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Rachel Keke, a primeira empregada de limpeza a ser eleita deputada em França

Tornou-se conhecida pela greve das mulheres de limpeza que durante 22 meses desafiou o Ibis. Aceitou o desafio de se candidatar pela NUPES às legislativas por um círculo historicamente à direita e que estava agora nas mãos do macronismo. Contra as expetativas ganhou por 177 votos e quer ser “a voz dos sem voz” no Parlamento.
Rachel Keke. Foto da sua conta do Twitter.
Rachel Keke. Foto da sua conta do Twitter.

À esquerda, houve quem criticasse a apresentação de Rachel Keke pela sétima circunscrição de Val-de-Marne. Não por ser uma candidata “paraquedista”, já que aí reside, ao contrário da sua principal oponente. Nem por ser quem é, dado que o seu papel social é muito reconhecido. Mas, pelo contrário, porque, à partida, lhe era oferecido apenas um embate simbólico para perder. Assim, dizia-se, o seu papel limitar-se-ia a ser o de “colorir” as listas das NUPES com uma ativista entretanto tornada famosa. Isto confirma o próprio diretor da sua campanha, Sylvain Mailler, que esclarece: “disseram-nos que era um círculo eleitoral impossível de vencer; só era preciso marcar presença”.

Keke enfrentava uma ex-ministra do Desporto, Roxana Maracineanu, antiga glória da natação francesa e figura televisiva desde então, num círculo historicamente à direita e que agora parecia seguro nas mãos do macronismo. Também teria de ultrapassar uma figura da política local: Vincent Jeanbrun, dos Republicanos, presidente da Câmara de Haÿ-les-Roses. Contra as expetativas iniciais, ganhou este domingo a segunda volta das eleições legislativas francesas no seu círculo por apenas 177 votos, tornando-se na primeira empregada de limpeza a ser eleita deputada no Parlamento francês.

Da greve do Ibis ao parlamento

Rachel Keke Raïssa nasceu em 1974 em Abobo, na Costa do Marfim. Começou a trabalhar aos 16 anos e teve vários empregos como cabeleireira, caixa de supermercado e auxiliar de idosos, até que, na sequência do golpe de Estado de dezembro de 1999 no seu país, decidiu emigrar para França.

Aos 26 anos, começou vida nova neste país, primeiro como cabeleireira no salão de um tio. Depois disso, em abril de 2003, inicia o trabalho que a tornará conhecida: empregada de limpeza no Ibis de Batignolles, o segundo maior hotel desta cadeia hoteleira em França, com 704 quartos. Precária, trabalha ao início a tempo parcial para várias empresas subcontratadas pela multinacional, sofre racismo e tentativas de agressão sexual. Em fevereiro de 2019 é obrigada a meter baixa por doença: síndrome do túnel cárpico, tendinites e dores de costas são a paga das condições de trabalho e ritmos que lhe foram impostos ao longo do tempo.

Em julho desse ano, é uma das 28 empregadas do Ibis de Batignolles que começa uma greve por tempo indeterminado. As mulheres, a maior parte de origem africana, surpreendem pela persistência. Apoiadas por um fundo de greve aberto a contribuições de sindicatos e cidadãos, ao fim de 22 meses de luta, naquela que foi a mais prolongada greve do setor hoteleiro em França, saem vitoriosas. Não totalmente. Conseguem uma diminuição do ritmo de trabalho de 3,5 a 3 quartos por hora e o direito a uma pausa de 30 minutos, a passagem de várias trabalhadoras a tempo completo, um aumento de salário, o pagamento de horas suplementares e de subsídio de alimentação mas a dona da cadeia hoteleira, a Accor, não as integra nos quadros da empresa.

Esta luta torna-a conhecida nacionalmente. Depois dela, continua a sua militância social contra o racismo e a precariedade até que surge o seu envolvimento político na campanha presidencial de Mélenchon através da participação num “Parlamento” da candidatura que junta ativistas, especialistas e quadros partidários. A seguir, adere à criação da Nova Unidade Popular Ecológica e Social, que junta França Insubmissa, Verdes, PS e PCF, aceita ser candidata e toma palavra no comício inagural da coligação.

Este domingo, em ambiente de festa depois de contados os votos, Keke, visivelmente comovida reafirmou: “sou a voz dos sem voz, sou empregada de limpeza” e prometeu que os trabalhos mal pagos que são essenciais seriam agora visíveis presenças no Parlamento.

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