Direitos Trans

PSD e Chega atacam autodeterminação de género, Bloco propõe reforço da lei

07 de março 2026 - 17:53

Na sua cruzada ideológica contra as pessoas trans, a direita quer voltar a exigir um diagnóstico clínico para o reconhecimento legal da identidade de género. Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica fala em “negacionismo científico”. O debate está agendado para 19 de março.

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Manifestação pela Visibilidade Trans, Lisboa, Março 2022
Manifestação pela Visibilidade Trans, Lisboa, Março 2022. Foto de Ana Mendes.

O PSD apresentou na Assembleia da República um projeto de lei para revogar a lei em vigor desde 2018, que consagra o direito à autodeterminação da identidade de género e expressão de género e à proteção das características sexuais de cada pessoa. O projeto significa uma colagem política ao Chega, que também propõe a revogação da lei que em linha com o conhecimento científico tinha dispensado a apresentação de diagnóstico clínico para alterar a menção do sexo no registo civil.

O debate parlamentar está agendado para 19 de março e o Bloco de Esquerda respondeu com uma iniciativa que reforça a lei em vigor. O projeto de lei bloquista recupera o texto de um decreto que a Assembleia da República já aprovou em 2023 para suprir alguns aspetos da lei de 2018 que o Tribunal Constitucional apontou serem inconstitucionais, nomeadamente a remissão da competência da regulamentação para o Governo em matérias que envolvem direitos. Os juízes não puseram em causa os direitos reconhecidos, mas a lei ficou sem instrumentos legais para ser materializada, por exemplo em ambiente escolar. Sanada a questão pela então maioria parlamentar, o diploma foi vetado politicamente por Marcelo Rebelo de Sousa. O fim precipitado dessa legislatura impediu o Parlamento de responder ao veto presidencial com nova aprovação e o texto regressa agora ao plenário pela mão do Bloco de Esquerda.

Lana Pereira
Lana Pereira

Pessoas trans sob ameaça em Portugal

11 de fevereiro 2026

Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica diz que proposta do Chega é “negacionismo científico”

No âmbito do debate sobre a nova ofensiva da direita contra as pessoas trans, a Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica (SPSC) entregou aos deputados um parecer em que arrasa a proposta do Chega. Segundo estes profissionais reconhecidos das áreas da Medicina Geral e Familiar, Psicologia, Psiquiatria e Psiquiatria da infância e adolescência, “ao propor retrocessos baseados em desinformação, a proposta ignora a evidência empírica e ameaça gravemente a saúde mental de uma população já vulnerável”.

A SPSC entende que “rotular uma realidade clínica com base biológica como "ideologia" é um ato de negacionismo científico. Ao ignorar estes dados, a proposta falha na sua fundamentação básica, ao tentar legislar sobre uma condição médica através de uma lente ideológica que a ciência já refutou”.

Os médicos acusam ainda o partido de André Ventura de justificar a proposta que visa impedir o tratamento de adolescentes com números relativos a estudos sobre crianças pequenas, concluindo que “esta generalização grosseira ignora a realidade biológica da puberdade e visa retirar cuidados críticos a quem deles mais necessita”. Também os números apresentados pelo Chega sobre as taxas de arrependimento de destransição se baseiam em “amostras de conveniência” que contradizem as evidências. A SPSC cita estudos que concluem que “apenas 4% dos jovens reportam arrependimento após cuidados médicos”, pelo que conclui que “legislar com base na exceção para punir a maioria (96% de satisfação) é uma resposta desproporcional e inadequada”.
 

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