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A propósito das Mulheres de Abril

Como mulher e ativista, os cravos que levo no peito choram por vezes e as lutas nem sempre conduzem aos resultados imediatos que esperamos. Texto de Marta Dias
Mulheres de Abril, na imagem manifestação de mulheres "Recusamos a fome" - Foto da UMAR/Centro de Documentação Elina Guimarães
Mulheres de Abril, na imagem manifestação de mulheres "Recusamos a fome" - Foto da UMAR/Centro de Documentação Elina Guimarães

Sempre ouvi histórias sobre a minha avó ser uma mulher de armas. Tinha sido das primeiras mulheres a divorciarem-se em Braga, vítima de violência doméstica como tantas outras. No entanto, nunca se deixou ficar. Levou a vida com um cravo no peito enquanto ouvia Zeca e ensinava aos filhos sobre as conquistas de Abril. Sobre o quanto Abril era o mundo e a esperança. Sobre o quanto Abril era a sorte que ela não teve.

A mim nunca me pôde contar essas histórias. Acho que mesmo que pudesse, sabia que a minha mãe se encarregaria do trabalho. De me levar a manifestações, de me contar histórias, de celebrar Abril com o cravo no peito que a minha avó nos deixou como herança.

Depressa percebi o que era Abril. E hoje percebo ainda mais a sua necessidade e importância. A luta pelos direitos nunca foi nem nunca será garantida. É diária e extremamente instável. Precisa de vozes, de eco, de gritos. Precisa de inquietação.

Abril foi e é também uma das razões pelas quais eu posso cá estar hoje. A ocupar este espaço que durante muito tempo não foi meu nem de nenhuma mulher. Um espaço pequenino, confinado, como uma quarentena obrigatória em que não era suposto sair à rua e muito menos reivindicar o que seria meu por direito. Em que não era suposto eu ter uma opinião e muito menos expressá-la num lugar qualquer, fosse ele político ou social, académico…

Hoje eu tenho um espaço maior. Tive a oportunidade de ocupar um lugar mais espaçoso e menos injusto, fruto da luta das que não puderam mas ousaram tê-lo. Não só em Abril mas em todos os meses e dias do ano. De todas as vezes que se sentem pequeninas, a ocupar espaços que sentem não ser seus, onde as diminuem e as querem calar.

Como mulher e ativista, os cravos que levo no peito choram por vezes e as lutas nem sempre conduzem aos resultados imediatos que esperamos. Às vezes as lutas são as tentativas de um 16 de março de 1974, mesmo que tenham como objetivo uma madrugada de Abril. Outras vezes percebemos que o caminho para a revolução, embora duro, embora frágil, embora suscetível a mudanças, pode acontecer. De cada vez que uma mulher se levanta, o mundo treme com um avanço e passa a ser Abril de novo, independentemente do mês real do ano.

É difícil fazer parte de um lugar onde não querem que nos coloquemos mas é extremamente necessário que o façamos, mesmo que continuem a comprimir-nos a objetos bonitos e delicados que não são capazes de compreender. É ainda mais difícil fazer parte de ativismos e saber que até nesses nos rasgam cartazes e nos retiram o palco porque não somos capazes de compreender.

Mas no entanto, aqui estamos. Aqui estamos, em Abril, de todas as vezes que alcançamos mais igualdade e mais liberdade. De todas as vezes que uma mulher faz um aborto porque pode e deve tomar a sua própria escolha. De todas as vezes que uma mulher alcança um lugar na política. De todas as vezes que uma mulher vota. De todas as vezes que uma mulher grita. De todas as vezes que o mundo acha que continuamos a ocupar espaços pequeninos e fazemos desses espaços a revolução.

Texto de Marta Dias, ativista feminista

Publicação corrigida às 18h40 de 28 de abril de 2020

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