A proposta foi apresentada este sábado por Pablo Casado em Cartagena, no encerramento da Convenção do Partido Popular sobre Família e Igualdade. Para além de reafirmar a sua oposição à lei do aborto, argumentando que é preciso combater o “inverno demográfico”, o PP avançou com a proposta de atrasar o processo de expulsão das mulheres migrantes sem papéis que deem os seus filhos para adoção a casais espanhóis.
A proposta foi recebida com indignação pela esquerda e as associações de migrantes em Espanha. Para o presidente da Rede Espanhola de Imigração e Ajuda ao Refugiado, Daniel Méndez, “esta reforma é repugnante e inconstitucional”, pelo que o atual governo do PSOE deveria condená-la e confirmar a sua ilegalidade “de forma imediata”.
A reação do governo surgiu pela voz do ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, ao afirmar que a proposta do PP mostra bem a ideia que os populares têm “dos direitos da mulher e dos direitos humanos”, para além de fazer lembrar “a Espanha dos anos 60”, quando “as instituições se ditigiam às mulheres em condições económicas ou sociais difíceis que tinham de separar-se dos seus filhos”. Trata-se pois, segundo Grande-Marlaska, de acentuar “a desigualdade como elemento discriminatório”.
Uma das reações mais críticas veio da alcaldesa de Barcelona: “Machistas. Racistas. Classistas. Só faltava sequestradores de crianças. Fascistas. Toda a pessoa democrata deve votar nas próximas eleições para impedir que esta gentalha possa chegar ao poder”, escreveu Ada Colau no Twitter.
Machistas. Racistas. Clasistas.
Sólo faltaba secuestradores de niños. Fascistas.
Toda persona demócrata debe votar en las próximas elecciones para impedir que esta gentuza pueda llegar al poder. https://t.co/MjxwUzGhhP— Ada Colau (@AdaColau) 13 de março de 2019
A notícia despertou de imediato nas redes sociais a comparação com o enredo da popular série televisiva norte-americana “Handmaid’s Tale”, baseada no livro de Margaret Atwood, editado em português pela Bertrand com o título “A História de Uma Serva”. Na história, extremistas religiosos de direita tomam o poder e transformam os Estados Unidos num estado policial, obrigando as mulheres férteis a conceber filhos para a elite estéril.
A porta-voz adjunta do Podemos no Congresso, Ione Belarra, espanhol foi uma das pessoas a sublinhar a semelhança da série com a proposta do PP.
Pablo Casado y el PP quieren convertir España en el país del Cuento de la Criada.
Ya verás cuando se entere de que las mujeres no nos vamos a tirar piedras entre nosotras.
¡Basta ya! pic.twitter.com/SKdgIjF38O
— Ione Belarra (@ionebelarra) March 14, 2019
Reagindo à polémica, fontes do PP citadas pelo El Periódico afirmam que o adiamento da expulsão não seria para toda a vida, mas apenas durante o momento da gestação. “Assim que o dê para adoção vai-se embora e ponto final. Mas se a param numa rusga e a expulsam, não lhe vale de nada a desculpa da adoção”, tal como acontece hoje, afirmaram as mesmas fontes, acrescentando que a medida já é implementada na Comunidade de Madrid, atualmente gerida pelo PP.
Para a juíza e ex-deputada do Podemos Victoria Rosell, essa é uma desculpa que “não cola”, uma vez que a atual lei já impede a expulsão de mulheres grávidas.
A quienes nos “explican” a las ignorantes feministas que la propuesta es “solo” no expulsar temporalmente a las embarazadas en proceso de adopción, y después sí, quedándonos a su hijo/a: solo recordar que el art 56.6 de la LOEx impide la expulsión de embarazadas.
No cuela.— Victoria Rosell (@VickyRosell) March 14, 2019