Português com familiares encurralados em Rafah apela ao Governo e Marcelo: "Salvem-nos, já!

21 de fevereiro 2024 - 21:24

João Tomás Bossa, cidadão português a residir no Luxemburgo, contou ao Esquerda.net o seu desespero com a falta de resposta das autoridades portuguesas ao pedido de evacuação dos seus familiares ante o iminente ataque israelita a Rafah.

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João com o sobrinho Ali.
João com o sobrinho Ali.

Qual é a situação atual dos vossos familiares? Quem são e o que lhes aconteceu desde o início dos bombardeamentos e invasão israelita?

Estamos a falar de 20 pessoas: o meu sogro Mahmoud (69 anos) e a três sub-famílias: a primeira, o meu cunhado Ahmed (39 anos) – irmão da minha esposa – e a sua mulher Rajaa (32 anos) e os meus 5 sobrinhos Mohammed (10 anos), Retaj (9 anos), Wafaa (6 anos), Mahmoud (5 anos) e Ghazal (bebé de apenas 11 meses, que tem problemas de saúde graves desde que nasceu e que depende para viver de medicamentos específicos que neste momento escasseiam); a segunda, a minha cunhada Hanan (33 anos) – irmã da minha esposa – e o seu marido Morad (33 anos) e os meus 3 sobrinhos Ali (7 anos), Shahed (4 anos) e Mohammed (3 anos); e a terceira, a minha cunhada Zakia (39 anos) – mulher de um outro irmão da minha esposa, Bahaa, que se encontra neste momento a viver na Bélgica e que desespera diariamente por não estar perto da sua família – e os meus 6 sobrinhos Mahmoud (19 anos), Mohammed (17 anos), Farah (15 anos), Rateel (11 anos), Ahmed (6 anos) e Hanan (2 anos)

A minha família é natural de Khan Yunis, muito perto da fronteira com Israel. Por esse motivo e desde o início deste massacre em Outubro de 2023, tiveram de se refugiar numa escola das Nações Unidas, ainda em Khan Yunis mas mais perto do mar e junto ao hospital Al Nasser (que nos dias que correm é palco dos mais hediondos crimes por parte das tropas de Israel). Eles ficaram abrigados nesta escola até ao início deste ano de 2024. Apesar de tudo estar destruído à volta da mesma, felizmente não foi, àquela altura, alvo direto de Israel. Mas nunca foi verdadeiramente um local 100% seguro, partes da escola foram destruídas e todas janelas ficaram com os vidros partidos.

Quando no inicio de 2024, o exército israelita começou a invadir e a massacrar tudo e todos em Khan Yunis, não lhes restou outra solução senão pegarem no pouco que ainda tinham e dirigirem-se mais a sul para Rafah, como aliás muitas outras famílias palestinianas foram forçadas a fazer. Sem saber bem para onde ir, encontraram abrigo numa área com um terreno aberto e lá fizeram como os outros e construíram as tendas onde hoje ainda (sobre)vivem. Para além da fome e sede, não existem quaisquer condições de higiene básicas dignas de qualquer ser humano. É horrível e tem sido pior, pois há umas semanas choveu imenso e a água tornou o terreno em lama e quase que destruiu as tendas onde viviam. Agora a área onde estão está ainda sobrelotada e começam já a sentir que os bombardeamentos estão cada vez mais perto – o medo e o pânico começa a criar ainda mais ansiedade pois agora já não há mais local para onde ir.

Hanan, cunhada de João, com os filhos Ali, Shahed e Mohammed.

Por outro lado, temos notado que os níveis de energia estão no limite, eles não têm mais força para viver este pesadelo. Estão cansados, muito cansados. A única razão que não os faz desistir completamente são os seus filhos que, na ingenuidade típica de uma criança, são mesmo os únicos capazes de ainda sorrir de vez em quando. É desesperante… Ainda assim e sempre que nos conseguem ligar, são eles que nos confortam e dizem para não estarmos chateados ou tristes. São eles que limpam as nossas lágrimas por não podermos fazer mais por eles. Isto diz muito da dignidade e integridade dos meus queridos familiares. Eles são um exemplo de resiliência e de amor pelo próximo – eu nunca irei desistir de os salvar.

Desde outubro que procura contactar com as autoridades portuguesas para os retirar de Gaza. Como foram feitos esses contactos e que resposta tiveram?

Sim, ainda em Outubro e completamente desesperado, liguei para o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) e consegui obter cinco emails do ministério. Comecei a enviar longos emails com pedidos de ajuda urgentes, tendo em conta aquilo que íamos vendo na televisão. Fi-lo inicialmente todas as semanas, até que chegou a um ponto que fi-lo todos os dias, enviando inúmeros emails e passei a ligar várias vezes ao dia sem parar, mas sempre de forma construtiva e respeitosa.

Praticamente todos os funcionários do MNE conhecem já a minha história e posso afirmar que são muitos deles que me dão força para continuar. Dizem que têm orgulho naquilo que eu tenho feito para salvar a minha família e, sobretudo, para nunca desistir. Agradeço muito aos funcionários da linha de apoio do Gabinete de Emergência Consular pela sua humanidade. São eles que ainda se emocionam com as minhas palavras e são eles que ainda têm paciência para que muitas vezes, seja de noite ou de dia, sejam apenas ouvintes pois, eles também estão dependentes de respostas que os seus superiores não lhes dão. Este facto sinto que os deixa impotentes.

De forma bastante clara, posso afirmar que os meus inúmeros emails e perguntas nunca foram verdadeiramente respondidos. A única resposta oficial que obtive foi há muito tempo, em finais de dezembro, onde me asseguraram que Portugal está a fazer todos os esforços para o resgate de, entre outros, familiares de cidadãos portugueses. Indicaram ainda que o processo de resgate é complexo e depende da análise das autoridades locais para averiguarem a legitimidade das pessoas candidatas a serem salvas. Desde aí, as minhas centenas de emails são quase um monólogo onde nenhuma atualização ou informação adicional me é dada. Já fiz centenas, senão até milhares, de perguntas e nunca obtive qualquer resposta para além da já dada em dezembro de 2023. Ainda hoje envio emails ao MNE todos os dias e irei fazê-lo até que os meus 20 familiares estejam a salvo.

Além do governo português, tentaram outras vias para conseguir o salvo- conduto?

Eu confesso que até ter tido a recente experiência do meu sogro e da minha sogra, eu desconhecia por completo o documento salvo-conduto. A minha sogra foi efetivamente salva e esse documento foi muito importante, mas por exemplo o meu sogro, apesar de Israel lhe ter recusado sem justificação nenhuma que ele pudesse sair por Rafah, foi-nos dado o salvo-conduto emitido pelas autoridades portuguesas, mas nós não sabemos pois ninguém nos explica se este facto simplifica o seu processo. Mas primeiro Portugal tem de o fazer sair. É horrível não ter respostas.

A bebé Ghazal, sobrinha de João, aqui numa foto tirada em Rafah, tem problemas de saúde e necessita de medicação específica para viver.

Também desde o inicio de outubro de 2023 e tendo em conta que vivemos  no Luxemburgo, contactámos as autoridades luxemburguesas, as quais desde logo deixaram claro que nada poderiam fazer, pois o Luxemburgo não tem embaixadas em nenhum dos  países da região. Ainda assim, tivemos uma audiência no MNE do Luxemburgo com responsáveis da área de política internacional e da área consular, que nos garantiram que iriam procurar cooperar com o MNE de Portugal para influenciar de alguma forma o resgate da minha família - nada nos foi dito até à data. Na prática, percebemos que a nossa energia não podia estar focada no Luxemburgo pois, como é infelizmente o caso de pessoas que conhecemos que também eles têm familiares presos em Gaza, nada acontece por esta via e não há forma prática de o Luxemburgo nos ajudar. O Luxemburgo tem ainda muito para aprender a este respeito e a lição a aprender com tudo isto é certamente que no futuro terão de ter embaixadas nesses países.

Tem conhecimento de outras situações semelhantes de familiares de cidadãos da UE que procuram sair de Gaza com o apoio dos respetivos governos? Qual tem sido a resposta nesses casos?

Não. Excluindo as pessoas que referi aqui no Luxemburgo, desconheço alguém que por exemplo já tenha conseguido salvar os seus familiares através de um outro país da UE.

Desde finais de Dezembro, comecei a ter acesso às listas diárias de pessoas autorizadas a sair de Gaza através da fronteira de Rafah, graças ao canal Rafacrossing no Telegram. Excluindo as evacuações de feridos que também são publicadas, comecei a fazer e mantenho uma contabilização básica de quantas pessoas saem e de quais os respetivos países requerentes. Ficou bem claro para mim, sobretudo nas últimas semanas, que está a existir um evidente bloqueio específico a Portugal e a Espanha, pois praticamente todos os outros países europeus estão a conseguir salvar pessoas mais do que uma vez e, apenas estes dois países que até são dos mais solidários com a causa palestiniana, é que não.

Wafaa (esposa de João, à direita) com os seus pais Mahmoud e Amna (entretanto salva por Portugal)

E do meu lado, eu bem sei o quanto tenho lutado junto do MNE para ver os meus familiares fora de Gaza, por isso não será por ausência de casos que algo não está a acontecer. Creio que este bloqueio justifica a ausência de resposta por parte do MNE português. Pura e simplesmente, não me pode responder a verdade e admitir com isso que Israel está tornar impossível quaisquer pedidos de resgate por parte de Portugal (e de Espanha). E porquê? Desconfio que tudo está relacionado com as declarações em nada alinhadas com a linha sanguinária do governo de Israel, por parte de António Guterres, o vice-presidnete da UE Josep Borrell e o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez.

Por outro lado, assumindo que esse bloqueio e discriminação por parte de Israel existem, porque razão Portugal não está a fazer aquilo que ainda pode ser feito na esfera diplomática para contrariar esse facto horrendo e até mesmo infantil (como por exemplo, o corte de relações diplomáticas com Israel e até eventualmente a expulsão do seu embaixador em Portugal)? Ou expor esta discriminação junto dos seus parceiros europeus que têm sido eles próprios capazes de, felizmente, evacuar um grande número de pessoas inocentes, enquanto que Portugal (e Espanha) não o tem conseguido fazer? Que união existe entre os países da União Europeia? Tudo isto são perguntas às quais o MNE ainda não me respondeu… E eu nem preciso até que o façam, eu só preciso que a minha família seja salva urgentemente, nada mais.

Que mensagem gostaria de deixar ao primeiro-ministro e ao Presidente da República de Portugal?

Acabem com o sofrimento dos meus 20 queridos familiares de uma vez por todas. Sejam corajosos politicamente e lutem contra tudo e contra todos aqueles que não vos deixam salvar a minha família. Não sejam parciais ou inertes na procura de soluções práticas que possam salvar-lhes as suas vidas… a maioria deles são crianças. É urgente, muito urgente - ontem, já era tarde de mais.

João e a sobrinha Shahed.

Estejam conscientes de que ficar à espera do amanhã sem nada fazer equivale ao mesmo do que cometer os diários crimes de violência a que todos assistimos confortavelmente nos nossos sofás. Não agir de forma humana com qualquer pretexto político de que tudo isto é muito complexo e complicado, é nada mais do que contribuir para legitimar mais sangue de vidas inocentes sem nenhuma razão para tal… Nada justifica a morte de pessoas inocentes - e já são já perto de 30.000 que se perderam neste massacre. Nada, mas mesmo nada, justifica que crianças e bebés sejam assassinados aos olhos de todos nós sem que façamos algo – e já são perto de 15.000 inocentes que viram as suas vidas interrompidas sem razão, sem significado, sem qualquer misericórdia.

Quantas mais vidas serão suficientes para Vossas Excelências saírem detrás das vossas secretárias e entenderem que a diplomacia faz-se de modo ativo e no confronto sério de posições e na defesa dos valores básicos de cada país? O silêncio do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal tem tornado aceitável o injustificável…. A apatia demonstrada na ausência de soluções em salvar a minha família é assustadora. Assisto a uma “não estratégia” que torna os crimes em massa a que todos os dias assistimos, em meros números sem significado e torna-nos a todos ser humanos capazes de uma frieza arrepiante pois os nossos corações já não sentem nada.

Já não sentimos nada quando ouvimos uma criança a chorar desesperada e a gritar socorro, a pedir ajuda urgente que nunca irá chegar e a alertar que se encontra trancada num carro dos pais que acabaram de ser assassinados… Já não sentimos nada, quando fazemos scroll down em mais um post do TikTok/Instagram onde vemos um pai a chorar e a gritar desalmadamente a Deus pois não percebe o porquê de lhe assassinarem brutalmente toda a sua família enquanto se deslocou apenas uns minutos para comprar pão… já não sentimos nada.

João e o cunhado Ahmed, irmão da sua esposa.

Tudo isto terá um preço no futuro de todas as sociedades do mundo, incluindo no nosso país de brandos costumes e à beira mar plantado. Não se deixem iludir… para além daquilo que nossos olhos observam no horror em que Gaza se tornou, há uma guerra silenciosa que é ainda mais brutal… é a guerra contra a nossa dignidade como seres humanos e como cidadãos de um país europeu soberano que nada deve a ninguém e do qual todos devemos ter muito orgulho. Em momentos específicos da nossa história soubemos estar do lado certo dos princípios humanos que nos caracterizam como portugueses – relembro, neste contexto, na libertação e luta pela independência de Timor-Leste e, sobretudo, o enorme exemplo de Aristides de Sousa Mendes que salvou a vida a mais de 30.000 pessoas desafiando a lei vigente naquela altura mas honrando a regras mais básicas de humanidade. Precisamos hoje urgentemente de muitos outros “Aristides” – sejam Vossas Excelências os heróis que tudo fazem para salvar a todo o custo a vida de pessoas inocentes.

Os meus familiares não são números, eles ainda têm os rostos da esperança que Vossas Excelências os irão salvar… que o nosso Portugal ainda os irá salvar. Por favor, não os desapontem. Eles amam Portugal, naturalmente através de mim, mas neste momento eles precisam de um milagre por parte de Portugal, da mesma forma que eu preciso da vossa intervenção urgente – eu, como orgulhoso cidadão português, preciso do vosso compromisso de que os vão salvar. Como cidadão português, exijo que tudo façam para que isso efetivamente aconteça.

João com os sogros Mahmoud e Amna (entretanto salva por Portugal)

Não existem duas escolhas possíveis, mas apenas uma: ou querem que os meus queridos familiares continuem vivos e vão salvá-los imediatamente ou querem que todos eles morram nos já muito anunciados bombardeamentos que Israel se prepara para fazer em Rafah… a escolha é vossa. Escolham o lado que a vossa consciência vos permite dormir descansados e, como ser humanos que são, vos dita que é o lado certo de toda esta história. Apenas o tempo ditará se fizeram ou não a escolha certa. Mas nunca se esqueçam de algo: hoje é a minha família que sofre mas podia até ser a vossa. Não vos desejo o mesmo sofrimento. É horrível. Eles estão a sofrer e estão muito, mas mesmo muito, exaustos… Eles não podem sofrer mais… entendam isto de vez, por favor. Salvem-nos… é apenas isto que vos peço. Salvem-nos, já!