Os três presos do grupo Palestine Action que se mantinham em greve de fome anunciaram esta quarta-feira o fim deste protesto, ao verem cumpridas uma das suas reivindicações centrais: a não atribuição de um contrato público ao ramo britânico da Elbit Systems, fabricante de armamento israelita que desde 2012 obteve mais de uma dezena de contratos do Ministério da Defesa britânico.
Solidariedade
Esquerda lança petição europeia para acabar com acordo de associação UE-Israel
Segundo o Guardian, o contrato em causa estava avaliado em cerca de 2.300 milhões de euros e envolveria a formação de 60 mil militares do Reino Unido a cada ano.
“A greve de fome dos nossos prisioneiros será lembrada como um momento marcante de resistência pura, uma vergonha para o Estado britânico. Ela expôs ao mundo que o Reino Unido tem prisioneiros políticos a serviço de um regime genocida estrangeiro e levou centenas de pessoas a comprometerem-se a empreender ações diretas na esteira dos prisioneiros”, afirmou o grupo Prisoners for Palestine.
Os ativistas do Palestine Action desenvolvem há anos iniciativas de ação direta não-violenta com o objetivo de encerrar a atividade da Elbit Systems no seu país. Para isso têm ocupado fábricas da filial da empresa israelita, bloqueado os acessos e perturbado o seu funcionamento. Em resposta, o governo britânico resolveu proibir o grupo ao abrigo da Lei do Terrorismo de 2000, com os ativistas presos a arriscarem penas pesadas de prisão. Nas manifestações de solidariedade, centenas de pessoas foram detidas e identificadas por terem cartazes a afirmar o apoio ao Palestine Action.
“Só nas últimas semanas, 500 pessoas inscreveram-se para realizar ações diretas contra o complexo militar-industrial genocida, mais do que o número de pessoas que participaram na campanha de cinco anos da Palestine Action. Durante essa campanha, quatro fábricas de armas israelitas foram encerradas. A Elbit Systems tem os dias contados – vamos vê-la encerrar definitivamente, não por causa do governo, mas por causa do povo”, afirma o grupo Prisoners for Palestine.
No início de novembro, oito dos detidos preventivamente, sem acusação nem julgamento, iniciaram uma greve de fome. Esta quarta-feira eram três os que prosseguiam o protesto: Heba Muraisi, de 31 anos, estava no 73º dia de greve de fome, o mesmo número de dias do republicano irlandês Kieran Doherty, aquele que sobreviveu mais tempo entre o grupo de 10 grevistas da fome mortos nas prisões britânicas em 1981; Kamran Ahmed, de 28 anos, cumpria o 66º dia de greve de fome, tantos quantos Bobby Sands quando morreu; e Lewie Chiaramello, de 22 anos, que sofre de diabetes de tipo 1 estava no 46º dia em greve de fome em dias alternados. Nas últimas semanas multiplicaram-se os apelos à intervenção do Governo face ao risco de morte iminente de Heba e Kamran, quer por parte de mais de meia centena de deputados, quer por parte de escritores e académicos de todo o mundo.
Palestine Action
Peritos da ONU exigem a Starmer a salvaguarda das vidas e dos direitos dos grevistas da fome
Além da não atribuição do contrato público, os presos do Palestine Action viram outras reivindicações atendidas com esta greve de fome. O governo começou por recusar qualquer diálogo, mas na semana passada houve um encontro entre representantes dos grevistas da fome e autoridades de saúde prisional em nome do Ministério da Justiça para discutir o tratamento médico de que necessitam durante o protesto e no processo delicado de realimentação após o fim da greve de fome. A transferência de uma das prisioneiras para uma cadeia perto da zona de residência foi outra conquista, bem como a promessa de uma reunião com o responsável da unidade anti-extremismo, que classifica os ativistas como terroristas. O Prisoners for Palestine diz ainda que durante a greve da fome os prisioneiros começaram a receber grande volume de correspondência que antes lhes era negada, e até mesmo um pedido de desculpa a um dos presos pelo atraso de seis meses na entrega de uma carta. As autoridades prisionais também concederam acesso a livros sobre temas relacionados com Gaza e o feminismo, ao fim de meses de insistência.