Petrolífera francesa acusada de abastecer aviões de guerra russos

25 de agosto 2022 - 14:06

Uma investigação do Le Monde e da ONG Global Witness acusa a petrolífera TotalEnergies de deter uma jazida cujo gás é depois transformado em combustível para os aviões que bombardeiam a Ucrânia.

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Imagem TotalEnergies

Em causa estão as jazidas na Sibéria da empresa Terneftegaz, detida a 49% pela petrolífera francesa TotalEnergies. Mais concretamente a de Termokarstovoïe, de onde é extraído um hidrocarboneto líquido que é depois transformado em combustível para aviões e enviado para bases militares russas de onde saíram os aviões de combate Soukhoï que bombardearam cidades como Mariupol e Kharkiv.

Perante as acusações de que está a ajudar o esforço de guerra russo, a TotalEnergies responde que o condensado de gás produzido pela Terneftegaz não é um combustível e que a refinaria onde o produto é depois transformado não lhe pertence. Em editorial, o Le Monde pergunta: "Como é que os seus dirigentes podem defender que não têm nada a ver com a transformação do condensado de gás quando detêm 19% da sociedade Novatek, proprietária da fábrica onde ela é feita? E como podem afirmar que a Novatek não está ligada ao Estado russo, quando um dos seus principais acionistas é um familiar de Vladimir Putin alvo das sanções ocidentais?"

A atividade da TotalEnergies na Rússia passou a estar debaixo da atenção de várias ONG desde o início da invasão à Ucrânia. Em março, a Greenpeace França e os Amigos da Terra condenavam a posição da empresa em manter os seus negócios, numa altura em que as principais petrolíferas mundiais anunciavam a retirada da Rússia. E acrescentavam que a presença da petrolífera francesa em países em conflito ou com governos autoritários era recorrente, lembrando os casos de Moçambique, Birmânia, Uganda ou o Iemen.

Nessa altura, as ONG calculavam que a Rússia representava 17% da produção mundial da TotalEnergies em hidrocarbonetos, 30% da sua produção de gás, 40% das reservas de gás e mais de 50% dessas reservas a explorar futuramente. As ligações à Novatek e à Zarubezhneft, empresas russas próximas do Kremlin e alvo de sanções, eram também sublinhadas. A Total respondeu que deixaria de comprar produtos petrolíferos à Rússia, mantendo a posição minoritária nas empresas que detinha.

"Ao manter essas relações de negócio com a Novatek e os seus investimentos nos diversos projetos de petróleo e gás na Rússia, a TotalEnergies não pode ignorar que está a contribuir para financiar o esforço de guerra do Kremlin e dessa forma as violações dos direitos humanos e as liberdades fundamentais", afirmavam as ONG.

O Le Monde recorda ainda que foi devido à sua investigação sobre o contributo da TotalEnergies para o financiamento da junta militar birmanesa que a petrolífera se viu obrigada a sair daquele país em janeiro. E desafia o presidente francês Emmanuel Macron a não fechar os olhos ao contributo da empresa para a agressão russa. O Governo francês reagiu à notícia pela voz do ministro dos Transportes, Clement Beaune, que apelou a uma investigação para apurar se existiu alguma violação das sanções em vigor.

Em agosto do ano passado, o Esquerda.net publicou o dossier "Total, combustíveis de sangue", compilando vários casos de atropelos aos direitos humanos, sociais e ambientais, e até mesmo cumplicidade em crimes contra a humanidade em que esta petrolífera aparece envolvida.