao mencionar a superabundância de informações, na internet e nas suas redes sociais, você refere-se a sabedoria coletiva e a embrutecimento coletivo. Porquê?
Ignacio Ramonet: Nunca na histórias das mídias os cidadãos contribuíram tanto à informação. Hoje, quando um jornalista publica um texto online, ele pode ser contestado, completado, debatido por um enxame de internautas que serão, sobre muitos temas, tão ou mais qualificados que o autor. Assistimos, portanto, a um enriquecimento da informação graças aos “neojornalistas”, que eu chamo de “amadores-profissionais”. Lembremos que estamos numa sociedade em que a formação superior se tornou acessível como nunca antes. O jornalismo dirige-se, portanto, a um público muito bem formado – ainda que esta formação seja segmentada.
Além disso, as ditaduras que procuram controlar a informação não conseguem fazê-lo mais, como vimos na Tunísia, Egipto e noutras partes. Lembremos que a aparição da imprensa, em 1440, não transformou apenas a história do livro. Ela sacudiu a história e o funcionamento das sociedades. Da mesma forma, o desenvolvimento da internet não é apenas uma ruptura no campo mediático. Ele modifica as relações sociais. Cria um novo ecossistema, que produz paralelamente a extinção maciça de certas meios, em particular a imprensa escrita paga. Nos Estados Unidos, cerca de 120 jornais já desapareceram.
Significa que a imprensa escrita desaparecerá? A resposta é não. A história mostra que os média se reentrelaçam e reorganizam, ao invés de desaparecer. No entanto, poucos jornais vão sobreviver. Sobreviverão aqueles que tiverem uma linha clara, proponham análises amparadas na pesquisa, sérias, originais, bem escritas.
Mas o contexto da hiper-abundância de informações também desorienta o cidadão. Ele não chega a distinguir o que é importante e o que não é. Que informações são verdadeiras? Quais são falsas? Ele vive num sentimento permanente de insegurança informativa. Cada vez mais, as pessoas irão propor-se pesquisar informações de referência.
Como assegurar um futuro à informação e aos que a fazem, agora que ele é acessível gratuitamente?
Ignacio Ramonet: Embora seja incontestável que a imprensa online é a que dominará a informação nos anos futuros, é evidentemente necessário encontrar um modelo económico viável. No momento, a cultura dominante na internet é a da gratuitidade. Mas estamos, precisamente agora, entre dois modelos, e nenhum deles funciona. A informação tradicional (rádio, TV, imprensa escrita) é cada vez menos rentável. E o modelo de informação online não o é ainda, com raríssimas exceções.
Os novos espaços mediáticos podem modificar as relações de dominação que prevalecem hoje no seio da própria sociedade?
Ignacio Ramonet: Dediquei um capítulo inteiro do meu livro ao WikiLeaks. É o terreno da transparência. Nas nossas sociedades contemporâneas, democráticas e abertas será cada vez mais difícil, para o poder, manter a dupla política: uma para fora e outra, mais opaca e secreta, para uso interno, onde há o direito e risco de transgredir as leis.
O Wikileaks demonstrou que os média tradicionais já não funcionavam nem assumiam o seu papel. Foi no nicho destas carências que o Wikileaks pôde introduzir-se e desenvolver-se. O site também revelou que a maior parte dos Estados tinham uma lado obscuro, oculto. Mas o grande escândalo é que, depois das revelações do Wikileaks, nada ocorreu! Por exemplo: revelou-se que, na época da guerra do Iraque, um certo grupo de dirigentes do Partido Socialista francês dirigiu-se à embaixada dos Estados Unidos para explicar que, se estivessem no poder, teriam envolvido a França na guerra. E este facto – próximo da alta traição – não provocou reacções.
Esta evolução para mais transparência pode provocar efeitos concretos?
Ignacio Ramonet: Ela vai necessariamente atingir os privilégios das elites e as relações de dominação. Se os média podem, até agora, dissecar o poder político, é porque a política perdeu muito do seu poder, abocanhado pelas esferas financeiras. Sem dúvidas, é à sombra das finanças, dos traders, dos fundos de pensão, que se localiza hoje o verdadeiro poder.
Tal poder permanece preservado porque é opaco. É significativo que a próxima revelação anunciada pelo Wikileaks diga respeito, precisamente, ao sigilo bancário. Graças aos novos sistemas mediáticos, tornou-se possível atacar estes espaços ocultos. Este poder é como o dos vampiros: a luz os dissolve, os reduz a poeira. Podemos esperar, que graças aos novos meios digitais, em breve chegará a hora de desvendar o poder económico e financeiro.
Entrevista traduzida por António Martins para Outras Palavras