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"O ICA falha redondamente" na difusão do cinema português

Sérgio Marques desenvolve projetos de divulgação de cinema e literacia audiovisual há mais de uma década e deixa palavras duras para o Instituto do Cinema e Audiovisual. Fora de Lisboa e Porto, “quantos filmes portugueses circulam em Portugal por ano?”, questiona.
"O Cinema Português é tão bom, tão diverso e plural, é um desperdício que não seja visto por todos".
"O Cinema Português é tão bom, tão diverso e plural, é um desperdício que não seja visto por todos". Foto esquerda.net.

Natural do Porto, organizou cinema no espaço público nesta cidade e depois em Lisboa com o Fitas na Rua, entre outras iniciativas. Em 2018, lança o Cinema Insuflável, dedicado à divulgação de cinema a crianças, uma iniciativa de sucesso que esteve na origem de um convite - um “azar” - da Câmara Municipal do Porto para um projeto que colocou em causa a viabilidade da própria associação que dirige.

 

Em duas décadas de projetos de promoção do cinema, tens uma experiência singular. Como avalias as políticas públicas do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA)?

De uma forma geral, são politicas e decisões tomadas com orçamentos muito baixos. Acho que há uma grande distância entre o ICA e a importância do Cinema Português. Eu trabalho e tenho estado sempre ligado mais às questões de fruição e, aí, o ICA falha redondamente. Aos cineclubes, que fazem um papel tão importante no pais, o ICA atribui 5000€ anuais, o que é ridículo para conseguir cumprir uma missão tão importante e fazer chegar o cinema, fora do circuito comercial, às populações. O ICA falha muito também na responsabilidade que tem em promover e difundir o Cinema Português em Portugal. Quantos filmes portugueses circulam em Portugal por ano? Fora das duas grandes cidades?

E o Cinema Português é tão bom, tão diverso e plural, é um desperdício que não seja visto por todos.

Há uma outra questão que me parece essencial reclamar junto do ICA que são os novos projetos, os festivais novos que são lançados no país. Por exemplo, nasceu um festival novo em Olhão, de Cinema e Literatura, num território que culturalmente precisa de tudo, e há uma falta de empatia e financiamento com estes novos impulsos. O ICA mantém um registo de apoiar e instituir de uma forma mais contínua alguns festivais e eventos e não valoriza as atividades novas.

O que falha e o que falta fazer a nível local, regional e nacional?

A nível local falta estar atento aos coletivos ou às entidades que, formalmente ou não, se dedicam a atividades de cinema e apoiá-las. Quando digo apoiar não é só distribuir geograficamente de uma forma mais equilibrada os fundos, é também capacitar mais, oferecer ajuda técnica. Até falta fazer esse levantamento. Adoraria fazer esse trabalho. Falta que o Plano Nacional de Cinema seja bem mais ambicioso, que se declare como uma ferramenta a sério e não uma experiência que parece estar sempre numa fase experimental, um ano zero. Será muito fácil, em breve, para qualquer governo anular este projeto.

Quantos filmes portugueses circulam em Portugal por ano?, questiona Sérgio Marques.

Falta perceber e estudar o público de cinema, as novas formas de fruição, estudar o formato festival de cinema e questioná-lo. Falta que os profissionais de cinema percebam que o país não é só Lisboa, onde estão concentrados quase todos os festivais de cinema e as equipas profissionais ligadas ao cinema. Falha muito que os festivais de cinema façam extensões fora de Lisboa e isso implique que os custos sejam assumidos pelos pequenos exibidores.

Falta ter um verdadeiro amor à experiência do Cinema, e questionar e avaliar a forma como essa experiência chega às pessoas. Eu sou mais radical, acho que o formato festival de cinema está, sorrateiramente, a desvalorizar a magia do Cinema, Mas isso também é culpa das regras do ICA e dos Financiamentos europeus que obrigam a cumprir regras estranhas.  

Qual o papel da rede de teatros e cineteatros?

É um papel essencial para Portugal, onde é tão assimétrica a oferta cultural e a distribuição de financiamentos públicos para as artes. Mas para o bom usufruto das obras, dignamente, os espaços têm de ser bem equipados e ter equipas profissionais a sério.  É um grande passo de vitalidade democrática para a circulação real de espetáculos e de filmes. Espero muito que aconteça e que todos tenham equipas de serviços educativos. E que daqui a duas décadas, em Portugal, todos os jovens tenham crescido com experiências artistas de qualidade, independente do local onde vivem. A Cinemateca Portuguesa terá um papel importantíssimo aqui, se quiser, se algum dia mudar. Todos devem ter acesso a assistir com qualidade técnica e em locais de excelência as grandes obras de cinema do mundo, de todos os tempos. 

No entanto, segundo o que percebi da regulamentação da lei, não está previsto que existam equipas e equipamentos adequados nos cine-teatros. Nem se consegue perceber muito bem como se concretizará. Assim como está, temo o pior. 

Fala-nos do Cinema Insuflável. De onde surgiu a ideia e como falharam os fundos europeus?

O Cinema Insuflável foi uma ideia que surgiu em 2017, para colmatar o défice de cinema para infância em Portugal, cinema de qualidade, cinema de todos os tempos. Uma sala itinerante, de rápida montagem e desmontagem, capaz de ser colocada em qualquer local, e que ofereça qualidade técnica para quem assiste aos filmes. O projeto foi logo um sucesso desde o arranque, em Junho de 2018. Fomos logos convocados para circular pelo pais, fizemos parcerias de programação com festivais do mundo inteiro.

Foi por isso que a Câmara Municipal vos chamou?

“O nosso azar foi o convite da CMPorto”

Sim. O nosso azar foi este convite do Município do Porto para entrarmos numa candidatura, como parceiros, a financiamentos do Fundo Social Europeu. Um autêntico pesadelo, desde o abandono técnico do Município do Porto, da falta de cuidado com a missão com o público-alvo, as crianças, até este desfecho dramático que nos obriga a perder um projeto que estava no seu auge. As regras destes concursos obrigam-nos a adiantar o dinheiro, fazer os pagamentos e posteriormente sermos reembolsados. Já passaram 14 meses e ainda não recebemos nenhum do dinheiro que metemos na ação. É uma situação absurda, uma pequena associação sem fins lucrativos, tem de pagar e financiar projetos do município, financiados pelo Fundo Social Europeu. Ainda por cima isto aconteceu em plena pandemia, onde toda uma equipa em trabalho, afeta ao projeto da câmara do Porto, trabalhou de graça sem possibilidade de ter acesso a apoios sociais ou disponibilizar-se para trabalhar em outra coisa. É criminoso e de uma crueldade estas posturas da Câmara Municipal do Porto e do Norte 2020.

Depois desta nossa experiência, já escrevi a todos a denunciar a situação e é preciso que os municípios e as CCDR tenham consciência desta situação. Não acredito que a nossa associação seja a única a sofrer com estas regras, com as demoras e com a falta de empatia. São financiamentos que não estão adequados à realidade. A nossa associação já teve financiamentos de todo o lado, incluído de fundos europeus, e nunca tivemos numa situação assim.

Também escrevi aos vereadores e presidente da Câmara Municipal do Porto e à direção da CCDR-NORTE a disponibilizar-me para esclarecer, do ponto de vista de uma associação beneficiária, como estes apoios são destruidores, em vez de cumprirem a sua função.

Perdemos todos, a associação, a cidade, as crianças, o cinema.

Com a crise pandémica, o mercado respondeu com uma entrega avassaladora ao streaming. O cinema sobrevive sem proximidade entre pessoas?

O Cinema é muita coisa. Claro que a experiência de sala de cinema é única e essencial, mas isso é a minha opinião pessoal, a minha experiência. Mas os tempos mudam, a forma de ver filmes mudou, e não acho que isso seja mau, é só mais uma forma de acessibilidade. De certeza que nunca se viu tantos filmes como agora, o que é muito valioso. A questão é se por termos tudo mais acessível, na internet e TV cabo, somos espectadores mais críticos e exigentes, se procuramos mais alteridade, se crescemos mais. Essa, para mim, é a questão.

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