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Os seis projetos mais climaticidas da Total

Extração de gás natural no Ártico russo, oleoduto gigante no Uganda, exploração de gás de xisto na Argentina ... O grupo Total está envolvido, em todo o mundo, numa série de projetos que são tão massivos quanto destrutivos do meio ambiente. Por Alexandre-Reza Kokabi e Aline Robert (Reporterre).
Patagónia. Foto de Alvarez Mullaly, OPSur.

A Total "estará entre as cinco maiores super-petrolíferas de energia verde do mundo", afirmou o CEO Patrick Pouyanné. Um grande desafio para uma petrolífera presente em 130 países ... Até porque, como mostramos na terceira parte do nosso levantamento, a Total continua atolada em combustíveis fósseis. A multinacional planeia aumentar a sua produção em 15% até 2030. Para acompanhar esse ritmo, está envolvida em todo o mundo em projetos que destroem o meio ambiente, prejudicam o clima e causam problemas às populações locais.

O Reporterre apresenta seis desses locais:

No Uganda e na Tanzânia, o oleoduto aquecido mais longo do mundo

A Total assinou três acordos importantes com os governos do Uganda e Tanzânia a 11 de abril, para um projeto avaliado em dez mil milhões de dólares. É o maior projeto petrolífero do mundo lançado este ano. E tem dois componentes:

- O projeto de mineração de Tilenga: a multinacional francesa planeia perfurar mais de quatrocentos poços de petróleo localizados, um terço deles, no coração da área natural protegida de Murchison Falls, no Uganda. É adjacente ao Lago Albert, na fronteira com a República Democrática do Congo. Ali encontra-se o equivalente a 6,5 mil milhões de barris de petróleo, e essas reservas devem permitir a exploração entre vinte e cinco e trinta anos. A Total quer extrair 230.000 barris de petróleo por dia a partir de 2025.

- Um oleoduto gigante denominado oleoduto de petróleo bruto da África Oriental (EACOP), o oleoduto aquecido mais longo do mundo. Projetado para exportar o petróleo extraído com o projeto Tilenga, cruzará Uganda e Tanzânia por 1.445 quilómetros, passando por um grande número de áreas protegidas e sítios Ramsar (zonas húmidas de importância internacional), como a bacia do Lago Vitória, a maior de África. Como o óleo extraído é viscoso, este oleoduto será aquecido a 50 ° C.

Murchison Falls no Uganda.

“Esses projetos representam um desastre do ponto de vista energético, ambiental e climático, mas também social, lamenta Juliette Renaud, da associação ambientalista Amis de la Terre. Eles estão a causar deslocamentos massivos de população no Uganda e na Tanzânia, onde a Total e os seus subcontratados desenvolveram ‘planos de ação de reassentamento’ que consistem na expropriação das comunidades”. Quatro ONG do Uganda (Afiego, Cred, Nape / Amis de la Terre Ouganda e Navoda) e duas ONG francesas (Amis de la Terre France e Survie) estão a tentar“ pôr fim às violações dos direitos humanos” e “prevenir um desastre ambiental e climático”. Eles levaram o grupo Total a tribunal, em nome do “dever de vigilância” que tem sido imposto às grandes empresas francesas desde 2017. A coligação internacional StopEACOP publicou um documento detalhado a negar as recentes tentativas da Total de exaltar a sua responsabilidade social e ambiental no âmbito deste megaprojeto de petróleo.

De acordo com Les Échos, três dos principais bancos franceses, BNP, Société Générale e Crédit Agricole, não financiarão este projeto. Os bancos estrangeiros Barclays e Credit Suisse assumiram-no publicamente.

A vermelho, o traçado do oleoduto gigante denominado oleoduto de petróleo bruto da África Oriental (EACOP).

No Ártico Russo, um grande projeto de gás

No Ártico, a Total e o grupo russo Novatek estão a apoiar o projeto Arctic LNG 2, uma gigantesca instalação de liquefação para exportação de gás natural para a Ásia e Europa. Uma vez extraído do solo congelado, o gás seria resfriado a -163 ° C e transportado por uma frota de navios quebra-gelo. A Total tem 21,6% de participação neste projeto com capacidade de produção de 19,8 milhões de toneladas por ano. O local é próximo ao de Yamal, no extremo norte da Rússia, de onde são extraídas 16,5 milhões de toneladas de gás natural liquefeito (GNL) a cada ano.

"Este projeto baseia-se no sucesso da Yamal LNG", referiu o CEO da Total, Patrick Pouyanné, em dezembro de 2019, ao anunciar a decisão final de investimento. “O Arctic LNG 2 complementa o nosso crescente portfólio de projetos competitivos de GNL, com base em recursos gigantescos a baixos custos de produção, e voltados principalmente para os mercados asiáticos”.

Em setembro de 2020, o Le Monde revelou que o Ministério da Economia apoiava este projeto, em nome da defesa das exportações francesas, com o setor petrolífero francês a gerar mais de 90% do seu volume de negócios com as exportações. “Bercy também mantém a ideia de que o gás natural é necessário para a transição energética, mesmo que seja um combustível fóssil, cuja exploração contribui diretamente para o aquecimento global”, especificou o diário, citando “várias fontes governamentais”.

No seguimento deste artigo, oito ONG francesas pediram ao presidente da República Emmanuel Macron que não apoiasse a exploração e transporte de gás no Ártico russo: “A crescente exploração desses recursos, facilitada pelo derretimento do gelo, contribui para o aumento da temperatura que afeta o nível de glaciação. O derretimento acelerado do gelo marinho e do permafrost, por sua vez, liberta enormes quantidades de metano, um gás de efeito estufa com uma potência que aquece 86 vezes mais do que o CO2 num período de vinte anos”, escrevem, antes de especificar que tal decisão “seria em total contradição com as suas declarações anteriores e compromissos internacionais em vários aspetos".

Uma vez extraído, o gaz será arrefecido e transportado por barcos deste tipo.

Emmanuel Macron tinha mesmo declarado, durante o G7 em Biarritz, em agosto de 2019, que “muitos estão a explicar que o aquecimento global é uma boa notícia. O gelo está a derreter, então vamos passar por isso. Usar essa estrada matar-nos-ia”.

Questionado pelo Reporterre, o Ministério da Economia assegura que “ainda não foi tomada a decisão de conceder a garantia do projeto estratégico. Em particular, o Estado ainda aguarda análises socio-ambientais adicionais solicitadas pelo grupo de credores, cuja finalização está atrasada”. A decisão será tomada "provavelmente antes do final de maio de 2021". Contactado pelo Reporterre, o Ministério de Transição Ecológica recusou-se a comunicar a sua posição.

Na Argentina, Total contamina a Patagónia

A exploração de gás e óleo de xisto está a explodir na Argentina. O país detém a segunda maior reserva de gás não convencional do mundo, atrás apenas da China, e a quarta de petróleo não convencional. Na Patagónia, todas as grandes do setor estão presentes, e a Total não fica de fora: “Na Argentina, a Total movimentou cerca de 26% da produção de gás do país em 2020, tornando-se a maior operadora de gás do país”, felicita-se a empresa no seu relatório de atividade de 2020. Na Terra do Fogo, a Total detém 41% do projeto de gás de xisto de Vaca Muerta, na província de Neuquén.

“A indústria do petróleo opera aqui sem nenhum controlo”, explicou Leonel Mingo, do Greenpeace Argentina, ao Reporterre em 2019. “Exigimos que este local seja fechado e que essas empresas deixem de poluir o ecossistema da Patagónia com resíduos de mineração".

Desde o início da exploração da jazida de Vaca Muerta, no noroeste da Patagónia, a região tem vindo a ser desestruturada pelo fracking, fraturamento maciço de uma rocha através da injeção de um líquido pressurizado. Essa técnica faz com que a água poluída se infiltre no solo, com risco de contaminar os lençóis freáticos. Ameaça as comunidades Mapuche de Neuquén estabelecidas perto da jazida, que não podem continuar a viver da pecuária. Além disso, “em Vaca Muerta, os incidentes ambientais, bem como os de trabalho, são comuns. Pelo contrário, é o cumprimento das regras que é excecional", disse ao Reporterre Felipe Gutiérrez, do Observatório Petrolero Sur (OPSur), centro de estudos dos efeitos da extração de petróleo da Argentina.

Na Birmânia, a Total é criticada pelo seu apoio ao regime militar birmanês

O grupo Total está presente na Birmânia desde 1992. Opera principalmente os campos de gás offshore de Yadana e Sein, que fornecem metade do consumo de gás do país. Para construir o seu gasoduto, a empresa recorreu a trabalhos forçados.

A 1 de fevereiro deste ano, um golpe de estado permitiu que a junta militar tomasse o poder. Desde então, os birmaneses envolveram-se num vasto movimento de desobediência civil violentamente reprimida. A Junta em particular atirou contra multidões com munição real. De acordo com dados da Associação para a Assistência a Presos Políticos (AAPP), mais de 750 birmaneses foram mortos pelos militares. A Total disse estar "preocupada" com a situação sem, no entanto, interromper as suas atividades por lá.

No final de março, cerca de 20 ativistas da Extinction Rebellion e da ONG Info Burma publicaram dezenas de fotos da violência cometida. O objetivo: pedir ao gigante do petróleo que suspenda o pagamento dos impostos da sua atividade de gás à junta birmanesa. De acordo com dados fornecidos pela Total, a multinacional pagou mais de 229 milhões de dólares em impostos ao estado birmanês em 2019. Dos quais 51 milhões de dólares ao Ministério das Finanças e 178,6 milhões de dólares à Empresa de Petróleo e Gás de Myanmar (MOGE) controlada pelos militares. O jornal Le Monde revelou, no dia 4 de maio, como a Total financiou os generais através de contas offshore, via Bermudas.

Ativistas na entrada da sede da Total em Paris, em março de 2021, denunciam as violências cometidas contra manifestantes em Myanmar (Birmânia).

Os manifestantes e o governo democraticamente eleito têm pedido à Total que coloque o dinheiro desses impostos numa conta de garantia, enquanto se aguarda o retorno à normalidade. Em comunicado, Greenpeace France, Amis de la Terre France, Ligue des droits de l’Homme, Info Birmanie, Notre affaire à tous, Sherpa e 350.org apoiaram esta reivindicação.

“A União Europeia aplicou sanções contra uma lista de vários generais birmaneses. No seu texto, especifica-se que "proíbe os cidadãos e empresas da UE de disponibilizarem fundos a pessoas e entidades constantes desta lista". “Sentimos que a Total está febril e reconhece que as acusações de crimes contra a humanidade são graves e podem ter repercussões criminais”, disse ao Reporterre Vincent Brossel, membro do Info Burma, no final de março.

O CEO da Total, Patrick Pouyanné, publicou uma coluna no Journal du Dimanche para explicar que a Total não se retiraria do país por forma, garante, a não colocar em risco as populações, às quais seria cortada a eletricidade, e aos seus funcionários. "Correremos o risco de cortes de energia por um futuro sem opressão", responderam numa carta aberta ao CEO da Total 403 de organizações da sociedade civil birmanesa a 20 de abril.

No Iémen, a unidade Balhaf da Total transformou-se numa prisão secreta

Na costa sul do Iémen, o grupo francês é acionista de 39,6% de um enorme complexo de gás que surgiu em 2009. Era o ponto de chegada do gás produzido no campo de Marib pela empresa nacional iemenita. Quando a operar em plena capacidade, esta unidade respondeu por quase 45% da receita tributária do Iémen. Operada pela empresa local Yemen LNG, a unidade foi encerrada na primavera de 2015, no início da guerra no Iémen. Em abril de 2015, o grupo reduziu a equipa local e a produção ao mínimo, colocando a estrutura "em modo de preservação". Desde o início de 2017, o seu gasoduto transportou uma quantidade mínima e constante de gás, permitindo que a pequena equipa faça funcionar as instalações, evitando que sejam danificadas e fornecendo um pouco de energia às populações locais.

No entanto, desde meados de 2017, testemunhos recolhidos pela Amnistia Internacional, o painel de especialistas das Nações Unidas sobre o Iémen, bem como por ONG e ativistas iemenitas, indicaram a existência de um local de detenção em Balhaf, administrado por forças dos Emirados no âmbito de uma base militar. Este foi instalado pelos Emirados Árabes Unidos em meados de 2017 em parte da unidade, requisitada a pedido oficial do governo iemenita, ele próprio aliado da coligação Saudita-Emirados. A partir dessa data, o local seria dividido em dois e separado por um muro alto de três metros de altura: a primeira parte seria requisitada pelas forças dos Emirados Árabes Unidos; a segunda ficaria nas mãos do consórcio. Segundo a Total, “foram assim estabelecidos dois perímetros com separações físicas e acessos separados. A responsabilidade e a gestão da parte requisitada foram inteiramente transferidas para as forças da coligação”.

A existência de uma "célula de contenção temporária" na base foi confirmada ao Le Monde por um funcionário da coligação de países árabes liderada por Riade no Iémen. Funcionaria como uma câmara de descompressão para os detidos transferidos para a prisão de Moukalla, no leste do país. Num relatório publicado em 7 de novembro de 2019 pelas ONG Armaments Observatory, SumOfUs e Friends of the Earth, dois prisioneiros testemunharam. Um afirma ter sido espancado, privado de tratamento e ameaçado de morte em Balhaf. “Tratamento desumano e degradante (privação de cuidados, tortura) [foi] cometido por soldados dos Emirados”, denunciam as ONG. A ONG suíça Mena Rights Group avançou com uma ação em junho de 2020 junto do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas.

Moçambique, um megaprojeto de gás suspenso, mas não abandonado

A Total possui 26,5% de um megaprojeto de produção e exportação de gás denominado Mozambique LNG. Com vinte mil milhões de dólares, este é um dos maiores investimentos já anunciados no continente africano. O projeto envolve o bombeamento de gás de campos offshore no Oceano Índico, trazendo-o para terra por gasoduto submarino e construindo duas unidades de liquefação com uma capacidade anual de treze milhões de toneladas de gás natural liquefeito. Foi iniciado após a descoberta de grandes quantidades de gás natural na bacia do Rovuma, ao largo da costa norte de Moçambique, em 2010. A decisão final de investimento foi tomada em junho de 2019, não obstante o impacto climático do projeto.

Captura de ecrã de um vídeo da Total.

Mas os repetidos ataques de grupos jihadistas ligados ao Estado Islâmico perto do local obrigaram o a Total a suspender o projeto por "força maior" após outro ataque jihadista. “Dada a evolução da situação de segurança na província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, a Total confirma a retirada de todos os funcionários do projeto”, referiu a multinacional. O início do projeto em 2024 é agora improvável, mas não foi abandonado conforme solicitado pelos Amis de la Terre.


Artigo publicado no Reporterre (atualização de 17 maio 2021 à 21h48).
Tradução de Mariana Carneiro para o Esquerda.net

(...)

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