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"A pressão da esquerda deve limitar ou reverter a precariedade nos vários níveis de investigação"

Publicamos a segunda parte da entrevista com José Maneira, responsável pelo grupo que estuda neutrinos no LIP, e um dos quatro investigadores da instituição premiados com o Breakthrough Prize para a física fundamental. Por Joana Louçã.
Foto de Claudio.Ar/flickr

O Prémio Breakthrough para a Física Fundamental de 2016 foi atribuído, entre outros, a quatro investigadores do LIP (Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas) pela participação da oscilação de neutrinos, que altera o modelo padrão da física de partículas. A primeira parte da entrevista pode ser lida aqui. Os colegas de José Maneira no LIP que também venceram o prémio são Nuno Barros, Sofia Andringa e Gersende Prior. Esta segunda parte da entrevista concentrou-se num diagnóstico da situação da investigação em Portugal e medidas que, para José Maneira, o governo do Partido Socialista e a esquerda têm de tomar ao longo dos próximos anos.

- Em Portugal não é fácil investigar, há uma grande precariedade laboral, associada a uma grande instabilidade orçamental que foi exarcebada nos últimos quatro anos, desta vez também ao nível dos próprios laboratórios, que tiveram os seus orçamentos cortados por avaliações que estiveram envolvidas em enorme polémica. Por outro lado, também houve, nos últimos quatro anos, uma grande redução do número de bolsas que foram atribuídas aos investigadores, acompanhado de uma percentagem do PIB que é muito menor em Portugal que nos outros países da Europa, por exemplo. Por outro lado, o prémio que receberam, é numa área muito inovadora da física, que recebeu o prémio Nobel da Física de 2015, é uma área que podemos dizer que é de ponta. E o vosso projeto acontece há 15 anos. Por isso que queria, por um lado, saber qual é a tua perspetiva sobre a forma como a investigação está a ser gerida em Portugal e como é que vocês conseguiram, ao longo de 15 anos, manter este trabalho?

Tenho de relativizar um bocadinho a nossa intervenção e dizer que a nossa participação nas experiências foi relativamente pequena, nós somos 4 pessoas no meio de quase 1400 que ganharam o prémio, quero por uma nota de alguma modéstia. E uma parte do trabalho vem de participação de pessoas de fora. No entanto, não é tudo mau. Mesmo as pessoas que estiveram fora [José Maneira realizou uma parte do trabalho pelo qual foi premiado no estrangeiro, uma parte em Portugal e Sofia Andringa e Gersende Prior realizaram o trabalho no estrangeiro], tiveram algumas condições para, tendo feito trabalho fora, reagrupar-se aqui [no LIP] em Portugal, à volta do novo projeto, o projeto SNO+, que é a expansão do SNO.

A expansão do sistema científico foi feita totalmente à custa da precariedade, mas houve um aumento do número de bolsas, em geral, ao longo dos últimos 15 anos, e um aumento do financiamento.

Em relação à política científica, houve todos esses cortes, mas, apesar de tudo nos últimos 10 a 15 anos, houve uma expansão do sistema científico. Sabemos que essa expansão foi feita totalmente à custa da precariedade, mas houve um aumento do número de bolsas, em geral, ao longo dos últimos 15 anos, e houve um aumento do financiamento.

Nos últimos 4 anos isso baixou. Baixou o financiamento e baixou o número de bolsas. E isso criou dificuldades aos grupos que já existem. O nosso grupo começou a estabelecer-se e estabeleceu-se antes disso, há 10 anos atrás, quando houve um certo boom, quando Mariano Gago era Ministro do Ensino Superior e Ciência, no primeiro governo de Sócrates.

Burocracia, atrasos e imprevisibilidade

Em relação às dificuldades que temos, creio que são de dois tipos. Em termos de participação maior ou mais estável, podias fazer melhor com o mesmo dinheiro? Certamente que sim. Uma das questões é o tipo de burocracia que temos em Portugal e os enormes atrasos da FCT. Qualquer tipo de projeto, qualquer tipo de avaliação demora pelo menos um ano desde que há um concurso até que se possa gastar o dinheiro. O resultado disso é que só as instituições muito fortes e que tenham capacidade de encaixe é que podem suportar e que podem apoiar os projetos.

Qualquer tipo de projeto, qualquer tipo de avaliação demora pelo menos um ano desde que há um concurso até que se possa gastar o dinheiro. O resultado disso é que só as instituições muito fortes e que tenham capacidade de encaixe é que podem suportar e que podem apoiar os projetos.

Nós tivemos o apoio do próprio laboratório, não sei se é regra geral no panorama da investigação em Portugal, mas no nosso laboratório quando não havia dinheiro de projetos, ou quando o dinheiro estava muito atrasado por parte da FCT, éramos apoiados para fazermos algumas despesas essenciais. No entanto, não é maneira de gerir as coisas.

Outro ponto essencial da questão é a estabilidade. Mesmo quando há concursos, não sabemos quanto podemos gastar, quando o podemos gastar. Durante os últimos anos, nem sabíamos se ia haver concursos. Por isso, é impossível uma pessoa programar aquilo que quer fazer, se pode, ou não, chamar estudantes, se pode, ou não, assumir alguns compromissos. Por exemplo, numa colaboração, saber se pode construir esta peça ou aquela é essencial, temos de saber com o que contar, assim é muito difícil fazer planos. Por isso, a nossa participação também foi sendo aquilo que íamos conseguindo fazer.

Precariedade e impacto nos investigadores mais jovens

Outra coisa que também reparei e que é nefasta, nos últimos anos, é o efeito que a política científica está a ter nas pessoas mais novas. De alguma forma, tanto eu como as minhas colegas, somos investigadores, ou já temos contrato de investigador FCT, com mais ou menos precariedade, já estamos dentro da carreira de investigação. Mas esta situação em que não se sabe quando é que vão abrir os concursos de bolsas é terrível.

A fuga dos estudantes interessados para o estrangeiro é grande. Isso demorará algum tempo até eventualmente se reverter.

Além disso, os concursos de investigador FCT são concursos de 5 anos e parece que deixou de haver a figura de investigador permanente. Quando digo permanente, com um contrato permanente, não é que não haja avaliação, mas a partir de um determinado número de anos, não podemos estar sempre a fazer concursos. Isto são perspetivas de governo e que influenciam as decisões de qualquer estudante que esteja a considerar se quer fazer uma pós graduação, ou um doutoramento em Portugal ou no estrangeiro. A maioria das pessoas, se tiverem possibilidade para isso, prefere ir para o estrangeiro. Portanto, das bolsas e a precariedade também têm efeitos na diminuição do número de estudantes interessados. A fuga para o estrangeiro é grande. Isso pode ser difícil de reverter, demorará algum tempo até eventualmente se reverter.

- Vai haver um governo do PS apoiado pela esquerda no parlamento. Que tipo de medidas achas que devia tomar sobre a investigação? O que está no acordo entre os quatro partidos é a conversão das bolsas de pós doutoramento em contratos de trabalho, mas ainda não há nenhuma palavra sobre percentagens de investimento, por exemplo.

Por um lado, essa medida é uma justiça bastante elementar, já devia ser assim há muito tempo. Outras medidas importantes seriam a implementação de estabilidade e previsibilidade no financiamento e nos procedimentos, o que é imprescindível, independentemente de qualquer aumento, ou não, no financiamento total.

Os contratos para pós doutorandos são uma justiça bastante elementar. Outras medidas importantes seriam a implementação de estabilidade e previsibilidade no financiamento e nos procedimentos.

Penso também que, para termos uma avaliação rigorosa, é preciso termos especialistas das várias áreas. Se tivermos um sistema de financiamento muito disperso, acabamos por não ter especialistas a avaliar os vários painéis e isso também cria efeitos perversos. Atualmente, temos concursos doutorais, pós doutorais, as avaliações dos centros, os concursos para para projetos, e para cada um destes concursos são precisos especialistas para avaliar os projetos que se candidatam. É uma dispersão e uma despesa bastante grande, sendo que o que acaba por acontecer é que não há especialistas das várias áreas.

Tem de haver uma racionalização, uma unificação do procedimento dos concursos para que haja sempre especialistas a avaliar. Acho que do ponto de vista de uma racionalização administrativa do sistema, isso faria sentido, a terminaria com a dispersão atual e perda de tempo dos investigadores, que fazer projetos e a repetir as mesmas coisas e da própria FCT, que tem de gerir vários concursos ao mesmo tempo.

Carreira de técnico laboratorial

Muitas vezes é dito que em Portugal o número de investigadores é tão grande, ou maior que noutros países, o número de investigadores per capita. No entanto, o número de pessoas a trabalhar no sistema científico não é nem de perto nem de longe igual. O que acontece é que muitas vezes temos investigadores a fazerem trabalho que não é de investigador, porque são técnicos. Não há, no sistema científico, carreiras para técnicos ou para administrativos.

Deveria haver um enquadramento de pessoas em carreiras técnicas, mas com carreiras estruturadas. As pessoas preferem ir trabalhar para a indústria, ou fazer outra coisa, ou mesmo fazer doutoramentos, se a alternativa é ir de bolsa técnica em bolsa técnica. Acho que é preciso reequilibrar isso e voltar a pensar, como havia antigamente, em haver carreiras de técnicos também.

Carreira de investigador e avaliações

Do ponto de vista da investigação, é preciso voltar a dar estabilidade e dignidade à carreira. Se estamos à espera que os “excelentes” e os “melhores”, como gostam de propagandear, queiram vir para Portugal para ter contratos de 5 anos e estar a concorrer de 5 em 5 anos, isso não faz sentido.

Acho importante aproveitar a oportunidade histórica de um governo com o apoio da esquerda para avançar na questão da estabilidade. Os governos do Partido Socialista tiveram um papel muito importante na expansão do sistema, mas também nunca se importaram com a questão da precariedade, que foi uma das ferramentas de expansão do sistema.

O que não quer dizer que seja uma balbúrdia e que se contrate toda a gente e que as pessoas não sejam avaliadas. Cada vez que mandamos um artigo para uma revista, cada vez que submetemos um projeto para aqui ou para ali, cada vez que dentro das próprias colaborações internacionais, nos propomos a fazer isto ou aquilo, estamos constantemente a ser avaliados. A ideia não é dizermos que não queremos avaliação, mas sim essa avaliação servir para verificar se a pessoa fez o seu trabalho. E se sim, mantém o seu lugar de trabalho.

Atualmente, ao fim de 5 anos vamos para a rua e temos de voltar a competir com o mundo inteiro para manter o nosso lugar. Isso é injusto para as pessoas e não é forma de manter as pessoas a querer, não só estar em Portugal, mas contribuir e investir de forma mais continuada na própria estrutura de investigação. Alguém que sente que tem uma ligação forte à sua instituição, fica a pensar num horizonte de longo prazo e quer construir qualquer coisa.

Acabar com a precariedade

Finalmente, acho importante aproveitar a oportunidade histórica de um governo com o apoio da esquerda para avançar na questão da estabilidade. Os governos do Partido Socialista tiveram um papel muito importante na expansão do sistema, mas também nunca se importaram com a questão da precariedade, que foi uma das ferramentas de expansão do sistema. A pressão da esquerda para limitar ou reverter a precariedade nos vários níveis será muito importante.

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Sobre o/a autor(a)

Doutorada em sociologia da infância
Termos relacionados Ciência, Cultura
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