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Radiografia do Vox, o novo partido da extrema-direita espanhola

O Vox emergiu em dezembro passado nas eleições andaluzas e parece ter assegurada a entrada no parlamento com as eleições legislativas do próximo fim de semana. Radiografia de um partido militarista, racista, clerical, pró-imperialista, anti-feminista e neoliberal. Por Daniel Pereyra/Viento Sur.
Santiago Abascal, líder do Vox.
Santiago Abascal, líder do Vox.

Quais são as raízes do Vox? Se tomarmos como base jornalística bastante bem documentada o artigo no El País Semanal de 14 de abril de 2019, estas seriam:

O Partido Popular, do qual surgiram a Fundação FAES, fundada por Aznar, e ativistas do PP Basco como Santiago Abascal (hoje Secretário-Geral do Vox), além de muitos notáveis vindos do franquismo; a Fundação para a Defesa da Nação Espanhola (DENAES), criada em 2006, próxima do Basta Ya! e do Foro de Ermua, apoiados por Esperança Aguirre e outros líderes do PP, inclusive um ex-chefe da Casa do Rei Juan Carlos e anterior patrono de honra da Fundação; sectores fundamentalistas católicos, incluindo vários bispos, o cardeal Antonio María Rouco Varela, cabeça do catolicismo madrileno, a Fundação Hazte Oír e o Foro Español de la Família; destacados militares, incluindo generais, opostos às atuais políticas de promoção; grupos de opinião como o Intereconomía, Libertad Digital e Cadena Cope, e adversários do independentismo.

Há ainda outros que o El País Semanal não menciona, como os núcleos patronais orientados pelo economista Rubén Manso, ultra-neoliberal e autor da política económica do Vox; os vínculos internacionais (o exílio cubano, a direita norte-americana do Partido Republicano e da National Rifle Association, os sionistas e anti-islamistas); núcleos de mulheres antiaborto; negacionistas do Holocausto; aficionados dos touros, da caça e da pesca.

A aparição recente do Vox no panorama político espanhol, surgindo em força no processo eleitoral de 2019, e o seu resultado significativo nas eleições andaluzas [de dezembro de 2018], com 12 deputados autonómicos, coloca a necessidade de avaliar o significado político das suas propostas. Estas são muito claras, enquadrando-se na vertente política na corrente neofascista que atravessa os Estados Unidos e Europa, e na vertente económica e social em posições neoliberais. Mais que os seus documentos programáticos, convém julgar o Vox pelas atitudes dos seus dirigentes e as posições propostas face aos grandes problemas nacionais e internacionais.

Neste artigo, optámos por retirar dos meios de comunicação alguns exemplos de atitudes dos dirigentes sobre estas questões, que realçam com especial contundência as posições de Vox.

Um partido militarista

O aparecimento de antigos altos chefes militares nas listas do Vox é muito representativo. Ainda que se trate de generais em situação de reforma, é um número superior ao que têm todos os demais partidos que se apresentam às eleições. Vejamos uma lista incompleta:

  • Manuel Mestre Barea, tenente-geral da Força Aérea, cabeça de lista por Alicante. Foi acusado de um delito de plágio num concurso para acesso ao generalato.
  • Alberto Asarta Cuevas, general de divisão, número um da lista de candidatos ao parlamento no círculo de Castellón.
  • Agustín Posety Fernández de Castro, brigadeiro da Marinha, cabeça de lista por Cádiz. Assinante do manifesto de centenas de militares retirados em apoio ao regime franquista e ao golpe militar de 1936, membro da Real Academia Hispano Americana e da Associação Católica de Propagandistas.
  • Fulgencio Coll, general, ex-Chefe de Estado Maior do Exército, candidato à câmara de Palma.
  • Antonio Budiño Carballo, general de divisão do Corpo de Intendência do Exército, cabeça de lista pela província de Pontevedra. Interveio em operações multinacionais na Croácia, Albânia e Iraque.
  • Um coronel cujo nome se reserva, destacado 11 anos na Legião como tenente e capitão, número um por Melilla.

Esta presença militar de mais alto nível nas listas às próximas eleições implica um grau de cumplicidade entre Vox o e os altos postos das Forças Armadas que se estende aos temas políticos mais sensíveis da atualidade, e revela o propósito de influir na opinião pública, mostrando um apoio militar ao partido da extrema-direita.

Mas esta cumplicidade dos altos cargos adquire maior significado se se tomar em conta as atitudes de diversas personalidades e sectores das Forças Armadas próximos do Vox, que se tornaram públicas em março ou abril, quando já estava convocado o processo eleitoral, e que se referem a temas relativos a reivindicações militares. Por exemplo, o cabo Jenner López, presidente da associação profissional 45 Sem Despedimentos, opõe-se à saída forçada das Forças Armadas dos militares com contrato ao cumprir 45 anos de serviço. Numa ação de organizações de militares e polícias realizada em Madrid em março de 2018, falaram dirigentes do Vox junto com o cabo López para reclamar a equiparação salarial dos diversos corpos militares e de segurança. Na sua intervenção, López criticou Abascal por ter defendido o regresso do serviço militar obrigatório, quando o mesmo Abascal se livrou dele por sucessivos adiamentos. Também reclamou que os numerosos soldados muçulmanos tenham o direito legítimo de escolher religião. Devido às suas intervenções, López foi sancionado com 12 dias de multa por falta disciplinar grave.

Outro exemplo: a defesa da legalização do porte de arma. Santiago Abascal, secretário-geral do partido, defendeu uma "mudança radical urgente" da lei de porte de arma para que os cidadãos possam dispor de arma em casa e usá-la "sem ter de enfrentar um inferno judicial, arriscando a prisão ou inclusive indemnizações aos familiares dos assaltantes".

A aliança em política internacional com a extrema-direita é igualmente manifesta. Nos Estados Unidos, o Vox mantém estreitas relações com a direita do Partido Republicano e com os setores ultra-direitistas do país, como Bannon, o analista que dirigiu a campanha de Trump à Casa Branca com bandeiras como a pena de morte, o livre acesso às armas e o combate à imigração. Em todo o mundo, o Vox mantém proximidade com as direitas mais extremas: com os partidos fascistas Europeus, nomeadamente em França, Itália e Hungria; com apoio incondicional a Israel para a capital em Jerusalém e a soberania sobre os Montes Golã; com os EUA na sua política pró-sionista de confronto com a Palestina e os países árabes.

A visita do responsável internacional do Vox ao partido de extrema-direita da Polónia, e a aproximação a outros países de extrema-direita na Europa de Leste, como a Hungria, são outros exemplos.

Velha e nova extrema-direita

Também é muito visível a presença nas fileiras do Vox de antigos membros da extrema-direita espanhola. Entre eles figuram membros históricos do Fuerza Nueva, o partido da extrema-direita fundado por Blas Piñar durante a transição pós-franquista.

Um caso notório é o de Kiko Méndez Monasterio, que junto com Marcos Calera foi condenado a 26 de abril de 1999 pelo Juízo de Instrução nº 8 de Plaza Castilla a pagar uma indemnização a Pablo Iglesias pelos crimes de agressão e ameaça. Kiko era membro do grupo fascista Aliança pela Unidade Nacional, em cujo nome cometeu estes crimes, e que era dirigido pelo conhecido fascista Sáez de Inestrillas. Atualmente, Kiko é assessor de Abascal no Vox.

Nas listas do Vox militam também membros de associações de vítimas do terrorismo, nascidas em resposta à ETA, como é o caso de José Alcaraz, que foi designado pelo Vox para senador na Andaluzia. Foi fundador da AVT.

Quanto a Abascal, a sua história política começa aos 29 anos, quando foi Presidente das Juventudes (Novas Gerações) do País Basco e deputado autonómico. Em 2011, Aznar assistiu ao quinto aniversário da criação da Fundação DENAES, presidida por Abascal. A DENAES e a FAES, a fundação dirigida por Aznar, eram almas gémeas, até que a concorrência entre ambas pela direção da direita espanhola fez surgir fricções e divergências.

Por sua vez, o líder do Vox em Lleida, José Antonio Ortiz Cambray, foi detido pelos Mossos d’Escuadra [corpo de polícia catalã] sob a acusação de abusar sexualmente de homens com incapacidade a 5 de março. Formadores da Fundação Alosa, que tutela vários incapacitados, apresentaram uma denúncia aos Mossos, que suspeitam da existência de 4 vítimas. Ortiz concorreu às eleições municipais de Lleida em 2011 com a Plataforma per Cataluña, e passou depois para o Vox, que dispõe de perto de uma centena de membros na província. Em 2016, apresentou-se como candidato ao Senado pelo Vox. Não obstante, o partido nega que Ortiz seja dirigente ou tenha algum outro cargo no Vox, como ele declarava.

Javier Ortega Smith, número 2 do Vox, tem aberta uma investigação penal por um alegado crime de ódio, que poderá ter cometido ao afirmar que "o inimigo comum" é a "invasão islamista", num comício realizado em Valência a 16 de setembro de 2018. A denúncia foi apresentada pela organização Muçulmanos contra a Islamofobia, por Smith ter sustentado no dito comício que "o nosso inimigo comum, o inimigo de Europa, o inimigo da liberdade, o inimigo da família, chama-se invasão islamista […] cada vez mais europeus estão a pôr-se de pé e não estão dispostos a que se derrube as suas catedrais para substituí-las por mesquitas".

Em Albacete, a direcção do Vox decidiu retirar o seu candidato parlamentar devido a declarações polémicas. Fernando Paz fez afirmações ofensivas sobre homossexuais, bem como outras negacionistas e revisionistas sobre o Holocausto, que motivaram um comunicado da Federação de Comunidades Judaicas de Espanha para "retirar a candidatura de Paz nas listas do Vox", já que "é inadmissível que uma pessoa com este pensamento se apresente para um cargo de representação pública". Anteriormente, Paz fora membro da organização de extrema-direita Aliança Nacional, e afirmara num evento que a sobrelotação e as doenças jogaram um grande papel na mortandade nos campos de concentração. Num evento da Falange em 2016, atribuiu os assassinatos de judeus na Europa "em muitíssimos casos ao estado absolutamente caótico, à falta de alimentação, à extensão do tifo nos campos de concentração". Em suma, negava a existência do Holocausto e o assassinato de milhões de judeus na Europa (El Mundo, 22 de março de 2019).

Outro dado importante é o apoio com que o partido conta do setor mais à direita no Vaticano. Abascal distanciou-se de declarações do Papa Francisco, que este fez a título pessoal, sobre imigração. Sem o atacar diretamente, contrapôs-lhe as palavras do cardeal Robert Sarah da Guiné Conacri, que tuitou a frase: "A igreja não pode colaborar nesta nova forma de escravatura em que se converteu a imigração de massas". Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, a quem o Papa desautorizou em algumas ocasiões, encabeça o sector mais ultra-montano do Vaticano. Sarah compara a ideologia de género com o Estado Islâmico e qualifica-a de "demoníaca".

Um programa económico neoliberal

Rubén Manso foi designado pelo Vox como responsável pelo programa económico. Manso é inspetor em licença do Banco de Espanha, doutor em Ciências Económicas e Empresariais, presidente do Conselho de Administração do Eurobank del Mediterráneo entre 2003 e 2004 [período em que o banco estava em liquidação], e tenente-general do Exército na reserva. Numa ação em 2012 com Santiago Abascal, Alejo Vidal Quadras e Jose Antonio Ortega Lara, todos fundadores do Vox, Manso afirmou que "a repartição de impostos deve abandonar o princípio absurdo da progressividade", segundo o qual "quem mais tem deve contribuir proporcionalmente mais. Discriminar os indivíduos em função dos seus rendimentos" — isto é, fazer os mais ricos pagar mais — "leva a que níveis desiguais de esforço e mérito produzam níveis iguais de consumo e poupança".

Manso defende "um Estado reduzido à sua expressão mínima: a Defesa, a segurança interna e a justiça penal. Estes são os serviços que o Estado deve prover; a saúde, a educação e inclusive parte da justiça civil devem ficar em mãos privadas". Manso admite que algumas pessoas não podem pagar a saúde, pelo que o Estado deveria "auxiliar os cidadãos pagando estes serviços ao sector privado". Mas "essa intervenção não deveria pagar tudo, mas só até onde não cheguem os recursos do cidadão auxiliado"... O Estado deveria financiar apenas o "necessário", partindo de "uma definição austera do conceito de necessidade". Todos os demais serviços devem ficar em mãos privadas e "não parece razoável subsidiar o lazer e a cultura".

Idêntico critério deve adotar-se para as pensões. Das palavras de Manso deduz-se a intenção de desmantelar o sistema atual para substituí-lo por um sistema privado. Os indivíduos devem custear as suas despesas presentes e futuras, incluindo a reforma. Que acontece com quem não pode pagar um fundo privado de pensões? O que "não se pode fazer é assegurar uma pensão, pois então não teriam interesse em poupar, nem assegurar uma pensão mínima, igual para todos".

Há que exigir a quem trabalha uma poupança mínima para garantir o seu futuro e "meios de vida suficiente a quem decida vir reformar-se a Espanha". Estas consignas parecem decalcadas da doutrina de Trump e de outros neoliberais da mesma estirpe rançosa.

Daniel Pereyra é escritor e membro do Conselho Assessor de Viento Sur. Artigo original em Viento Sur. Tradução de José Borges Reis para esquerda.net.

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