Portugal é dos países da UE com maior dependência energética

29 de março 2022 - 9:16

Apesar de ser dos países menos dependentes dos combustíveis fósseis russos, Portugal continua a pagar caro o atraso na transição energética em setores como os transportes ou a habitação.

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Terminal de gás natural liquefeito da Galp em Sines. Foto de João Relvas/Arquivo Lusa

A política energética saltou para o centro do debate público nas últimas semanas. A subida dos preços do petróleo, da eletricidade e do gás, sobretudo após o início da invasão da Ucrânia por parte do exército russo, reavivou a discussão sobre a proveniência das diversas fontes de energia e a dependência da Europa face aos combustíveis fósseis importados da Rússia.

Apesar do foco estar sobretudo na dependência energética da União Europeia como um todo, as realidades nacionais são bastante distintas. De acordo com os dados do Eurostat, citados pela DW, os países mais dependentes do gás natural russo são os do Leste europeu (Hungria, Moldávia, Letónia ou Eslováquia), sobretudo devido à proximidade geográfica. Países como a Alemanha e a Itália também importam da Rússia uma fração substancial do gás que consomem. Já Portugal, Espanha ou França são dos que menos dependem dos combustíveis fósseis russos.

No entanto, isso não significa que a estes países sejam menos dependentes do exterior no que toca à energia. Os números do Eurostat mostram que Portugal era, em 2020, o 11º país da União Europeia com maior dependência energética face ao exterior, encontrando-se acima da média europeia neste indicador. Se olharmos para 2019 (um ano com um consumo energético mais próximo do que era normal, visto que em 2020 os sucessivos confinamentos provocaram disrupções ao nível do consumo), Portugal era o 9º país mais dependente do exterior.

Isso reflete o facto de o país importar a totalidade do petróleo e do gás natural que necessita para produzir combustíveis (como a gasolina e o gasóleo que são produzidos na refinaria da Galp) e para a utilização em diversas atividades industriais. Antes do fecho das centrais de Sines e do Pego (no final do ano passado), Portugal importava também carvão.

Apesar de Portugal ser um país onde as energias renováveis têm grande potencial, devido a fatores geográficos e climatéricos, a produção destas energias ainda está longe de ser suficiente para evitar a importação de combustíveis fósseis. Por um lado, há várias atividades que requerem a utilização destes combustíveis; por outro, o país tem feito progressos insuficientes na promoção da transição energética.

Há duas áreas em que isso é particularmente evidente: os transportes e a habitação. Nos transportes, o atraso na expansão e eletrificação da ferrovia, além do investimento insuficiente em transportes públicos, leva a que boa parte da população esteja ainda dependente dos automóveis para ir trabalhar. Em relação à habitação, Portugal é dos países que menos progressos fez no que diz respeito à eficiência energética dos edifícios, que permitiria reduzir substancialmente o consumo de energia no aquecimento/arrefecimento das casas. Na verdade, Portugal é o país da UE que menos energia poupa nas habitações.

Como se percebe, o investimento público nestas duas áreas cumpriria uma dupla função: promover o combate às alterações climáticas e reduzir as importações nacionais, contribuindo para melhorar o saldo da balança comercial do país.

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