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Promoção do cinema tem “brutais assimetrias” no território

O coletivo de seis festivais agora formado - de Coimbra, Açores, Viana, Avanca, Olhão e Melgaço - tem por missão combater as “brutais assimetrias” no financiamento do ICA para os programas de literacia fílmica, concentradas nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto.
Cine-teatro Império. Foto via Biblioteca de Arte Gulbenkian/Flickr.
Cine-teatro Império. Foto via Biblioteca de Arte Gulbenkian/Flickr.

Da região autónoma dos Açores ao Algarve e Minho, o novo coletivo de festivais declara-se unido contra “a metropolização no acesso à cultura cinematográfica”. Em causa estão os apoios do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA) para a promoção de festivais de cinema que, em 2020, foi absorvida esmagadoramente pelas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto.

Da verba de 2,46 milhões de euros para o triénio 2021-23, nada menos do que 88,3% foi orientada para estas duas zonas do país. Os números fazem parte dos relatórios públicos do ICA que revelam que Coimbra recebeu cerca de 100 mil euros, com a mesma verba atribuída a Avanca; Melgaço recebeu 30 mil euros; Viana, cerca de 22 mil, enquanto os Açores e Olhão não foram além dos 15 mil euros.

O coletivo é formado pelos Caminhos do Cinema Português (Coimbra), dirigido por Tiago Santos e Vítor Ferreira; o Curta Açores (Ribeira Grande), que tem à sua frente Manuel Bernardo Cabral; os Encontros de Cinema de Viana, com direcção de Carlos Eduardo Viana; o Festival Internacional de Avanca, dirigido por António Costa Valente; o FICLO — Festival Internacional de Cinema e Literatura de Olhão, que tem como responsáveis Candela Varas e Débora Pinho Mateus; e o MDoc — Festival Internacional de Documentário de Melgaço, dirigido por Carlos Eduardo Viana.

Ao jornal Público, Candela Varas, diretora do FICLO - Festival Internacional de Cinema e Literatura de Olhão -, argumenta que “para além de falar de percentagens, é importante dizer os números mesmo: anualmente, de um total de 820 mil euros, 724 mil ficaram em Lisboa e Porto; 96 mil ficaram para o resto do território nacional. Não há nenhum festival reconhecido a sul do Tejo pelo ICA, o FICLO é o único. Pedimos 80 mil euros e só nos dão cinco mil.... num festival com competição internacional, não começámos sequer a fazer telefonemas”, relata.

O FICLO vinha sendo financiado pelo 365 Algarve, programa financiado pelo Turismo de Portugal e que foi extinto no final de 2020. Com o apoio concedido pelo ICA, o FICLO é insustentável.

Mas os resultados do concurso do ICA poderiam ter sido piores. “Na avaliação que fizemos antes da audiência de interessados, o que se via é que, segundo a dinâmica de atribuição em anos anteriores, os seis festivais iriam ficar fora dos apoios ou com muito pouco apoio. Não aconteceu, precisamente, porque nos juntámos em coletivo e fomos falar com o ICA e com o secretário de Estado do Cinema e do Audiovisual, sendo que os resultados são muito pouco satisfatórios, pois não deixa de haver uma injusta concentração do apoio nas áreas metropolitanas. Graças à decisão de apoiar todos, não se pode dizer que deixem alguém de fora, mas é poeira para os olhos.”

Ao jornal Público, o ICA defende que, no triénio de 2018-2020, houve uma ligeira diminuição da presença das áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto. Mas a evolução é de facto bastante ligeira, tendo passado de 88,8% para 88,3%. O concurso para 2021-2023, acrescenta o ICA, registou entretanto um reforço de 60 mil euros devido aos apoios excecionais covid-19.

Contas feitas, o concurso atual atribuiu 52,1% do financiamento à área metropolitana de Lisboa, 36,2% ao Porto e 11,7% ao resto do país.

Tiago Santos, co-diretor do festival de Coimbra, afirma ao jornal Público que o coletivo pretende “ajudar a evidenciar aquilo que aos olhos da tutela não se tornou evidente a nível das assimetrias de desenvolvimento do país que condicionam as condições de partida para a realização de eventos cinematográficos, especificamente dos festivais de cinema”.

“Não existem as mesmas condições sociais, culturais e infra-estruturais em todo o país, quer de receção junto da comunidade local e internacional, quer de condicionalismos técnicos, como os serviços de projeção digital ou de legendagem eletrónica”, afirma.

No comunicado, relembram que nas 12 posições cimeiras do concurso ficaram festivais exclusivamente realizados nas duas principais áreas metropolitanas. “Um resultado que vem contrariar o espírito e os princípios e objetivos do ICA, e as políticas que um Ministério da Cultura deveria fomentar para promover equitativamente a acessibilidade dos públicos ao cinema bem como o combate à iliteracia fílmica em todo o território nacional.”

À excepção do Play — Festival de Cinema Infantil e Juvenil de Lisboa, todos os festivais realizados fora das áreas metropolitanas ficaram, “coincidentemente, classificados nas últimas posições”.

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