Fórum Socialismo 2024

Política, revolução e resistência: pode a memória ser uma ferramenta de transformação social?

31 de agosto 2024 - 10:30

Nesta sessão do Fórum Socialismo 2024, Luís Monteiro e Miguel Cardina partem da Revolução dos Cravos para explorarem as potencialidades da memória enquanto motor de transformação.

por

Luís Monteiro e Miguel Cardina

PARTILHAR
Luís Monteiro e Miguel Cardina
Fotografias via Facebook dos próprios

A sociedade portuguesa comemora agora o 50.º aniversário da Revolução dos Cravos. O primeiro dia do resto das nossas vidas, como Sérgio Godinho a eternizou, representa hoje um campo de batalha na memória coletiva contemporânea. A efeméride acontece num novo quadro da vida coletiva do país. A agenda ultra conservadora e fascizante, protagonizada pela nova extrema-direita, tem-se pautado pelo ressurgimento de um conjunto de debates sobre o passado português e o seu papel no mundo. Até que ponto o legado do pensamento fascista do Estado Novo e a herança colonialista ainda são passados controversos na cultura portuguesa contemporânea?

Passados meio século do 25 de Abril, a relação entre memória e democracia não pode ser apenas uma relação de evocação celebratória. O facto de boa parte da população portuguesa já ter nascido depois da rutura com a ditadura e o colonialismo não nos deve fazer esquecer dois elementos fundamentais.

Em primeiro lugar, a democracia portuguesa é uma construção herdeira desse corte político, a que aliás a Constituição de 1976 deu corpo, e é por isso que a análise da ditadura, da democracia, da revolução, da guerra e do colonialismo permanecem objeto de intensas disputas interpretativas e de tentativas de reescrita historiográfica. Em segundo lugar, a memória é uma forma de interpelar o presente e de abrir possibilidades para outros futuros. Pensemos por exemplo nos múltiplos debates em torno do passado colonial nos últimos anos: eles mostram-nos como a descolonização não foi apenas o nome de um processo encerrado, mas uma exigência para lidar responsavelmente com um passado que continua vivo.

Ao mesmo tempo que se ressuscitam fantasmas do passado, as políticas públicas foram dando alguns passos no sentido de salvaguardar essa memória da resistência e da revolução. É o caso da criação de museus como Aljube, Peniche (Portugal) e ainda a patrimonialização da cadeia do Tarrafal (Cabo Verde). Nesta paisagem memorial controversa e pejada de contradições sociais, disputa-se em Portugal um combate histórico onde a memória coletiva, ora permite a perpetuação de desigualdades e de um clima estruturalmente conservador, ora enaltece a obra coletiva emancipatória que foi a Revolução dos Cravos.